Noutros tempos, o senhor achava
divertido sair correndo depois de ter tocado a campainha. Hoje, o menino
grisalho posta um meme como quem aperta uma campainha.
Outrora, uma vez que ele não pensava que
tomaria bronca por essa brincadeira, era revoltante ficar proibido de ver
Bonanza. Atualmente, mesmo que nem consiga terminar de assistir ao jornal das
sete, teima em sentar-se para assisti-lo desde o início.
O orgulho está em fazer bem o que teme
conseguir fazê-lo somente a contento, terminando, ainda que mereça
congratulações, isso não o põe envaidecido, isso o deixa tranquilo, pois a sua tranquilidade
é a de quem valoriza a própria modéstia.
Modéstia à parte, foi de guri que
aprendeu as artimanhas que julga positivamente eficazes, como se a campainha
tocada fosse a da casa cujos donos não sejam de tirar satisfação por molecagens.
Para que a vida siga serena, o jeito é
tocar em frente, é postar mais um meme, outro que faça rir sem a pecha de
notícia falsa, sem que o rotulem como obra perpetrada por um reaça das antigas.
Ele não é gente que saliva por erros do
passado, até porque os pais lhe ensinaram que a punição de ir pra cama sem sono
virava o castigo de ser impedido de testemunhar a explosão de Dona Redonda.
A vida educa, e pessoa educada sabe que as
alegrias perdidas não movem moinho, elas só remoem pão amassado por teimoso.
Teimosias à parte, o velho que toca
campainhas como se estivesse postando verdades irrefutáveis é gente que cobra
os joinhas que faltam para passar de um milhão de curtidas.
Bicho, ter um milhão de amigos é o maior
barato.
Embora vá às redes para mais uma bola
fora, para outro gol contra, é uma sensação maravilhosa dar em primeira mão que
o mundo pode ser um lugar bacana para viver, basta que a gente não se
envergonhe das coisas que precisam ser compartilhadas, sejam mostradas, ditas e
tornadas públicas sem medo de cancelamento, até porque o mundo de hoje não é o
mesmo mundo de ontem.
Em vez de pavões misteriosos, pessoas com
problemas.
Como a campainha toca quando tocada, a
alegria do tagarela é não segurar a matraca.
Então, o idoso sente-se no dever de
compartilhar o que pensa, pois isso de arrebanhar para si a autoridade de quem
viu a série do começo ao fim, é isso que o faz apresentar-se apto a ligar os
pontos sem abrir as pernas ao entretenimento.
Como cabe ao crítico ultrapassar os chavões
que enquadrem o que seja campainha ou meme, o menino grande que dorme a hora
que quer não se acabrunha diante do seriadinho assistido.
Então, a fotografia que mostra o menino
observando a cena não diz que ele não viu a faca fazendo o xis no braço para
que a mãe sugasse o sangue, embora a imagem autorize o flagrante.
O jeito é embirrar em querer ir aonde até
o sangue lambido pareça indicar que a justiça deseje tanto dar acesso, ou a
obra teria outro título que não esse: Disclaimer.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de janeiro de 2025.
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