terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Relações misteriosas

 

Relações misteriosas

 

O motorista não precisou manobrar o caminhão para estacioná-lo, era domingo. Sem perda de tempo, os funcionários começaram a levar caixas, encontraram portão e porta abertos. O motorista sentou-se na calçada, recostou-se no muro, tinha tanta coisa para assistir, pena que fosse alérgico a fones de ouvido. No uniforme dos funcionários estava estampado o logo daquela famigeradíssima empresa de mudanças ― o mais vistoso às costas e o menor no cantinho em que a maioria julga sentir o coração, à esquerda.

Compadecido, não exporia os meus cães àqueles funks em volume enlouquecedor: os pugs Marx e Rosa foram os primeiros a correr atrás das pombas; Sebastian e Clara, os collies, nunca as comeram.

Pedindo vênia a você que me lê, é em nome da transparência que informo que batizei os cães por causa de Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Johann Sebastian Bach e Clara Schumann.

Tão logo as margaridas pararam a um passo, enluvei as mãos com sacolinhas de supermercado e atirei no carrinho a pomba abatida pela tão entusiasmada Clara.

Pra não me criticarem condescendente com os bichinhos, invitei-as a que bebessem café, pedissem pãozinho na chapa ou simplesmente me agradecessem, gratas por eu não ser mais um toleirão na praça.

“O senhor é sempre o mesmo, sempre generoso, sempre pagando um cafezinho, sempre ajudando, jogando o lixo no lixo, sempre”.

Para ser sincero, tomamos café, comemos coxinha, reclamamos do calor, clamamos por chuva, nada de temporal que dê prejuízo a quem já tem sofrido uma barbaridade com o preço das coisas.

Em outras palavras: sensato seria eu confessar que, sem ninguém espiando, pensando em dores lombares e joelhos estalando, prioritário é preservar a espinha ereta.

Eis que a ociosidade tem esse poder sutil, o de permitir que o ocioso espie um pouco, só mais outro tantico, até que o arroz com feijão venha à mesa que nem as cuecas lavadas que se penduram no varal.

Como era domingo, como estava a fim de ficar à toa mais um pouco, fui à janela que dá para o beco, fui chupar uva, fui ver o que desse para ver, e eu vi.

Sem caixas pra descarregar, distribuídos de acordo com o cômodo, transportaram tevê, camas, cômodas, guarda-roupas, tevê, geladeira, fogão, mesa, cadeiras, poltronas, retratos, abajures, livros e livros.

Reconheci os móveis, eram antigos. Embora bem antigos, estavam preservados. Aquele mobiliário fora retirado da casa quando morreu aquele que a construiu do zero, pondo abaixo a residência erguida por um fundador da cidade.

O primeiro dono da atual construção nasceu para pescar, e pescava o ano todo. De domingo a domingo, levantando-se antes da aurora, ele só tinha o trabalho de ir pescar a cem metros da porta da cozinha, indo ao rio que, mesmo hoje, corre ainda nos fundos da propriedade.

O mundo são mistérios que a razão tenta emaranhá-los?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de janeiro de 2025.

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