quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Uma crônica mais otimista

 

Uma crônica mais otimista

 

Há sessenta anos a pessoa que via o mundo não o observava como o cronista que hoje o enxerga, ainda que continue a vê-lo que nem uma criança quando enjoa do presente que nem pediu de aniversário.

Embora a vida continue como festa que a gente não entende direito como não quer se desapegar, siga sendo aquele aniversário em que o bolo nunca é cortado quando as palmas já querem escapulir das mãos, há que se viver.

Quando o cronista está nauseado com a promessa jamais cumprida de que o bolo será fatiado tão logo os convidados conseguirem cantar Parabéns a Você, há que se dar um desconto, afinal há sessenta anos a mente alimenta-se de mistérios, como uma cereja de chuchu.

Haja alegria de querer, hein, manhã dourada.

Como o dia não se resume a outra manhã ensolarada, ainda que o sol de verão nem tenha subido ao céu para fazer calor de trinta e nove graus, antes do meio-dia, só ventilador com fissuras psicóticas insiste em comportar-se que nem ar-condicionado.

Haja quilowatts, hein, camiseta empapada.

O cronista larga o conforto, sai, mas deixa ligado o ar-condicionado, vai aonde acha que é a sua prioridade, que é ir refrescar-se com o que lhe forneça algum prazer, um prazerzinho momentâneo, efêmero, que, contudo, o faça assegurar-se menos ranheta.

Por excesso de suor, sente-se ranzinza.

Senta-se na sorveteria para tomar o sorvete. Sem pressa alguma, alegra-o tomá-lo. Ainda que as ideias se encadeiem sem nexo, já que os pensamentos vão se formando ao deus-dará, isso é possível porque tevê alguma soterra o cronista nos malefícios do mundo moderno.

O sorvete derrete porque os trinta e nove graus são previsíveis, não são números num mapa, tão redondinhos no Brasil da tevê.

Já que mapas não derretem, os pingos pedem que o indicador entre em ação.

Se importe com os outros. Ligue que os pingos serão contabilizados como desperdício. No entanto, não se avexe da língua, a vá passando no dedo. Passe-o na mesa e veja-se sendo visto ao lambê-lo.

Uma mulher de lenço no pescoço entra, escolhe os sabores e paga pelo peso das três bolas.

Embora Edileusa não perceba que o cronista saiba quem ela é, ele, sorrindo ao reconhecê-la, se limpa com um guardanapo.

Ainda bem que o guardanapo ajuda-o a ser discreto ao sorrir, pois o cronista acha graça de certa lembrança.

A história do homem com quem esteve casada por tantos anos não corre mais de boca em boca, pois muitos anos se passaram desde que Edileusa ficou convencida a dar-lhe o pé na bunda.

O ex-marido de Edileusa, se lhe pagam uma cachaça, conta ter tido muitas amantes, e foram tantas que nem sabe o tanto que deixara que partissem, pois era casado com uma pessoa especial.

Carrie Mathison? Lila Tournay? Clarice Starling? Marion Crane?

Que todas o tivessem tocado, tudo bem, mas, sóbrio, o espertinho só admite ter calafrios com a Julie Newmar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de novembro de 2025.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

As oito badaladas

 

As oito badaladas

 

Só depois que devolveu o copo vazio é que a senhora compreendeu a sua circunstância, que lhe era incompreensível como viera parar ali, como podia ficar sentada naquele degrau se havia tanta coisa para dar conta, se a manhã seria curta, acabaria encurtada pelo tanto de tarefas que tinha de dar cabo antes de almoçar, antes de poder preocupar-se com o almoço, a refeição que somente ela teria de preparar.

ꟷ Gente, cadê o meu celular?

Recebendo a atenção de mulheres que nem conhecia, ignorante do que lhe deram para tomar, ela verificou se os grampos ainda domavam os fios de cabelo, aqueles cuja ambição era bailarem, já que se faziam ao vento ainda que o ar conhecesse a estagnação do mormaço.

ꟷ E meu celular, cadê?

Quando os sinos badalaram, a mulher transfigurou-se. O seu corpo passou a tremer. A sua boca soltou gemidos. Os seus olhos reviravam nas órbitas. Viu-se naquele súbito muito esquisito. Tanto se lhe deu um mal-estar profundo que ela perdeu os sentidos.

Assim que bateu a oitava badalada, a senhora abriu os olhos. Havia mulheres a lhe perguntarem se estava bem. Uma delas segurava a sua mão, afagava-a, acarinhava-a. Ela e as outras, todas queriam saber se realmente estava bem, se de fato melhorara.

ꟷ Gente, cadê meu celular?

Tinha um homem, o que lhe entregou um copo d’água. Mas a água dada nem tinha açúcar. Disseram que precisava beber tudo. O homem e as mulheres pediram, insistiram, que bebesse devagar, isso lhe faria bem. Desde que bebesse tudo, seria isso que a deixaria melhor.

Ela sabia que roupa era aquela. Mesmo a constrangê-lo, o encarou. Ela sabia que o policial não era nenhum bombeiro.

ꟷ E o meu celular, cadê?

Os sinos pararam, ela voltou a si. Mas voltara para achar-se àquela escadaria? Revelar-se àquela porta? Dar-se àqueles vitrais?

Certamente, sabia onde estava. Notou que acordara ao pé da igreja que abandonara. E o que a ressabiava era localizar-se. Já que naquele lugar a sua presença a incomodava. Estava justamente diante daquela igreja, daquela a que deixara de recorrer, dessa que passou a não mais se sujeitar.

Pelo conhecimento de que o que ali era dito como sendo a Palavra, a senhora sabia que era a Palavra dita de outro modo, filtrada, era outra coisa. Ali a coisa enganava, seduzia e punha na vereda do engano, do erro, do passo dado, da passada no desencaminhamento, da perda do rumo da verdade.

E a Verdade era uma, e bem distante do que conhecera ali, naquela construção erguida em louvor de quem a construiu.

Ela soube que estava longe de casa, pois morava longe. Ela soube que teria de dar uma pernada de uma hora, porque vivia longe dali. Ela ficava protegida, distante de quem a enganava com um copo que nem tinha açúcar, com uma água que nem sabia como deixá-la bem.

Ao fim da mesmíssima oitava badalada?

ꟷ Dona, celular achado na praça, caído, não tem dono, não.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de novembro de 2025.

domingo, 23 de novembro de 2025

Chapéu, chaleira, caneta

 

Chapéu, chaleira, caneta

 

Ganhei o sábado porque não dei confiança à rebeldia. Sem nenhum cansaço, deitei-me no sofá e liguei o televisor. Se topasse minerar uma motivação para fazê-lo, digo que a preguiça estava no ar. Uma vez que só consigo prender a respiração por dois ou três minutos, fui direto ao canal de esportes. Por afirmar meu amor por mim, fui-me sossegando. Assim largado, assim enlevado, assim suspenso numa estupidez nada patética, eu, cativo, fui o mané que veio tomar conta de mim.

Não fosse esse zé ruela, o menino que me ampara quando o mundo é o campo um instante antes de soarem as trombetas, a minha carcaça azedaria a sopa, o fastio de ir no banho-maria do sábado desandaria a alma, e as minhas carnes, tanto as duras quanto as moles, estorvariam o trânsito das energias anímicas que pelejam a causa justa, que é pôr sincronizados a boca e a vontade de comer.

O parvo atina que há feijão que não acarrete em feijoada?

O parvo saliva.

É óbvio, eu tinha outros apetites. Queria que o evento fosse bom de ser assistido. Torcia pelo jogo bem jogado. Nutria a expectativa de que a realidade desse razão para ficar agradecido pelo espetáculo.

Saiu um gol. Voltei para vê-lo. Para acompanhar a jogada desde o momento em que foi criada, voltei um pouco mais. Para ver o lance de efeito, comentado já o gol assinalado, fui pulando até chegar ao ponto e regalou-me o que vi: o craque deu um chapéu no marcador e o passe foi certeiro e acertado, tanto que o artilheiro confirmou-se em boa fase, com o gol.

Pus no banco o idiota, sentei-me. E a partida melhorou porque a vi com outros olhos. Mais interessado no que via, no que realmente podia ver, então, o jogo entretinha, divertia, dava gosto de acompanhá-lo.

Já que a TV fez esse bem, que o fizesse de novo.

Após o almoço, tirei a pestana que o meu esqueleto aguardava que tirasse. Uma vez que me sentia realmente revigorado, gostei muito de tê-la tirado.

Como havia imaginado que faria, e sem ficar enrolando ou achando de ficar aborrecido pelas chamas do mundo, voltei à tevê e pus no jogo que me parecia ser o mais legal de ser visto, porque se enfrentariam o atual campeão e o time motivado pelas vitórias seguidas.

Batata!

No gol mais vistoso, o atacante trouxe a bola para perto de si com uma chaleira e, com outra chaleira, desmontou a defesa armada pelo goleiro.

Confiante de que não cochilaria, mesmo que houvesse acabado de tomar café da tarde, novamente sentado, pus no canal ao qual quis ser fiel o sábado todo.

Em jogo truncado, tudo era motivo para reclamações. Os jogadores não aliviavam nas divididas. O árbitro viu-se forçado a agir feito juiz, e amarelos e mais amarelos foram dados.

O jogo bruto foi vencido quando o cérebro criativo em campo fez o que se espera: o beque adversário caiu de bunda dentro da área, pois, com uma caneta pro gol da vitória, o camisa dez foi mesmo dez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de novembro de 2025.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Paixões políticas

 

Paixões políticas

 

Livre é a pessoa que fala o que pensa quando ninguém pede a ela que diga o que se lhe passa pela cachola. Livre é a pessoa que dispara falar sem pesar o que resulta em quem a escuta. Livre é a pessoa que dá no pé quando a outra que tagarela sequer se deixa ser contraposta por argumentos éticos, deduções coerentes e diabólicas falácias. Livre é pender ao pueril, ser gente jocosamente mefistofélica.

Embora Mefistófeles desconverse, o riso liberta.

Por mim, já que me alegra falar por mim e não por Mefistófeles, digo que é divertido sentir o quanto risadinhas estreitam o fosso que separa jacaré e vilão. Certo de que o embate descambará em pugilato, prefiro que o entrevero vire tapa na cara e empurra-empurra a entronizar outro clichê, aquele em que entra em cena uma turba com tochas, ancinhos e gritos de morte ao monstro da colina.

Mefistófeles, meu camarada, agora é a minha vez de cutucá-lo, pois não vejo os políticos como aquele monstro protegido por jacarés.

Quando políticos esgrimem palavras, seja no Irã, no Japão ou em Eldorado do Borba Gato, o jacaré ouriçado vira piranha e solto o timão, vou à deriva, deixo os ventos enfunarem as velas, que me assaltem o riso, um riso nervoso e um risinho que não faz espumar, porque não é raivoso.

Pareço raivoso, mas estou só enfurecido.

A fúria pega quando estou concentrado, descontrolado, já sequioso de sangue, já a piranha desejando que a contenda vire uma carnificina, já o cardume adensando-se pelo meu sangue na água.

Sou mil piranhas. Para não pescá-las, cevo-as. Como entretêm, sou exagerado, multiplico-as, e são milhares, bilhões de neurônios, trilhões de sinapses, são o dedo a indicar a terra arrasada.

Quando a cachola dá espelho, Mefistófeles, lá eu sorrio.

Sorrio, não configuro a nauseabunda lama que apodreça o que me toca, o que venha a ficar putrefato. Como o fedor inebria, as palavras fazem a alma arder por fuzarcas, mil diatribes.

Viro andar na tábua e me jogo ao mar. E nadarei, lutarei para chegar à praia. Andarei, correrei, serei manada, alcateia, uma vara.

Na vara, o varão estufa o peito, ergue o queixo, seu olhar é de quem quer seviciar, escalpelar e empalar. Por seviciar, escalpelar e empalar, a pessoa escancara-me guerreiro, combatente, bastante viril.

Calço tênis, uso óculos e sorrio a cada vez que me elogiam o tênis, os óculos e por não ter comprado o troço, aquela pochete.

Como confetes alegram a alma, não estanco na vitrine, uso a tocha para iluminar certos políticos.

A certos políticos não basta ter umbigo, é capital que o umbigo seja o seu lugar preferido no mundo. Como é estimulante o mundo ser um palco, é primordial que haja um microfone. Para que haja sintonia entre público e umbigo, digo, político, é sintomático que o palco seja ocupado que nem palanque.

Mas, Mefistófeles, cê acha simpático vender isqueiro?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2025.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

A razão do instante

 

A razão do instante

 

A manhã tivesse conhecido a tranquilidade que anda precisando, o cafezinho seria bem-vindo, só que o coração não especula, palpita com razão, o corpo sabe por quais motivos nem deve palitar os dentes.

Voltando à loja, ia calculando, pedindo por mais movimento, orando para manter a integridade, orando para que Deus aja bem, não o deixe desvirtuar-se, desviar-se, extraviar-se, Ele demonstre ser do bem, seja parte, suplicando, acelerando, o Senhor obre por maiores vendas.

No duro, já que a vida é fruto das escolhas humanas, fazendo-se a gentileza de tirar Deus da jogada, para ter uma vida menos atribulada, é necessário que a porcentagem seja aumentada, fique maior.

Havendo comissão mais encorpada, qualquer dia, mesmo que o dia seja de vendas de coisas baratinhas, mixurucas, o salário ganhará em vigor, terá forças para entrar pela segunda quinzena do mês.

Ele almoça em quinze minutos, sacrifica o cafezinho pela boa causa que é imaginar a bufunfa acabando só no trigésimo dia.

Come quibe, pastel e coxinha, sem nem um gole de suco, uma vez que vai divisando o dia em que o caraminguá possibilitará a reviravolta dos cento e oitenta graus, a fim de que a felicidade seja experimentada, não mais sentida como nostalgia, que o fim do mês venha a ser vivido, ele, outra vez, seja dado como parte do mundo.

Porque a anomalia, isso de o mês ficar reduzido a quinze dias, vem acontecendo faz um tempo, desde meados do ano passado, desde que as promoções de aniversário da loja tiveram que ser encerradas.

Para que a folhinha siga vigorando, o calendário funcione direitinho, o outono volte no ano vindouro, o comércio ensina que as liquidações exitosas não duram para sempre.

Uma vez que a farra dos preços baixos tem que acabar no momento certo, o povo vá à concorrência, faça simulações e bata perna por livre escolha, mas, para conservar-se popular, a loja sabe dar um mês para que a sedução das prestações suaves, que parecem caber na carteira de qualquer um, traga mais gente ao lugar certo.

A loja sempre tem razão.

Melhor não pensar no cafezinho que não toma desde que o outono veio, desde que o ano passado é mesmo uma página virada, arrancada da folhinha.

Faz bem deixar para trás o vivido. Há de se pensar no que está por vir. É bom não dar ouvidos ao que já é passado. É justo que pense nas vendas que fará. Que as calendas saiam da frente, não irrompam como perigo à frente, uma curva acentuada, ribanceira, outro precipício.

Por temer ficar desempregado, já não chegou o momento de pensar em assistir à próxima Copa num televisor de 55”?

Tendo ainda vinte minutos da hora de almoço, sem pesar que possa haver alguma inconveniência, pede ao gerente que o atenda.

E o vendedor realça o melhor de cada modelo. Sugere que o carnê não lhe seja sufocante. Ao fim, o felicita pela escolha, pela maravilhosa tevê de 65”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de novembro de 2025.

domingo, 16 de novembro de 2025

Prevenção

 

Prevenção

 

O senhor desculpe, mas o senhor não pode ficar parado aqui, pois o senhor atrapalha o caminho. Senhor? Está me ouvindo, senhor? Por gentileza, o senhor tem que sair da passagem, pois as pessoas pegam este caminho.

Demorei um instante para cumprir a ordem?

Fiz-me demorar. Olhei o homem e vi a criatura. Não me deslumbrei no que vi, e continuo opaco ao funcionário que veio me interpelar.

Vejo que o indivíduo tem um crachá na lapela. Que bom que exibe o documento que o identifica, ou eu não o reconheceria na autoridade que nele está instituída.

Uma vez que o crachá traz a foto tirada pela máquina da empresa que o tem contratado, nem preciso vê-la para compreendê-la no poder que ela tem.

Toda foto em todo crachá profere o discurso: a pessoa que o usa é representante da instituição que a obriga ser identificada pelo crachá que a firma um instrumento, não a serviço do que for, mas a serviço do que seja compreendido como legítimo, legal e disciplinador.

Fiz-me demorar por um milésimo de segundo? Em relação a quê? Ao universo? Ao indivíduo que me abordou tal qual a um cão? No que, ambos, precisamos ter de domesticados? Eu com minha orelha cheia de pulgas? Ele protegido por um crachá? Em relação ao que achamos que temos? Nada disso? Tudo isso? Ou a ambos?

Embora não o desculpe, faço a gentileza de sair.

Não preciso desculpar quem faz o trabalho pelo qual é cobrado que faça e que o faça sem que lhe digam que o possa fazer melhor, nem o desculparia ainda que houvesse feito algo de ruim.

Por igualmente ruim, gritaria palavrões. Assim opresso pela vilania de agir pessimamente, eu seguiria no meu caminho.

O senhor me perdoe, mas o senhor não deve pensar deste jeito. O senhor é mais que um vira-lata carregado de pulgas. Senhor? O senhor me entende? Por obséquio, o senhor dê passagem. Deixe-me mostrar-lhe do que sou capaz. Já que confio em mim pela sagacidade que julgo ter, permita-se crer no seu perdão, senhor.

Antes de perdoar quem espere sê-lo, desejo de ser perdoado?

Tenho outra história para dizer.

Vi nascerem minhas crianças. Passei noites em claro quando houve febres. Neguei brinquedos quando a impaciência era febril. Fui sóbrio quando deitaram opróbrios sobre mim. Vi crescerem minhas crianças, e disso não guardo mágoas nem as ostento.

Para acusar quem acusa as dores que causei, busco escusas?

Saio do caminho. E saio ressabiado, uma vez que o segurança veio a mim por indicação. Veio até mim porque há câmeras vigiando.

Olho por sobre o ombro. De soslaio, olho a câmera no alto. E vejo, a luz acesa diz que a máquina está acionada.

Quero falar uma história sem fugir da luz da verdade?

Volto, e pergunto ao segurança para que lado fica o banheiro.

Não voltei apenas por uma informaçãozinha à toa, voltei pelo nome da corporação no crachá.

Deus me livre!

Dos meus anjinhos, o mais rebelde bate ponto na tal firma.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de novembro de 2025.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O cosmo fala

 

O cosmo fala

 

No banheiro, lendo um livro, ocupando-me de avançar a leitura nem que seja uma página, tentando desenovelar as ideias que embaraçam olhos e olhar, é bem neste estado, natural a quem acabado de acordar, que toca o telefone.

São sete horas, deixo que toque, leio, insisto, penso em aproveitar o momento, resisto à ansiedade de ir correndo irritar-me com a ligação da operadora cujo assédio é para que eu troque de plano, assine outro, um que seja mais caro, mas, como posso, quero dar prioridade a este instante, permito-me permanecer no vaso, pois a leitura acode, ajuda, me socorre, pois tenho de sossegar-me dos remorsos, dos muitos que, ultimamente, venho precisando desvencilhar-me.

No vaso às sete, matuto o que me abone este sujeito empatado nos afazeres domésticos, afrouxo o nó que não asfixia no pescoço, adianto que pondero sem um dedinho de autocomiseração.

Devo ser honesto com quem fez a gentileza de me convidar para o churrasco, ainda que o pimpolho esteja fazendo um mês, ainda que eu não seja o padrinho, é que sábado, ainda que eu não faça restrições a batizados num sábado, como moro sem ninguém que faça por mim o que o lar pressupõe que seja feito sem procrastinações, pretendo tirar o sábado para lavar roupa.

Devo dar explicações menos cínicas ao casal que me chamou para a revelação do nome do primogênito, até porque a noite passada teria sido ótima para um engano na divisão, comigo pagando reais a menos, se houvessem notado as fatias a mais que eu tenha comido.

Às sete da matina, prevejo, terei de negar ter cochilado, haverá jogo na tevê, será outra partida fantástica, mais uma decisão acirradíssima, haverá esta peleja entre os dois possíveis campeões do campeonato, isso se houver quem se incomode que eu ronque.

Sentado no vaso às sete horas da matina, toca o telefone.

Toque, mas saiba que nem sei onde está. Toque, e deixo que toque, pois nem me esforço de lembrar onde o esqueci.

Contudo, o danadinho não para. Parece a fim de me persuadir de ir atendê-lo. O demoniozinho que sabe tocar quer-me persuadido de tirar a bunda do vaso, embora sejam sete da matina.

Já que a peste me faz crer que estarei empesteado se deixá-lo tocar até a ligação cair, compreendo a minha situação. Convenço-me, já que ele não para de tocar, fica mais do que evidente que não deve ser mais uma ligação da operadora.

Portanto convencido, lamento a passividade que me impede de sair do vaso, me põe nesta ânsia de me livrar do que me faz quedar nestes meus remordimentos.

Tenho razão para mordiscar meus lábios?

Preso à leitura de uma página do Otto Lara Resende, sinto, de fato: o universo quer que eu capte a mensagem, seu recado, a dica, que a triscaldecofobia não faz supersticioso o triscaldecófobo, pois hoje não poderia ser simplesmente mais uma quinta-feira, sim, é quinta, só que é outro incontornável dia 13.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de novembro de 2025.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Ananias

 

Ananias

 

Que me deu uma vontade de comer cachorro-quente, rapaz, que o melhor para mim é pensar no aquecimento global. Com duas salsichas, ketchup e mostarda, assim eu não salivo pelo fruto vexatório. Concordo que o desespero por comida e a morte dos ursos polares tiram mais o sono que um cachorro-quente com duas salsichas, ketchup, mostarda. Ursos polares morrendo de fome, entretanto, não comem salsicha com o prazer explicitamente indecoroso do meu gato.

Faz dezessete anos que o meu gato sumiu. Foi o meu primeiro, cujo nome era Félix, e eu não estava preparado para conservá-lo em casa. Ao cabo de uma semana, quando o telhado tinha uma orquestra a miar uma versão, polifônica e promíscua, de Cio da Terra, o meu bichaninho escafedeu-se.

Lembrei desse sumiço, pois, noutra noite aí, o marido de uma amiga saiu querendo uma gaita e, já fazendo três anos quase inteiros, quede que o musicista não veio para sapecar aquele Brasileirinho duca.

Quede que volte? Quede que mie? Os catitos, cadê?

Jogando no liquidificador, noves fora, bem se toque em se lambuzar de mel e bem se abunde na baba o quanto gostei, dancei, pulei, viciei, pois bem se faça o bem que se peça, tendo pão e chorinho como chão de cada dia.

E a minha amiga se livrou do gato, dando-me. Por quê? Ela ganhou do gaitista farrista, aquele fio de uma égua.

Rapaz, não me corrija. Sei fazer conta. É que às vezes falo de modo a confundir. Mas eu não me atrapalho com as confusões que eu causo, pois faz parte da pessoa de personalidade como a minha.

Não abuse de mim, abusado, pois não estou determinado a abusar da boa-vontade. Só confundo um tanto. Em vez dos dezessete, cinco? Ou cinco pelos dezessete? E o Félix continua sumido, né?

Rapaz, isso importa? Tem mesmo que bater pau?

Nem os ursos polares nem os marimbondos ligam para mim quando levanto a cortina para mostrar as conexões.

Os marimbondos? Francamente, que ignorância.

Tem aquela música do Ataulfo, que a gente assobia, que laranja na beira da estrada, a laranja madura, tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé.

Me faz este favor, rapaz? Você permite que eu conte da vez em que o Ananias foi censurado pelos três pontinhos no cheque? Quer saber por que o advogado exigiu que não assinasse com o frufru?

O Ananias é desses que aprendem uma besteira e sai imitando, sai copiando como se fosse moda a ser replicada de pronto.

O que teve de ouvir é que o advogado era integrante de um grupo seleto, com responsabilidades inalienáveis para com a comunidade, e que os três pontos apontavam quem era da fraternidade, quem estava incluído no elenco de gente ética da cidade.

Por que, respeitando a ordem de não fazer mais aquilo, ao despedir-se, bati três vezes com o indicador no antebraço do conselheiro?

Não há improviso com força bastante que silencie, despiste, apague ou desminta o que o óbvio ulula, que o Ananias é onanista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de novembro de 2025.

domingo, 9 de novembro de 2025

O ar da sua graça

 

O ar da sua graça

 

Para dar momento ao modorrento, tem-se o início.

Olho pela janela. Bebo um gole. Há um cão latindo. Bebo outro gole. Um mendigo brinca com o vira-lata. No entanto, o suco acaba. Encho o copo outra vez. Volto à janela. Vejo, novamente, o cão e o camarada. Noto-os, que reprimem jactâncias, praticam errâncias, estão ignorando ganâncias. Percebo que ajam assim, porque sou eu que os conjecturo capazes de serem assim.

Supondo. Bebericando. Todavia, não há copo que permaneça cheio o quanto se queira; o meu esvazia de repente, mas não praguejo.

Tem mais suco, porque fui eu que espremi as laranjas. E trouxe-as há pouco. Pelas laranjas, fui ao supermercado. Sob chuva e vento, fui somente por elas, e trouxe logo uma dúzia.

A cada vez que faço laranjada, sempre espremo uma dúzia. Como gosto de beber devagar, sem nenhum mal-estar, bebo tudo. Quando a fruta tem sumo abundante, bebo mais que um litro. Bebo tudinho, sem que reste uma gota sequer, pois tomo este tempo para mim.

Assim como não gosto de laranjada adoçada, seja por mel, seja por açúcar, por nenhum deles, ou mascavo ou demerara, sei, sim, senhor, que não é domingo que é dia de laranjada, todo dia é.

Com o fim do introito, vai, passado no mercado, o entrecho.

Disse bom-dia à moça que pesa frutas e legumes. Tornei a dizer o meu bom-dia. Por ignorado, temperou-me uma pitadinha de mal-estar, já aquele bom-dia de gente educada encruando-me.

Tenho esta índole, de ficar achando que o culpado de tudo sempre sou eu. Ou melhor, sendo fiel à realidade, alimento-me deste espírito, que a mim me dou carne e dores quando me sinto desarticulado pelas indiferenças do mundo. Ou seja, quando as pessoas demonstram que estou a entediá-las, e não o contrário, somatizo este tédio.

Aborrecido com a falta de modos da funcionária da balança, eu sou abalroado. Sem afetar estoicismo, acuso o impacto: ai!

Mesmo massageando a canela, a minha dor, todavia, não chega ao moço que empurra o carrinho.

Assim como àquela moça o meu bom-dia não existiu, ao funcionário de reposição de frutas e legumes meu ai! não despertou simpatia, nem sequer a preocupação dada às caixas de uvas.

Para que o rapaz manobrasse o carro carregado de caixas sem que a minha perna ajudasse a orientá-lo, abri caminho. Em vão que a minha boa ação tivesse reconhecimento, o sujeito seguiu que nem me viu.

Com isso posto, que comece logo o epílogo.

Como continuo sendo o tipo de pessoa que não voa nem cheirando pó de pirlimpimpim, fico à janela. Embora nem me ensandeça o desejo de ser visto por um dos camaradas, seja o cachorro, seja o cara, bebo a laranjada. É forçosamente sem pressa que a bebo.

Sem irritar quem seja, passo a língua nos lábios. Nem pigarreando nem me lambendo, este troço intragável seguirá impotável.

Que moral tem tal croniqueta?

Só o pícaro faz laranjada com as duas dúzias de limões.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de novembro de 2025.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O domingo do mundo

 

O domingo do mundo

 

Valha sempre a intenção, pois o bem-intencionado dá propósito ao desejo de persistir, e ele persiste porque tem em mente que o paraíso alberga quem dobra as cobertas, ajeita os lençóis, e reclama, que lhe entreguem uma colcha, sendo sábado.

Valha ser um sujeito bem-intencionado, não outro cara desejoso de entrar no refeitório, recusar café no leite, sentar-se onde queira e negar conversa com gente que diga, pela eternidade inteirinha, tão somente a verdade, que sempre há de ser domingo, sendo sábado.

Valha ter conhecimento da situação, a zanzar, fingindo zanzar, indo atrás de quem lhe fale a versão mais verídica, não indo atrás de gente que lhe aponte qual o caminho da modéstia.

Valha autoelogiar-se, pois, sendo pessoa modesta e paciente, não se deve deixar a cama desarrumada, até porque o inferno tem lugar de sobra a quem jura que não jura, nem em vão, porque o inferno acolhe, até, cobra que vive se comendo pelo próprio rabo.

Valha ser como aquele cara que não sorri à toa, só quando entende o subentendido do que está dito, porque um camarada sério, sobre rir à toa ou pirar que joguem café no leite, é boa-praça, é sujeito que troca de pele por conhecer o público que tem, é cara que aplaude a plateia que se diverte a ouvi-lo e alegra-se que o vejam como precisa ser visto, o justo que guarda sábados, não o domingo.

Valha ser, pobre-diabo de autêntico comedimento, cobra criada que precisa de nova pele a cada vez que precisa renovar-se, já, e sempre, em pele nova.

Valha por responsabilizar-se pela cama, já bêbado de si, feito gente que pensa que é, ainda que nem saiba que dia é, o entusiasmado que arde por mais outros sábados, porque lhe basta seguir sendo quem é, a pessoa, tão somente, que ele pensa que lhe seja permitido ser.

Depois de tomar umas, ele se aborrece que o tratem feito figurante. Com tantas verdades para dizer, ficar ao fundo? Que falta de simpatia. Mas, boa gente a ouvi-lo quando fala sem constrangimentos, é sensato distribuir perdões. Com uma história riquíssima, calamitoso é deixá-lo a dois passos do banheiro. Depois vão dizer que vira todas, resmunga demais, é o chato que não dá folga, quando o sábado é para gozar das boas coisas do mundo.

Mas, o mundo tem que saber o quanto está radiante. Tal qual o sol que não tem concorrente, brilhando feliz, despejando nas pessoas sua luz alvissareira, já que o sol é amor, ele quer irradiar o amor.

Com tanto amor, ele sabe que o paraíso está dentro de cada pessoa e, destemido, ele fala sobre arrumar a cama antes de sentar-se para o copo de leite, e tomá-lo sem pressa.

É preciso amar, ser o sol àquele bar.

Ele compartilha a razão para ter mudado de cargo. A mudança torna patente a verdade: com salário maior, a pessoa tem mais inteligência. E todo mundo de inteligência superior merece perceber o tanto que as suas preces estão atendidas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de novembro de 2025.