domingo, 10 de setembro de 2023

Trabalho em equipe

 

Trabalho em equipe

 

Falemos baixo. Porquanto nos seja possível falarmos baixinho, não sussurremos. Sussurros ou fala vagarosa, rejeitamos tais macetes. Pra que a nossa presença ilumine-se, narremos a história que percebemos como dada, aquela que intuímos entranhada em nós.

Sejamos práticos. Tal qual Seu Rodrigues, que precisa dar cabo de uma tarefa, contemos não nos confundirmos. A despeito dos prejuízos morais, sejamos lógicos. Se Seu Rodrigues não a vê como problema, a tarefa precisa ser realizada, não compreendida. Sendo somente uma empreitada, podemos concordar em delegá-la a outrem.

Por demandar costas que não travem depois de curvadas por uma hora, Seu Rodrigues lista quem possa cuidar dessa demanda.

Luisinho é o amigo que dispõe de tempo para executar o serviço, e as suas costas aguentam uma hora ou mais; o principal, porém, é que ele não cobrará um vintém pelo emprego das suas mãos.

Pelo que vem, a colocação do rejunte nos vãos da cerâmica, nossa personagem de costas sensíveis a esforço admite que cágados caindo dos céus assustam mais do que fezes de maritacas.

Pelo que veio, esse Luisinho de lacunas nas lembranças, o cidadão não se lembra de ter feito algo parecido, sente, todavia, que arriscar é experimentar fazer novo o que nem tenha feito.

Pelo que vai, o preparo da argamassa, Luisinho põe o pó num pote de sorvete, junta água, põe mais pó, põe mais água, põe mais pó, põe mais água, até que ele interrompe aquela inconsistência: seja aplicada a mistura do jeito que se encontra.

Sem delongas, Seu Rodrigues traz refrigerante e amendoim.

Luisinho larga a esponja. Enquanto come e bebe, ele conta ter sido acordado por charanga e turba que passaram tocando e cantando as marchinhas de carnaval que a gente sabe desde criança.

Sejamos parlapatões, alegremo-nos com a alegria de terceiros. Não guardemos silêncio, sejamos entusiasmados cirandeiros que cantam e dançam feito crianças. Amemos cantar, e não detestemos a quem ama cantar. Por inquietude, sejamos levados. Ainda que possamos parecer lascivos, cantemos e dancemos de corpo presente.

Por empáticos, cedamos vez à voz do Jovem Rodrigues:

ꟷ Eu brincava o carnaval porque gostava. Não era gente que ficava pensando na folia. Passado um ano, eu vestia a fantasia que a mamãe tinha feito pro meu irmão. Ajustes eram dispensados. Bastava um tapa-olho pro pirata da perna-de-pau barbarizar.

Já a personalidade do Luisinho, essa ele nunca muda:

ꟷ Nunca fui de matinê. Não tinha fantasia que camuflasse quem eu gostava de ser. De lenço encharcado nos perfumes das madrugadas, o carnaval era curto. Os quatro dias eram cisco. Porque as contas me queimavam na praça, a quarta-feira era mesmo de cinzas.

Não paguemos pela língua, personifiquemos o silêncio, pois, depois de amendoim e guaraná ajuntados, nós não falhamos:

ꟷ Ao ócio!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de setembro de 2023.

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