domingo, 3 de setembro de 2023

A farsa do fraterno retorno

 

A farsa do fraterno retorno

 

Conheço quem se esconda ao falar de si. Atribuindo a outra pessoa, conta o que faz. Sem modéstia, elogia. Com orgulho, engrandece. Por valorizar mágoas, inveja. Ainda que pareça candura, acredito piamente na boa-fé dessa gente alheia a vaidades.

Pouco ligo que tal sinceridade seja fajuta, pois minha crença não é hipócrita. Maiúsculo é honrar o sigilo, não o segredo.

Não julgo quem me escolhe pra confidenciar o que sua consciência urge dar disseminação, embora envergonhada.

Muita gente é panela de pressão a ponto de secar.

Mas, se confiam em mim, contem comigo. Ainda que me descartem feito água, manterei o fogo baixo.

Também não me vejo na condição de areia, porque ampulhetas não domesticam o tempo. Oxe! Minha discrição pode ser tanta, que ventos sopram e chuvas caem e rios transbordam e o raio do meu recato não justifica que me acusem de omisso ou cúmplice.

Na vilania carimbada à minha pessoa, não entra a esperteza.

Foi assim que, esquecido do passado porque tenho apreensões pra hoje, vi-me frente a frente de quem me conhece bem melhor do que eu mesmo, gente que sabe realmente quem sou.

E quem eu acho que não sou?

Nas linhas tortas do tempo, não sou careta. Ainda que na juventude não tenha bebido como um Fred Astaire de Campari na mão, eu rodava pelo salão paroquial porque, uma vez por semana, os meus onze anos receberam o direito de bailar sem perder a pose de uma dose.

Foi num bailinho daqueles que eu beijei pra valer, não outro selinho. Fedendo a Continental sem filtro que tinha ganhado com espingardinha de rolha no parque de diversões que viera à cidade por causa da Festa de São Sebastião, foi meu primeiro beijo de língua.

Como não tenho memória boa, tal recordação foi trazida a mim por uma senhora de cabelo acaju, cujo nome no crachá não me facilitou a identificação de quem era.

E ela precisou falar de uma Feira de Ciências, na qual uma cobrinha escapou do terrário que o nosso grupo tinha montado. Nós estávamos no maior amasso na biblioteca da escola quando deu-se a barafunda. E o tal incidente ocorreu no dia 08 de setembro de 1979; inesquecível, porque, nessa data, ela fazia quinze anos.

A primavera chegara antes, pelos beijos da Julia Lindeza.

Nunca lhe disse o apelido, porque o seu nome era outro, e o crachá confirmava; seu encanto não era propriamente do balacobaco, mas o borogodó tentador era o mesmo, conforme o meu baixo ventre insinuou de pronto.

Não sendo político, lembrei-lhe do nosso primeiro beijo no referido bailinho. Que feio! Quem me beijou nos fundos da Matriz foi sua prima Formosa Márcia, nascida nos últimos suspiros de Março de 64.

Pouco embusteiro, digo à brasileirinha dos cabelos brancos debaixo dos fios acajus:

ꟷ Voltar aos tempos de coturnos desfilando contra o Comunismo a cada Sete de Setembro não é Revolução Cósmica, é Primeiro de Abril.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de setembro de 2023.

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