quinta-feira, 7 de setembro de 2023

A regra do jogo

 

A regra do jogo

 

Pra gente não esquentar a cabeça com problemas, feriado é ótimo. A cachola sabe que acordar mais tarde dá azo pra que nem mesmo as questiúnculas normalmente menosprezadas ganhem relevo. Às lentes da consciência, focar-se como realidade reconfigurada de cabo a rabo, do tenso pro aliviado, é colírio a espírito baço.

Conquanto enxergar o mundo com olhos menos mesmerizados não seja truque pra tirar-se mágico de cartola, é possível maravilhar-se com as amenidades da vida.

Positivamente, fazer o coelho guiar-se pelo alvoroço buraco afora é aposta arriscada. Putisgrila, nada mais trivial que marmanjos xingando à vontade, é feriadão. Aliás, não é estapafúrdio imaginá-los de chapéu, gravata ou galochas numa pelada, é estapafurdíssimo.

Em outras palavras: deliciar-se com uma latinha, é opção; devolver de trivela, é firula; entreter-se com palavrões, é do jogo; entrar quando chamado, é recurso; ao comemorar gol contra, melhor sair.

De fora, observe, comente, só não se entusiasme a apitar a partida. Ao soprar a latinha, talvez o mugido imite um navio. Não abuse, pois o seu boi bêbado fará rir uma ou duas vezes; passando disso, o barulho vai ser um porre, mesmo.

Quando telefonarem pro almoço, tire de campo o seu gogó que vive seco por outro golezinho, já quente.

De olhos abertos, é preciso guarnecer o prato pensando no trabalho da vesícula. Até porque a polenta na brasa com pimentão recheado de toscana esmigalhada é experimento a ser cordialmente aprovado.

Não reclame que resta apenas meia dúzia de latinhas na geladeira, peça que entreguem mais. Putz! Celular na mão não é festim de salão. Pedir outro engradado no cartão é tiro e queda.

Claro, claríssimo. Os problemas evaporarem, é supimpa.

Voltar ao terrão para acompanhar outra disputa, é o que há. Dar um jeito nos buracos do campinho, é o que tem que ser feito.

Para que serve o quintal se não for para cavoucar a terra? Para que tem braços se não se dispõe a arrastar os sacos? Se não aguenta com cinquenta quilos, pra que se preocupar com aquela buraqueira?

Pensando na trabalheira toda, o jeito é ir atrás de ajuda.

Quem está no campo não tem força. Seria desumano que meninos e meninas puxassem aquela terra. Além disso, poucos se preocupam com os buracos; o pessoal joga sem temer contusões. Nunca se soube de alguma entorse, e fratura exposta, então, nunca houve.

Desde que a casa nos fundos do campinho passou a ser ocupada, tem havido sumiço de bola. De todas as bolas caídas naquele quintal, nenhuma voltou. Sequer murcha, nenhuma reapareceu.

Tanto tem mexido com a vizinhança que aquela área passou a ser chamada de Triângulo do Diabo, porque ali mora o velho que ninguém nunca viu a não ser vestido de preto.

Da boina às botas, aquele ser é figura macabra, tanto que as sacas da terra roxa continuarão à espera de gente menos sinistra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de setembro de 2023.

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