Há
sessenta anos a pessoa que via o mundo não o observava como o cronista que hoje
o enxerga, ainda que continue a vê-lo que nem uma criança quando enjoa do
presente que nem pediu de aniversário.
Embora
a vida continue como festa que a gente não entende direito como não quer se
desapegar, siga sendo aquele aniversário em que o bolo nunca é cortado quando
as palmas já querem escapulir das mãos, há que se viver.
Quando
o cronista está nauseado com a promessa jamais cumprida de que o bolo será fatiado
tão logo os convidados conseguirem cantar Parabéns a Você, há que se dar um
desconto, afinal há sessenta anos a mente alimenta-se de mistérios, como uma
cereja de chuchu.
Haja
alegria de querer, hein, manhã dourada.
Como
o dia não se resume a outra manhã ensolarada, ainda que o sol de verão nem
tenha subido ao céu para fazer calor de trinta e nove graus, antes do meio-dia,
só ventilador com fissuras psicóticas insiste em comportar-se que nem ar-condicionado.
Haja
quilowatts, hein, camiseta empapada.
O
cronista larga o conforto, sai, mas deixa ligado o ar-condicionado, vai aonde
acha que é a sua prioridade, que é ir refrescar-se com o que lhe forneça algum
prazer, um prazerzinho momentâneo, efêmero, que, contudo, o faça assegurar-se
menos ranheta.
Por
excesso de suor, sente-se ranzinza.
Senta-se
na sorveteria para tomar o sorvete. Sem pressa alguma, alegra-o tomá-lo. Ainda
que as ideias se encadeiem sem nexo, já que os pensamentos vão se formando ao
deus-dará, isso é possível porque tevê alguma soterra o cronista nos malefícios
do mundo moderno.
O
sorvete derrete porque os trinta e nove graus são previsíveis, não são números
num mapa, tão redondinhos no Brasil da tevê.
Já
que mapas não derretem, os pingos pedem que o indicador entre em ação.
Se
importe com os outros. Ligue que os pingos serão contabilizados como
desperdício. No entanto, não se avexe da língua, a vá passando no dedo. Passe-o
na mesa e veja-se sendo visto ao lambê-lo.
Uma
mulher de lenço no pescoço entra, escolhe os sabores e paga pelo peso das três
bolas.
Embora
Edileusa não perceba que o cronista saiba quem ela é, ele, sorrindo ao reconhecê-la,
se limpa com um guardanapo.
Ainda
bem que o guardanapo ajuda-o a ser discreto ao sorrir, pois o cronista acha
graça de certa lembrança.
A
história do homem com quem esteve casada por tantos anos não corre mais de boca
em boca, pois muitos anos se passaram desde que Edileusa ficou convencida a dar-lhe
o pé na bunda.
O
ex-marido de Edileusa, se lhe pagam uma cachaça, conta ter tido muitas amantes,
e foram tantas que nem sabe o tanto que deixara que partissem, pois era casado
com uma pessoa especial.
Carrie
Mathison? Lila Tournay? Clarice Starling? Marion Crane?
Que
todas o tivessem tocado, tudo bem, mas, sóbrio, o espertinho só admite ter
calafrios com a Julie Newmar.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 27 de novembro de 2025.