Pra gente não esquentar a cabeça com
problemas, feriado é ótimo. A cachola sabe que acordar mais tarde dá azo pra que
nem mesmo as questiúnculas normalmente menosprezadas ganhem relevo. Às lentes
da consciência, focar-se como realidade reconfigurada de cabo a rabo, do tenso
pro aliviado, é colírio a espírito baço.
Conquanto enxergar o mundo com olhos menos
mesmerizados não seja truque pra tirar-se mágico de cartola, é possível
maravilhar-se com as amenidades da vida.
Positivamente, fazer o coelho guiar-se
pelo alvoroço buraco afora é aposta arriscada. Putisgrila, nada mais trivial que
marmanjos xingando à vontade, é feriadão. Aliás, não é estapafúrdio imaginá-los
de chapéu, gravata ou galochas numa pelada, é estapafurdíssimo.
Em outras palavras: deliciar-se com uma
latinha, é opção; devolver de trivela, é firula; entreter-se com palavrões, é
do jogo; entrar quando chamado, é recurso; ao comemorar gol contra, melhor
sair.
De fora, observe, comente, só não se
entusiasme a apitar a partida. Ao soprar a latinha, talvez o mugido imite um
navio. Não abuse, pois o seu boi bêbado fará rir uma ou duas vezes; passando
disso, o barulho vai ser um porre, mesmo.
Quando telefonarem pro almoço, tire de
campo o seu gogó que vive seco por outro golezinho, já quente.
De olhos abertos, é preciso guarnecer o
prato pensando no trabalho da vesícula. Até porque a polenta na brasa com
pimentão recheado de toscana esmigalhada é experimento a ser cordialmente
aprovado.
Não reclame que resta apenas meia dúzia
de latinhas na geladeira, peça que entreguem mais. Putz! Celular na mão não é festim
de salão. Pedir outro engradado no cartão é tiro e queda.
Claro, claríssimo. Os problemas
evaporarem, é supimpa.
Voltar ao terrão para acompanhar outra
disputa, é o que há. Dar um jeito nos buracos do campinho, é o que tem que ser
feito.
Para que serve o quintal se não for para
cavoucar a terra? Para que tem braços se não se dispõe a arrastar os sacos? Se
não aguenta com cinquenta quilos, pra que se preocupar com aquela buraqueira?
Pensando na trabalheira toda, o jeito é
ir atrás de ajuda.
Quem está no campo não tem força. Seria
desumano que meninos e meninas puxassem aquela terra. Além disso, poucos se
preocupam com os buracos; o pessoal joga sem temer contusões. Nunca se soube de
alguma entorse, e fratura exposta, então, nunca houve.
Desde que a casa nos fundos do campinho
passou a ser ocupada, tem havido sumiço de bola. De todas as bolas caídas
naquele quintal, nenhuma voltou. Sequer murcha, nenhuma reapareceu.
Tanto tem mexido com a vizinhança que
aquela área passou a ser chamada de Triângulo do Diabo, porque ali mora o velho
que ninguém nunca viu a não ser vestido de preto.
Da boina às botas, aquele ser é figura
macabra, tanto que as sacas da terra roxa continuarão à espera de gente menos
sinistra.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de setembro de 2023.
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