domingo, 12 de janeiro de 2025

Testemunha ocular

 

Testemunha ocular

 

Durante o café, ele pensa.

Manterei a paciência ainda que veja o caminho óbvio a seduzir-me a trilhá-lo embora suspeite que, começo de ano após começo de ano, cairei na mesmíssima arapuca que a cabecinha apraz montar.

No primeiro dia útil, vou tirar dinheiro da poupança. Não hesitarei e não admitirei cansaço, uma vez que manhã e tarde estarão reservadas ao melhor exercício que funcione como desintoxicação.

Vou comprar dois jogos de lençol e dois jogos de toalhas, comprarei um pacote com quatro escovas de dentes, vou comprar meia dúzia de tubos de creme dental, comprarei as cortinas pros banheiros e pra sala, embora precise me lembrar da boina novinha, uma que a mim repagine descontraído aos olhos das pessoas que acham que não passo de um melancólico enrustido.

Mostrarei que não mais me resguardarei das rugas que o meu rosto teima em carregar, mesmo comigo a negar a ideia que o meu rosto tem esta herança presumida ao escancarar a minha idade.

Quase disse “a idade que tenho”, o que seria um equívoco, porque o mais correto, creio, seja dizer “a idade que me tem”, porque o tempo não é meu, eu é que sou dele.

Digo à inocência que sou inexperiente em matéria de dissimulação. Insisto em pensamento que meus sessenta anos vividos ainda não me ensinaram a controlar as reações.

Culparei o espelho cujas reflexões são concretas? Para cúmulo da lucidez: veja-se, pessoa imóvel, ao mirar-me.

Depois de escovar os dentes, encarando a imagem, ele diz que não comprará nada se estiver estacionado um carro verde na frente da sua casa. Se o carro for rosa choque, um daqueles carrinhos ridículos que só existem no cinema, será do Austin Powers.

Ele não é bocó para adotar cores berrantes, ainda mais que nasceu para caminhar, não pra dirigir um objeto estigmatizado.

Se lhe desse vontade de gastar o dinheiro da poupança, compraria uma máquina elétrica, pois o A da sua Remington fica desalinhado em relação às demais letras, pairando acima da linha.

Ele quer terminar o texto que imaginara, nele a personagem diz que é melhor não dizer nada, que é melhor pensar melhor, mas sem parar na rua, uma vez que a sua sombrinha laranja se destaca em meio às tantas sombrinhas pretas, brancas e cinzentas.

Ele diz a ele próprio no espelho que não é nenhuma maluquice dizer que está bem, mesmo que o reflexo franza a testa, faça bico e meneie a cabeça, estamos bem, mesmo que não estejamos, estamos.

Ao espelho, ele queria dizer: quando houver uma folga, precisamos conversar, você e eu, precisamos de um bom e demorado papo, ou as coisas ficarão complicadas, difíceis de lidar, daremos vexame.

Ele penteia o cabelo, abotoa a camisa e, para conferir que não tem sujeira nos dentes, sorri, até ele faz sorrir ligeiramente.

A despeito disso, belo é assistir a um mini cooper sendo guinchado por estacionamento em local permitido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2025.

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