O rapagão exige respeito, que aquilo não
se deve fazer a quem não é bandido, a quem trabalha, que ele veio comprar os
mantimentos que a mãe tinha pedido, embora o segurança esteja fazendo seu
trabalho, pelo qual recebe pagamento, o rapagão cujos murros nocauteariam o
funcionário mais baixo, mais fracote e muito a fim de retirá-lo sem ficar com
olho roxo, nariz quebrado ou costelas trincadas, ele, o brutamonte enraivecido,
sabe que é preciso reagir, tem de acusar, deve denunciar a agressividade,
porque preconceito é violência, que ele está no direito de negar, justamente
aos gritos, pois a barra de chocolate enfiada na cintura, debaixo da camiseta, nem
o agrada, porque é 75% amargo e, caraca!, quem é que gosta de chocolate que não
seja ao leite?
Há um final feliz, pois a barra está de
volta à gôndola.
Os rapazes que pesam as frutas e os
legumes riem, porque, assim como foi mais cedo, esta será outra tarde de gente
se descabelando, fazendo drama por ninharia. Mas o bom da coisa toda? Ressaltam
eles que o segurança age sem nunchaku, soco-inglês, cassetete ou sequer o discretíssimo
22, pois, profissa, ele até acha desnecessário aspergir água benta no boquirroto,
basta bufar.
Eis outro final feliz, pois o camarada pode
orgulhar-se de seguir no bico hoje, amanhã e enquanto, sabidamente, gozar da sua
boa-fé.
Como bom fuxiqueiro, digo à funcionária
que ouvi o escarcéu sem identificar quem era o protagonista, ela, como boa colega
que julga ser, diz que o agente da segurança fez bem de não encarar o
encrenqueiro, pois os olhos baixos foram uma benção, transmitiram serenidade,
tanto que o rapaz parou de gritar e, certamente achando ridícula a situação,
começou a choramingar.
Outro final feliz, uma vez que a moça do
caixa não sente embaraço por ignorar-se abençoada pela graça da sua ingenuidade.
Ingênuo na minha inocência de cidadão
que acredita em tudo o que me dizem, saio do supermercado, vou descendo a rua
quando vejo que a pessoa sentada nos degraus do prédio onde funcionou a Telesp vai
meneando a cabeça enquanto um senhor fala e dá tapinhas nos seus ombros.
Ao passar pelos dois, o homem grisalho
despede-se do outro, este, finalmente o reconheço, é quem, há pouco, gritava e
gesticulava, e fez questão de não comer a barra de chocolate, pois 100% amara.
Me informa o Luisinho que o sujeito está
numa maré infernal: a sua esposa retornou à casa da mãe porque, não bastasse as
páginas dele estarem entulhadas de comentários desrespeitosos e intimidantes,
as redes sociais dela estão sob igual persecução criminosa.
Mais outro final feliz, pois, encobrindo
o rosto com as mãos, a vítima de homonímia imperfeita opta por chorar ao
concluir que só lhe resta procurar um cartorário para que lhe seja trocado o
‘i’ pelo ‘e’, tal qual o sobrenome daquele famigeradíssimo togado brasiliense.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de agosto de 2025.