o touro em pedaços
cartesiano,
o poeta pensa o objeto,
sem
a convicção de considerá-lo pronto, ainda
que
haja palavras organizadas em versos, ainda
que
haja estrofes encadeando imagens, ainda
que
haja outros elementos linguísticos, semânticos e sintáticos
a
torná-lo, malgrado a opinião do poeta, um poema.
é
poema, este poema, o poema
faz
o poeta pensar em um touro, o seu touro,
este
touro feito de palavras.
hiperbólico,
o poeta pensa o touro
como
se cada pata fosse uma tora;
pensa
os cascos do seu animal como pianos,
de
um marfim maciço, incisivo, marcante,
um
teclado sonante contra o barro do mundo;
põe
nos cornos uma lua de sangue, de fase única,
uma
carranca, a revelar a violência atávica,
ancestral
às palavras que o fabricam; todo angústia.
é
poema, este poema, o poema
faz
o poeta pensar em uma tara, as suas taras,
esta
tara posta em palavras, touro mal-amanhado.
patético,
o poeta pensa o touro
como
uma mensagem explícita, um soco na cara, mas
ainda
que faça incrustrada no verso a canção de sua morte, mas
ainda
que faça o marfim ser despedaçado pela fúria, mas
ainda
que faça os cornos serem retirados à faca,
o
touro de sua lavra seguirá à espreita.
é
poema, este poema, o poema
faz
o poeta pensar em um leitor, o seu leitor,
este
leitor atento às palavras.
abestado,
o poeta pensa a besta
com
a desconfiança de considerá-la incurralável,
embora
entenda que sempre haverá um embora,
um
embora a dar aos cascos o cântico do monstruoso,
um
embora a roncar de suas ventas o estupor do varrasco,
ainda
que haja na baba do aziago o sangue mais besta.
é
poema, este poema, o poema
faz
o poeta pensar em uma fogueira, o seu fogo,
esta
chama ardendo-o entre as palavras.
(2016)
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