terça-feira, 28 de abril de 2020

Malemá


Malemá

Compelido a mudanças neste atual regime de convivências, com os demais e comigo, ouço música depois do almoço e antes de ir-me deitar. Afinal, só análise e ansiolíticos não dão conta da cabeça cheia de frustrações, desplanejamentos e quinquilharias metafísicas. Livro a mente da realidade? Não, mas as doze notas abrem clareiras onde a mata fechada sufoca e assusta.
Corro me esbaldar com o Caipira, da Mônica Salmaso.
Preciso evitar a desatenção, levar a sério o momento. Devo-me o rigor com o cronograma que anotei na folhinha da cozinha. Ou seja, o próximo passo é a antecipação do que terei de fazer fora de casa. Já vem aí a sexta-feira, caraca, que hoje já é terça.
É verdade. Não posso esquecer o café. Não vou comer mosca.
De março para cá, saio quinzenalmente de casa. Tenho tomado o maior cuidado. Carrego o meu próprio gel. Volta e meia verifico se a máscara está no lugar. É desesperador ficar exposto ao vírus. Com a televisão falando cada coisa. Uma hora o contágio é pela saliva. Não devo tocar em dinheiro. Lavar a mão com desinfetante. Tirar a roupa assim que chegar. Dá um aperto danado na garganta. E até respirar, que medo de não perceber a tempo como ando respirando.
Sem dúvida. A quantidade de informações angustia. Porém o vírus não quer saber de brincadeira.
Tento ser prático. Não sou biólogo. Então, para que ficar perdendo tempo. O vírus é animal ou o quê? Faça-me o favor. A mortandade é natural, ideológica ou alienígena? Putz. Há resposta para tudo, sim. O juízo me impede de querer vestir a carapuça de epidemiologista.
O material genético usa o hospedeiro para replicar-se, para passar adiante a sua forma. Sem saber de si, sem saber de mim, de você, de nós todos. Seja onde for. Se faz frio, calor. Nem a idade conta.
Então, conhece a estrada quem caminha? Enfio a mão na massa. Lamento, ovo não frita sozinho. Aliás, a perturbação do mundo causa mais nervosismo. Colombo veio pra América de navio, não numa foto das covas de Manaus. E sei lá quando perplexidade deixa lelé.
Em dias difíceis, tenho feito a minha parte. Tento.
No entanto, mesmo em meio à tempestade viral que pede radicais alterações de hábitos, confesso que alguns me são caros demais pra adaptá-los ou renegá-los. Ô tristeza, não mudo fácil.
Acho que não ajo por mal. Procuro entender que não vim torto pro mundo. Arrisco possível ir vivendo ao sabor dos erros. Cuido de mim; não quero dar sarna ao cão; evito que abundem.
Contra o desperdício, confiro o papel higiênico. Urino, lavo a mão. Tão logo acordo, pulo da cama. No sofá, vou lendo o jornal no celular até que o pescoço precise do apoio da almofada. Ajusto.
Todavia, não me convenço de que a dor distraia a ponto de trocar o pé. O que ando sentindo tem nome, é medo. Nem descalço ficarei correndo por aí. Com mais vírus no céu que aviões, toca-me o desejo de ir curtindo a sonora garoa.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de abril de 2020.

2 comentários:

  1. Fiquei curiosa para saber sobre as músicas que você ouve e o que elas te fazem sentir ao ouvi-las. Qual o propósito de ouvir música nesses exatos momentos?
    Sobre as frustrações, qual o gatilho que te leva a lembrar delas? E por que não tentar focar apenas nas coisas boas? Se há desplanejamento, reverta isso, se planeje. Ainda há tempo pra tudo, sempre há, basta querer e estamos aqui para te motivar de alguma forma 😍
    Creio que a partir desses questionamentos, você consegue nos deixar uma bela obra de arte em forma de texto. Ansiosa para saber quais suas reflexões sobre o tema.

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  2. Sobre a pandemia, faça a prevenção, mas não deixe que isso te enlouqueça, aprecie a música, leia livros, assista filmes é escreva. Não deixe que isso te afete psicologicamente 😘😘

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