quarta-feira, 13 de maio de 2020

Tempestade


Tempestade

Eis um homem tentando seguir o seu caminho. Debitar às contas pagas em dia a desobediência de não ficar em casa? Calcular a sua resolução de manter os óculos no nariz como manifestação política? Por saber-se à medida da sombra na calçada, despreza o espinho do olhar que o acutila exposto ao ar que tanto o atribula?
Tem a febre de fazer-se. Dizem por ali, apontam por aqui; desafia que o contradigam, avança pelos vãos. Cuida de si, ignora visar-se à representação de um velhinho bom.
Resistindo, contra as gotas de sal desajustadas nas juntas do seu corpo. Persistindo, contra o esqueleto que o conforma alquebrado na poltrona. Insistindo, sem esmolar o ultraje da resignação, de homem parado diante dos fatos. Afirma-se: indo.
A vida vale a paga da altivez?
Dói-lhe mover-se, porém não traga o escambo: a quarentena para si, o isolamento dos demais.
Os pulmões mantêm traços das fumaças pestilentas abandonadas com os oitenta. A falta de ar explica porque ofega descontrolado.
A maior prova de dignidade dá essa pessoa quando não esconde que sua fome mede-se por outra régua. Sem a interdição ao trabalho, pois há muito está aposentado. Sem que o beneficiem atos rebeldes, como o que pratica com a envergadura dos patéticos. Nada disso, a vontade que o faz ir aonde vai tem a escala dos inconformados.
Alguém o interpela:
― Ô doido, por que busca a morte?
Outrem ajuíza:
― Pensa que pode andar por aí, infeliz!
No pudor do recato, o velho guarda silêncio. Segue, sem ouvidos para admoestações, palavras não subirão névoas que o pervertam do destino. Não, vozes atiradas das varandas parecem miados; detesta gatos. Mais ainda que os pelos no sofá, enlouquecem-no os miados.
Que tipo raro será esse? Traz no traje o terno do Carlitos; enfiado num passo miudinho de Carlinhos de Jesus; um Pedro II na barba de bonachão profeta. Papai Noel comunista?
Pouco importa, a ele o que conta é sair com o propósito de chegar ao posto de saúde mais próximo. Faz da insanidade presumida o que pensa fazer mesmo que o julguem egoísta, narcisista.
Do louco, nega-o ao buscar os remédios à esposa. Do egoísta, um nada, porque enfrenta as ansiedades do medo pela mulher que ama. Enfim, quer restaurada a saúde da pessoa que treme de calafrios.
Eis um cavaleiro: dando ritmo à passada com a ponta da bengala; esforçando-se na marcha renhida, meio pé de cada vez; bailador que revigora o já quase exaurido.
Há essa tempestade de proporções insondáveis a quem não tem memória para a profundidade dos transtornos, todavia nosso homem, de rosto recoberto pela máscara branca, de tez torturada no ofício de viver, não se turva às limitações da hora.
Probo, sua batalha está ganha. Com seus ossos desbastados, de obreiro que edifica; com os seus olhos apurados, de farol que orienta; com a sua chama por um fio, de ser que se faz humano ao caminhar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de maio de 2020.

Um comentário:

  1. Falas de um velho que caminha de máscara à face, corajoso de sair em busca dos remédios da esposa.

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