O motorista não precisou manobrar o
caminhão para estacioná-lo, era domingo. Sem perda de tempo, os funcionários
começaram a levar caixas, encontraram portão e porta abertos. O motorista
sentou-se na calçada, recostou-se no muro, tinha tanta coisa para assistir,
pena que fosse alérgico a fones de ouvido. No uniforme dos funcionários estava estampado
o logo daquela famigeradíssima empresa de mudanças ― o mais vistoso às costas e
o menor no cantinho em que a maioria julga sentir o coração, à esquerda.
Compadecido, não exporia os meus cães
àqueles funks em volume enlouquecedor: os pugs Marx e Rosa foram os primeiros a
correr atrás das pombas; Sebastian e Clara, os collies, nunca as comeram.
Pedindo vênia a você que me lê, é em nome da transparência que informo que batizei os cães por causa de Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Johann Sebastian Bach e Clara Schumann.
Tão logo as margaridas pararam a um
passo, enluvei as mãos com sacolinhas de supermercado e atirei no carrinho a
pomba abatida pela tão entusiasmada Clara.
Pra não me criticarem condescendente com
os bichinhos, invitei-as a que bebessem café, pedissem pãozinho na chapa ou simplesmente
me agradecessem, gratas por eu não ser mais um toleirão na praça.
“O senhor é sempre o mesmo, sempre
generoso, sempre pagando um cafezinho, sempre ajudando, jogando o lixo no lixo,
sempre”.
Para ser sincero, tomamos café, comemos
coxinha, reclamamos do calor, clamamos por chuva, nada de temporal que dê
prejuízo a quem já tem sofrido uma barbaridade com o preço das coisas.
Em outras palavras: sensato seria eu
confessar que, sem ninguém espiando, pensando em dores lombares e joelhos
estalando, prioritário é preservar a espinha ereta.
Eis que a ociosidade tem esse poder
sutil, o de permitir que o ocioso espie um pouco, só mais outro tantico, até
que o arroz com feijão venha à mesa que nem as cuecas lavadas que se penduram
no varal.
Como era domingo, como estava a fim de
ficar à toa mais um pouco, fui à janela que dá para o beco, fui chupar uva, fui
ver o que desse para ver, e eu vi.
Sem caixas pra descarregar, distribuídos
de acordo com o cômodo, transportaram tevê, camas, cômodas, guarda-roupas,
tevê, geladeira, fogão, mesa, cadeiras, poltronas, retratos, abajures, livros e
livros.
Reconheci os móveis, eram antigos.
Embora bem antigos, estavam preservados. Aquele mobiliário fora retirado da
casa quando morreu aquele que a construiu do zero, pondo abaixo a
residência erguida por um fundador da cidade.
O primeiro dono da atual construção
nasceu para pescar, e pescava o ano todo. De domingo a domingo, levantando-se
antes da aurora, ele só tinha o trabalho de ir pescar a cem metros da porta da
cozinha, indo ao rio que, mesmo hoje, corre ainda nos fundos da propriedade.
O mundo são mistérios que a razão tenta
emaranhá-los?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de janeiro de 2025.
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