Pra falar das coisas simples da vida, é preciso driblar a consciência que não dá folga; ainda que haja algum propósito, é ir caminhando até que o cansaço peça o obséquio de uma paradinha, seja num banco de praça, numa fila de lotérica, ou se for deitado, melhor ainda, que é para ficar escutando uma musiquinha que seja bem relaxante.
A mente que se perca, fique
desorientada, entenda que é possível ignorar a hora, pois isso não significa
que tudo está perdido, que o céu do mundo vá desabar no colo da gente a
qualquer momento.
Pratique sem pressa. Olhe com atenção. Tire
do olhar a inércia, que ela só faz ver o que se passa a um palmo do nariz.
E o que se vê?
A menina faz carinho num cão. O
cachorrinho abana o rabo, lambe a mão da garota, deita-se na calçada para que
sua barriga seja coçada. Se soubesse o quanto isso dá prazer a quem o coça, aaaah!
O menino que vê a cena não pensa que seja
algo bom para fazer, agacha-se. Também ele coça a barriga daquele cãozinho, ele
também sente o prazer que é coçá-la, apenas por coçá-la, porque lambidas são
nojentas, daí o garoto limpar na bermuda a mão babada.
Ainda que os latidos não consigam
comunicar o prazer pelos afagos recebidos, a menina e o menino não se julgam pessoas
mais humanas ao afagar o bichinho. Se soubessem o bem-estar que o cachorro
sente, as crianças latiriam de volta, numa pantomima singela.
Quem fotografa, edita fotos no celular e
compartilha-as é um idoso que revela o poético que o cotidiano muitas vezes
produz.
Mas, o fotógrafo casual tem ideias: as crianças
que se divertem com o cachorro, tomara que nem calculem a sorte de acariciá-lo;
as babás avisaram que estavam vacinadas pra não morder cães nem mordiscar gatos;
os pelos do rabo dão evidência que carícias agradam.
Com as babás de branco e as crianças coloridas
à volta do dálmata deitado, a composição lembrou algo já visto. Como o senhor
sessentão saiu de casa à caça de cenas esteticamente citáveis, foi para provocar
efeitos melancólicos que ele simplesmente publicou em preto e branco essa paródia
da Anatomia do Doutor Tulp.
Uma menção simplesmente poética?
Se há uma lição a apreender-se da foto
desse primitivo Rembrandt, é que nem toda imitação capta a aura autêntica de
uma obra de arte.
Se há ilação a ser proposta, é que nem
toda rima dá poesia.
Como vassoura não é culpada pelas mãos
que a usam, assim o afã simplório de soar drummondiano não transfigura o
prosaísmo explícito do diálogo ouvido no supermercado:
ꟷ Xi, moço, vai ser difícil casar de
novo.
ꟷ Não creio, moça, nos adágios do povo.
Com tantas pedras na estrada, o
fotógrafo amador sorri à moça que lhe varreu os pés. Pela falta de gente
bem-humorada, a empregada do mercado sorri de volta.
Já que o rosto enrugado do senhor não o
quer remediado do tanto vivido, as manchas de café da camiseta sugerem que é
muito bom ser um cara simples.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de setembro de 2023.
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