quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Não estamos a sós

 

Não estamos a sós

 

Por mais que diga que não me importo, estou tentado a admitir que as circunstâncias me afetam.

Há um pernilongo; tenho esta leitura que não pretendo interromper; quero que o inseto voe para longe para que eu termine de ler as últimas páginas do livro.

Não acho boa ideia ler em voz alta, pois isso não mudaria nada.

O pernilongo dá rasantes sobre a tela do tablete, isso me faz perder o foco, isso, estar perdido, me deixa intranquilo porque saber-me preso numa daquelas páginas finais é desapontador.

Pra que a leitura não cause desapontamento, ou lasco um tapa ou, pra ruminar o que está lido e por haver tomado pé da fadiga, aguardo ser derrotado pelo sonífero.

Há ventania. A chuva vem vindo. Ouço trovões, mas os relâmpagos ainda não são flashes. A noite pode ter alguma chance, se não chover como os raios prenunciam.

Como sei onde estarei quando a luz acabar, fecho a porta do quarto; com a cabeça coberta pelo lençol, sorrio no escuro.

Depois de recicladas como badulaques decorativos, não temo que lâmpadas queimadas voltem a iluminar.

Mesmo assim, levanto, vou conferir que a escuridão esteja em cada cômodo da casa; tudo às escuras, posso deitar.

Convém que eu cheque portas e janelas. Destravo-as e chaveio-as; corro-as e cerro-as. Convém ficar longe de portas e janelas, mas sento no sofá, perto do celular.

Os trovões estão perto; e gosto de ouvi-los. A chuva cai. As rajadas de vento silvam nas frestas. O temporal impressiona, mas não o avalio assustador, não o dimensiono além do que é.

Chuva não é monstro fantasmagórico a bicar o meu fígado.

Em tempo: quero certificar-me de que o guarda-roupa fechado está chaveado, ou os fantasmas tenderão a abrigar-se na geladeira.

A explicação que me faça compreender por que os meus fantasmas têm essa predileção por buscarem ficar protegidos na geladeira, esse conhecimento, por tamanha imbecilidade, espanta-me.

Não pergunto se estou motivado a ir pela trilha que deixam a cada vez que as tempestades tanto os assombram.

Na geladeira hermeticamente vedada, a água comunica-se comigo. Entendo que me queira tremendo, tenha calafrios, que minha estupidez de idiota faça-me ter consciência da minha condição.

Não perco tempo, ligo a lanterna do celular, pego a caneta e anoto na lista de compra: vela para filtro.

Como a força vai mesmo cair, e prevenção é bom negócio, risco o escrito e novamente escrevo: duas velas para filtro de barro.

Abro a geladeira. Checo a temperatura do jarro. A língua apura que a água sequer está morna, apesar das bolhas. Engulo um gole d’água gelada. Sei, a borracha segue útil, não está frouxa, é ela que impede o temporal de adulterá-la, torná-la amara.

De cima da pia, pego o copo nem lavado. E sem nojo da borda suja, beberico a água.

O que o temporal não imagina que se passa comigo?

Eventualmente, tenho sede quando estou só.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2025.

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