Falemos baixo. Porquanto nos seja
possível falarmos baixinho, não sussurremos. Sussurros ou fala vagarosa, rejeitamos
tais macetes. Pra que a nossa presença ilumine-se, narremos a história que percebemos
como dada, aquela que intuímos entranhada em nós.
Sejamos práticos. Tal qual Seu Rodrigues,
que precisa dar cabo de uma tarefa, contemos não nos confundirmos. A despeito
dos prejuízos morais, sejamos lógicos. Se Seu Rodrigues não a vê como problema,
a tarefa precisa ser realizada, não compreendida. Sendo somente uma empreitada,
podemos concordar em delegá-la a outrem.
Por demandar costas que não travem
depois de curvadas por uma hora, Seu Rodrigues lista quem possa cuidar dessa
demanda.
Luisinho é o amigo que dispõe de tempo
para executar o serviço, e as suas costas aguentam uma hora ou mais; o principal,
porém, é que ele não cobrará um vintém pelo emprego das suas mãos.
Pelo que vem, a colocação do rejunte nos
vãos da cerâmica, nossa personagem de costas sensíveis a esforço admite que
cágados caindo dos céus assustam mais do que fezes de maritacas.
Pelo que veio, esse Luisinho de lacunas
nas lembranças, o cidadão não se lembra de ter feito algo parecido, sente, todavia,
que arriscar é experimentar fazer novo o que nem tenha feito.
Pelo que vai, o preparo da argamassa,
Luisinho põe o pó num pote de sorvete, junta água, põe mais pó, põe mais água,
põe mais pó, põe mais água, até que ele interrompe aquela inconsistência: seja
aplicada a mistura do jeito que se encontra.
Sem delongas, Seu Rodrigues traz
refrigerante e amendoim.
Luisinho larga a esponja. Enquanto come
e bebe, ele conta ter sido acordado por charanga e turba que passaram tocando e
cantando as marchinhas de carnaval que a gente sabe desde criança.
Sejamos parlapatões, alegremo-nos com a
alegria de terceiros. Não guardemos silêncio, sejamos entusiasmados cirandeiros
que cantam e dançam feito crianças. Amemos cantar, e não detestemos a quem ama
cantar. Por inquietude, sejamos levados. Ainda que possamos parecer lascivos,
cantemos e dancemos de corpo presente.
Por empáticos, cedamos vez à voz do
Jovem Rodrigues:
ꟷ Eu brincava o carnaval porque gostava.
Não era gente que ficava pensando na folia. Passado um ano, eu vestia a
fantasia que a mamãe tinha feito pro meu irmão. Ajustes eram dispensados. Bastava
um tapa-olho pro pirata da perna-de-pau barbarizar.
Já a personalidade do Luisinho, essa ele
nunca muda:
ꟷ Nunca fui de matinê. Não tinha
fantasia que camuflasse quem eu gostava de ser. De lenço encharcado nos perfumes
das madrugadas, o carnaval era curto. Os quatro dias eram cisco. Porque as
contas me queimavam na praça, a quarta-feira era mesmo de cinzas.
Não paguemos pela língua, personifiquemos
o silêncio, pois, depois de amendoim e guaraná ajuntados, nós não falhamos:
ꟷ Ao ócio!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de setembro de 2023.
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