terça-feira, 5 de setembro de 2023

Simplicidade

 

Simplicidade

 

Pra falar das coisas simples da vida, é preciso driblar a consciência que não dá folga; ainda que haja algum propósito, é ir caminhando até que o cansaço peça o obséquio de uma paradinha, seja num banco de praça, numa fila de lotérica, ou se for deitado, melhor ainda, que é para ficar escutando uma musiquinha que seja bem relaxante.

A mente que se perca, fique desorientada, entenda que é possível ignorar a hora, pois isso não significa que tudo está perdido, que o céu do mundo vá desabar no colo da gente a qualquer momento.

Pratique sem pressa. Olhe com atenção. Tire do olhar a inércia, que ela só faz ver o que se passa a um palmo do nariz.

E o que se vê?

A menina faz carinho num cão. O cachorrinho abana o rabo, lambe a mão da garota, deita-se na calçada para que sua barriga seja coçada. Se soubesse o quanto isso dá prazer a quem o coça, aaaah!

O menino que vê a cena não pensa que seja algo bom para fazer, agacha-se. Também ele coça a barriga daquele cãozinho, ele também sente o prazer que é coçá-la, apenas por coçá-la, porque lambidas são nojentas, daí o garoto limpar na bermuda a mão babada.

Ainda que os latidos não consigam comunicar o prazer pelos afagos recebidos, a menina e o menino não se julgam pessoas mais humanas ao afagar o bichinho. Se soubessem o bem-estar que o cachorro sente, as crianças latiriam de volta, numa pantomima singela.

Quem fotografa, edita fotos no celular e compartilha-as é um idoso que revela o poético que o cotidiano muitas vezes produz.

Mas, o fotógrafo casual tem ideias: as crianças que se divertem com o cachorro, tomara que nem calculem a sorte de acariciá-lo; as babás avisaram que estavam vacinadas pra não morder cães nem mordiscar gatos; os pelos do rabo dão evidência que carícias agradam.

Com as babás de branco e as crianças coloridas à volta do dálmata deitado, a composição lembrou algo já visto. Como o senhor sessentão saiu de casa à caça de cenas esteticamente citáveis, foi para provocar efeitos melancólicos que ele simplesmente publicou em preto e branco essa paródia da Anatomia do Doutor Tulp.

Uma menção simplesmente poética?

Se há uma lição a apreender-se da foto desse primitivo Rembrandt, é que nem toda imitação capta a aura autêntica de uma obra de arte.

Se há ilação a ser proposta, é que nem toda rima dá poesia.

Como vassoura não é culpada pelas mãos que a usam, assim o afã simplório de soar drummondiano não transfigura o prosaísmo explícito do diálogo ouvido no supermercado:

ꟷ Xi, moço, vai ser difícil casar de novo.

ꟷ Não creio, moça, nos adágios do povo.

Com tantas pedras na estrada, o fotógrafo amador sorri à moça que lhe varreu os pés. Pela falta de gente bem-humorada, a empregada do mercado sorri de volta.

Já que o rosto enrugado do senhor não o quer remediado do tanto vivido, as manchas de café da camiseta sugerem que é muito bom ser um cara simples.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de setembro de 2023.

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