Durante o café, ele pensa.
Manterei a paciência ainda que veja o
caminho óbvio a seduzir-me a trilhá-lo embora suspeite que, começo de ano após
começo de ano, cairei na mesmíssima arapuca que a cabecinha apraz montar.
No primeiro dia útil, vou tirar dinheiro
da poupança. Não hesitarei e não admitirei cansaço, uma vez que manhã e tarde estarão
reservadas ao melhor exercício que funcione como desintoxicação.
Vou comprar dois jogos de lençol e dois jogos
de toalhas, comprarei um pacote com quatro escovas de dentes, vou comprar meia
dúzia de tubos de creme dental, comprarei as cortinas pros banheiros e pra sala,
embora precise me lembrar da boina novinha, uma que a mim repagine descontraído
aos olhos das pessoas que acham que não passo de um melancólico enrustido.
Mostrarei que não mais me resguardarei das
rugas que o meu rosto teima em carregar, mesmo comigo a negar a ideia que o meu
rosto tem esta herança presumida ao escancarar a minha idade.
Quase disse “a idade que tenho”, o que
seria um equívoco, porque o mais correto, creio, seja dizer “a idade que me
tem”, porque o tempo não é meu, eu é que sou dele.
Digo à inocência que sou inexperiente em
matéria de dissimulação. Insisto em pensamento que meus sessenta anos vividos
ainda não me ensinaram a controlar as reações.
Culparei o espelho cujas reflexões são concretas?
Para cúmulo da lucidez: veja-se, pessoa imóvel, ao mirar-me.
Depois de escovar os dentes, encarando a
imagem, ele diz que não comprará nada se estiver estacionado um carro verde na
frente da sua casa. Se o carro for rosa choque, um daqueles carrinhos ridículos
que só existem no cinema, será do Austin Powers.
Ele não é bocó para adotar cores
berrantes, ainda mais que nasceu para caminhar, não pra dirigir um objeto
estigmatizado.
Se lhe desse vontade de gastar o
dinheiro da poupança, compraria uma máquina elétrica, pois o A da sua Remington
fica desalinhado em relação às demais letras, pairando acima da linha.
Ele quer terminar o texto que imaginara,
nele a personagem diz que é melhor não dizer nada, que é melhor pensar melhor,
mas sem parar na rua, uma vez que a sua sombrinha laranja se destaca em meio às
tantas sombrinhas pretas, brancas e cinzentas.
Ele diz a ele próprio no espelho que não
é nenhuma maluquice dizer que está bem, mesmo que o reflexo franza a testa,
faça bico e meneie a cabeça, estamos bem, mesmo que não estejamos, estamos.
Ao espelho, ele queria dizer: quando
houver uma folga, precisamos conversar, você e eu, precisamos de um bom e
demorado papo, ou as coisas ficarão complicadas, difíceis de lidar, daremos
vexame.
Ele penteia o cabelo, abotoa a camisa e,
para conferir que não tem sujeira nos dentes, sorri, até ele faz sorrir
ligeiramente.
A despeito disso, belo é assistir a um
mini cooper sendo guinchado por estacionamento em local permitido.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2025.
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