terça-feira, 12 de junho de 2018


o touro em pedaços


cartesiano, o poeta pensa o objeto,
sem a convicção de considerá-lo pronto, ainda
que haja palavras organizadas em versos, ainda
que haja estrofes encadeando imagens, ainda
que haja outros elementos linguísticos, semânticos e sintáticos
a torná-lo, malgrado a opinião do poeta, um poema.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em um touro, o seu touro,
este touro feito de palavras.

hiperbólico, o poeta pensa o touro
como se cada pata fosse uma tora;
pensa os cascos do seu animal como pianos,
de um marfim maciço, incisivo, marcante,
um teclado sonante contra o barro do mundo;
põe nos cornos uma lua de sangue, de fase única,
uma carranca, a revelar a violência atávica,
ancestral às palavras que o fabricam; todo angústia.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em uma tara, as suas taras,
esta tara posta em palavras, touro mal-amanhado.

patético, o poeta pensa o touro
como uma mensagem explícita, um soco na cara, mas
ainda que faça incrustrada no verso a canção de sua morte, mas
ainda que faça o marfim ser despedaçado pela fúria, mas
ainda que faça os cornos serem retirados à faca,
o touro de sua lavra seguirá à espreita.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em um leitor, o seu leitor,
este leitor atento às palavras.

abestado, o poeta pensa a besta
com a desconfiança de considerá-la incurralável,
embora entenda que sempre haverá um embora,
um embora a dar aos cascos o cântico do monstruoso,
um embora a roncar de suas ventas o estupor do varrasco,
ainda que haja na baba do aziago o sangue mais besta.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em uma fogueira, o seu fogo,
esta chama ardendo-o entre as palavras.

(2016)

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