terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Carpas

 

Carpas

 

Arrependido de ter acessado o jornal, ainda mais depois do almoço, ainda com a comida sendo digerida, com todas aquelas notícias dando um violento retrato da realidade, escolho sair.

Claro que esta saída é fuga.

Incomoda-me cochilar vendo tevê, escapulo, porque os problemas daqui, e não apenas desta cachola, não têm aqueles tons apocalípticos que o mundo carece de permanentemente habituar-se a tê-los.

Não me habituo nem me acostumo, necessito de saber que o amigo melhorou da espinha que o acupunturista deu jeito, quero encontrar a amiga contente que a netinha tenha sido batizada antes de completar um aninho, aproveito para pesquisar os preços do modelo de tênis que uso desde que passei a lutar contra os cadarços.

Levo a sério o meu bem-estar, já que não apelo ao cinismo estando calmo; e sobre os meus calos, submeti o meu gosto à necessidade de respeitá-los a cada passo.

De loja em loja: comprarei o modelo cuja fôrma não maltrate meus mindinhos; pelo preço que me permita pagar à vista o par cujo número é o meu, não peregrino, saio lucrando.

Poupo ao gastar pouco e exercito-me.

Não se trata apenas de saber quanto custa, é que, depois de alguns assaltos, aprendi a andar com trocadinhos, assim, quando informado do valor, corro buscar a quantia certa.

Se o assaltante se irrita, prometo trazer o dobro da próxima vez.

Se me acovardo, mesmo que dobre o tempo gasto para ir e voltar, altero o trajeto.

A flexibilidade que adoto não é humilhante, uma vez que me perfilo entre as pessoas que se apouquentam quando, sem avaliar o instante, condescendem ou intransigem.

Muita gente acha que vacilo, mas, sem titubear, pondero.

Décadas atrás, eu trabalhava na área da saúde, era um agente de combate à dengue. Indo de casa em casa, verificando calhas, ralos e geladeiras, entrei numa residência cuja fachada me enganou.

A casa era cercada por mato alto, as paredes precisavam de pintura e a sineta do portão não tinha badalo.

Quem atendeu às palmas foi um idoso que falava mal o português.

O octogenário nascera na Terra do Sol Nascente, viera para Ibiúna havia setenta anos e mudou-se pro Piratuba há meio século.

Na casa, olhei atrás da geladeira e orientei que não sobrasse água em pratinho de vaso.

Pedi para verificar o quintal.

Nos fundos, havia uma piscina de areia.

Dentro do retângulo, com uns dez centímetros de largura, tinha dois caminhos de igual comprimento: um era de pedregulho e um de grama mascarenha.

Se fosse um relógio, a vereda dos pedriscos ia das oito a uma hora e a vereda gramada partia das sete para chegar às duas.

Triangulares, tinha um tanque de carpas entre nove e doze e outro entre seis e três.

O que provocou estranhamento foi o que ele disse, que ambos não eram dois, eram um.

Caso quisesse alimentar as koi, o senhor Shigeo solicitou-me que tirasse a terra das minhocas que eu mesmo coletaria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2025.

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