sexta-feira, 3 de abril de 2020

Daora



Daora

Para fazer as compras da quinzena, vou ao supermercado. Com a quarentena em vigor, o acesso ao interior da loja está controlado por funcionário da rede. À entrada, garantido o distanciamento, é lançado álcool em gel na mão de cada cliente que chega.
Um movimento tranquilo. E sem falta de mercadorias.
Comparo com o que vivi dias antes das restrições.
Lá estava, de lista na mão, pegando cada item na quantidade para duas semanas. Comprando o necessário, idosos sem afobação. Sem demonstrações de medo com o fim do mundo.
Como comprava em dobro, ia calculando o peso. Resolvi dividir.
Fui para casa, mas voltei uns quarenta minutos depois.
O frenesi tomava conta do ar. O supermercado tinha mais gente. A maior parte das mulheres adultas empunhavam seus carrinhos com comida pra uma multidão. Que coisa! Todo mundo pelejava pra estar munido com papel higiênico, prevendo iminente a invasão zumbi.
Realmente, o cartão de crédito protege dos zumbis. Sem cinismo, ricos compram mais porque podem pagar pela diferença.
E nas duas vezes que estive no supermercado, vi aquele vulto que me é bem familiar, porque moramos próximos: um velho com pernas de atleta e pulmões de bailarino, o Nero Eugênio.
Explico-me.
Quando estava chegando, o dito cujo saía. Carregado de sacolas, cigarro aceso. Quando retornei, o próprio estava de saída. Carregado de sacolas, fumava outro cigarro.
Então, o sujeito se destaca por correr como um Bolt sexagenário?
Vou direto ao ponto. Fui e voltei, desabei diante da TV. Panelaços, cantorias, diário do confinamento à brasileira. Dou um tempo. Vou pra varanda. Quero sol, curtir o horizonte, respirar a ilusão azul.
Do outro lado da rua, ignorando seus passarinhos engaiolados na sacada envidraçada, insulta-me ouvi-lo, o babaquara, tentando bater na vizinha com seus gritos.
Coronavírus que nada! A vida não tem de mudar nada! É coisa de comunista falir o comércio e prender pessoas em casa!
Mais que nunca, é hora de abraçar as pessoas amadas da melhor maneira possível: contatando-as por mensagem, telefone ou vídeo.
Cá entre nós, escolho a varanda; faz um dia lindo, e não sofro.
Tenho ciência do que posso, preciso e devo fazer. E faço.
Posso estar enganado, como volta e meia me acontece, mas o sol não me parece criminoso, não o percebo contrariado, não sinto a luz irradiada como instrumento de morte. Aliás, sem me purgar de algum lado sombrio em mim, ele me é benigno. Como desconheço se ando carente de vitaminas, quero cinco minutos de banho de sol.
Estou em pé, apoiando-me na mureta da sacada, respirando sem febre e sem tosse. Fico parado, até que os meus joelhos comecem a acusar o mormaço nos ligamentos, um formigamento barafunde pela espinha e a nuca peça almofadas.
Como moro sozinho, não me preocupa conviver comigo.
Oxe.
E quando o mundo aborrece? Fecho a casa, apenas.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de abril de 2020.

Um comentário:

  1. Cá entre nós, escolho a varanda; faz um dia lindo, e não sofro. :) Parabéns amigo, fantástico. Você é um escritor admirável .
    Abraços

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