terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Isso é só o começo

 

Isso é só o começo

 

A sensação que me incomodou ontem torna a incomodar-me agora, e, assim como o fiz ontem, abro bruscamente a porta da frente, porque me dá força a convicção de que tem gente escutando.

Tanto não há ninguém quanto não houve ― é vão o assalto.

Queria que tivesse, uma vez que isso facilitaria: a pessoa é amiga ou sequer é conhecida da vizinhança?

Sendo amiga, entre tomar um refresco; tão somente alcoviteira, vá cuidar das próprias misérias.

Ontem quanto agora, apelo a golinhos de laranjada. E cada gole me fortalece que não enlouqueci. Ainda que nem tenha sentido, não pirei. Embora tomar uma jarra de dois litros de laranjada por dia, já passa de uma quinzena, possa ser definida como sintoma.

Estou ficando paranoico, ou o quê?

Na semana passada, tanto na quinta quanto na quarta, o fato de ter acordado no meio da noite com a certeza de ter ouvido barulho dentro de casa, esses dois eventos não são sinal de arrombamento.

Como não tenho nenhum seguro, nem da minha vida, fui à cozinha e fui à sala ― as duas portas estavam trancadas.

Mais ou menos há um mês, noutra madrugada de calor, eu tive um sonho. Por duas noites seguidas, num sábado e num domingo, o sonho se repetiu. O mesmo sonho uniu dois mundos, o da laranjada gelada e o do café coado na hora.

Sonhei que tomava um gole de café. Sim, tomava. E o bebia quente, com açúcar. Deliciava-me bebê-lo passado na hora, algo bem diferente de beber laranjada, com laranjas espremidas sabe-se lá quando.

Porque esse gole de café era o último do copo; e tendo bebido esse gole único, restava o último dedo. Bebia, mas o dedo ficava na mesma. Tinha fé, e tornava a beber o gole que permanecia intocado.

Para amanhecer ontem, segunda, sonhei que tomava laranjada, e tive tempo, eu fui urinar no banheiro. Pra amanhecer hoje, todavia, não tive, pois o golinho de café foi o bastante para preocupações.

Salivo e cuspo, que isso de molhar o pijama me faz engasgar, pelo tanto que enjoo.

Na sexta-feira, acordei com esse gosto de café, aquele que só havia sonhado que bebia. No entanto, cuspi. Uma vez que acordei certo de que engasgara, preferi cuspi-lo, e ainda cuspo. Quero a certeza de que a laranjada não se transformou em café, ou restaria a sensação de que a cabeça quer-me desconfiado.

Não intuo, pois atino que suo.

É terça-feira, ontem desmontei a árvore, guardei guirlanda, bolas e a manjedoura de vime forrada com palha de milho.

É terça, me esforcei para não brincar a folia, mas a cantoria veio de longe, vinda de lá, de onde a criança que fui ainda brinca comigo, pois continuo respeitoso.

É terça-feira, e eu medirei, serrarei e pregarei as tábuas.

Amanhã e depois, lá do galho, de lá verei o quintal, a rua que corre na frente e o riozinho que flui ao fundo.

E brindarei, pois começo a sacar que café e laranjada se mesclam, tal qual alegria e histrionismo, feito rã e seus mergulhos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de janeiro de 2025.

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