domingo, 23 de novembro de 2025

Chapéu, chaleira, caneta

 

Chapéu, chaleira, caneta

 

Ganhei o sábado porque não dei confiança à rebeldia. Sem nenhum cansaço, deitei-me no sofá e liguei o televisor. Se topasse minerar uma motivação para fazê-lo, digo que a preguiça estava no ar. Uma vez que só consigo prender a respiração por dois ou três minutos, fui direto ao canal de esportes. Por afirmar meu amor por mim, fui-me sossegando. Assim largado, assim enlevado, assim suspenso numa estupidez nada patética, eu, cativo, fui o mané que veio tomar conta de mim.

Não fosse esse zé ruela, o menino que me ampara quando o mundo é o campo um instante antes de soarem as trombetas, a minha carcaça azedaria a sopa, o fastio de ir no banho-maria do sábado desandaria a alma, e as minhas carnes, tanto as duras quanto as moles, estorvariam o trânsito das energias anímicas que pelejam a causa justa, que é pôr sincronizados a boca e a vontade de comer.

O parvo atina que há feijão que não acarrete em feijoada?

O parvo saliva.

É óbvio, eu tinha outros apetites. Queria que o evento fosse bom de ser assistido. Torcia pelo jogo bem jogado. Nutria a expectativa de que a realidade desse razão para ficar agradecido pelo espetáculo.

Saiu um gol. Voltei para vê-lo. Para acompanhar a jogada desde o momento em que foi criada, voltei um pouco mais. Para ver o lance de efeito, comentado já o gol assinalado, fui pulando até chegar ao ponto e regalou-me o que vi: o craque deu um chapéu no marcador e o passe foi certeiro e acertado, tanto que o artilheiro confirmou-se em boa fase, com o gol.

Pus no banco o idiota, sentei-me. E a partida melhorou porque a vi com outros olhos. Mais interessado no que via, no que realmente podia ver, então, o jogo entretinha, divertia, dava gosto de acompanhá-lo.

Já que a TV fez esse bem, que o fizesse de novo.

Após o almoço, tirei a pestana que o meu esqueleto aguardava que tirasse. Uma vez que me sentia realmente revigorado, gostei muito de tê-la tirado.

Como havia imaginado que faria, e sem ficar enrolando ou achando de ficar aborrecido pelas chamas do mundo, voltei à tevê e pus no jogo que me parecia ser o mais legal de ser visto, porque se enfrentariam o atual campeão e o time motivado pelas vitórias seguidas.

Batata!

No gol mais vistoso, o atacante trouxe a bola para perto de si com uma chaleira e, com outra chaleira, desmontou a defesa armada pelo goleiro.

Confiante de que não cochilaria, mesmo que houvesse acabado de tomar café da tarde, novamente sentado, pus no canal ao qual quis ser fiel o sábado todo.

Em jogo truncado, tudo era motivo para reclamações. Os jogadores não aliviavam nas divididas. O árbitro viu-se forçado a agir feito juiz, e amarelos e mais amarelos foram dados.

O jogo bruto foi vencido quando o cérebro criativo em campo fez o que se espera: o beque adversário caiu de bunda dentro da área, pois, com uma caneta pro gol da vitória, o camisa dez foi mesmo dez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de novembro de 2025.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Paixões políticas

 

Paixões políticas

 

Livre é a pessoa que fala o que pensa quando ninguém pede a ela que diga o que se lhe passa pela cachola. Livre é a pessoa que dispara falar sem pesar o que resulta em quem a escuta. Livre é a pessoa que dá no pé quando a outra que tagarela sequer se deixa ser contraposta por argumentos éticos, deduções coerentes e diabólicas falácias. Livre é pender ao pueril, ser gente jocosamente mefistofélica.

Embora Mefistófeles desconverse, o riso liberta.

Por mim, já que me alegra falar por mim e não por Mefistófeles, digo que é divertido sentir o quanto risadinhas estreitam o fosso que separa jacaré e vilão. Certo de que o embate descambará em pugilato, prefiro que o entrevero vire tapa na cara e empurra-empurra a entronizar outro clichê, aquele em que entra em cena uma turba com tochas, ancinhos e gritos de morte ao monstro da colina.

Mefistófeles, meu camarada, agora é a minha vez de cutucá-lo, pois não vejo os políticos como aquele monstro protegido por jacarés.

Quando políticos esgrimem palavras, seja no Irã, no Japão ou em Eldorado do Borba Gato, o jacaré ouriçado vira piranha e solto o timão, vou à deriva, deixo os ventos enfunarem as velas, que me assaltem o riso, um riso nervoso e um risinho que não faz espumar, porque não é raivoso.

Pareço raivoso, mas estou só enfurecido.

A fúria pega quando estou concentrado, descontrolado, já sequioso de sangue, já a piranha desejando que a contenda vire uma carnificina, já o cardume adensando-se pelo meu sangue na água.

Sou mil piranhas. Para não pescá-las, cevo-as. Como entretêm, sou exagerado, multiplico-as, e são milhares, bilhões de neurônios, trilhões de sinapses, são o dedo a indicar a terra arrasada.

Quando a cachola dá espelho, Mefistófeles, lá eu sorrio.

Sorrio, não configuro a nauseabunda lama que apodreça o que me toca, o que venha a ficar putrefato. Como o fedor inebria, as palavras fazem a alma arder por fuzarcas, mil diatribes.

Viro andar na tábua e me jogo ao mar. E nadarei, lutarei para chegar à praia. Andarei, correrei, serei manada, alcateia, uma vara.

Na vara, o varão estufa o peito, ergue o queixo, seu olhar é de quem quer seviciar, escalpelar e empalar. Por seviciar, escalpelar e empalar, a pessoa escancara-me guerreiro, combatente, bastante viril.

Calço tênis, uso óculos e sorrio a cada vez que me elogiam o tênis, os óculos e por não ter comprado o troço, aquela pochete.

Como confetes alegram a alma, não estanco na vitrine, uso a tocha para iluminar certos políticos.

A certos políticos não basta ter umbigo, é capital que o umbigo seja o seu lugar preferido no mundo. Como é estimulante o mundo ser um palco, é primordial que haja um microfone. Para que haja sintonia entre público e umbigo, digo, político, é sintomático que o palco seja ocupado que nem palanque.

Mas, Mefistófeles, cê acha simpático vender isqueiro?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2025.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

A razão do instante

 

A razão do instante

 

A manhã tivesse conhecido a tranquilidade que anda precisando, o cafezinho seria bem-vindo, só que o coração não especula, palpita com razão, o corpo sabe por quais motivos nem deve palitar os dentes.

Voltando à loja, ia calculando, pedindo por mais movimento, orando para manter a integridade, orando para que Deus aja bem, não o deixe desvirtuar-se, desviar-se, extraviar-se, Ele demonstre ser do bem, seja parte, suplicando, acelerando, o Senhor obre por maiores vendas.

No duro, já que a vida é fruto das escolhas humanas, fazendo-se a gentileza de tirar Deus da jogada, para ter uma vida menos atribulada, é necessário que a porcentagem seja aumentada, fique maior.

Havendo comissão mais encorpada, qualquer dia, mesmo que o dia seja de vendas de coisas baratinhas, mixurucas, o salário ganhará em vigor, terá forças para entrar pela segunda quinzena do mês.

Ele almoça em quinze minutos, sacrifica o cafezinho pela boa causa que é imaginar a bufunfa acabando só no trigésimo dia.

Come quibe, pastel e coxinha, sem nem um gole de suco, uma vez que vai divisando o dia em que o caraminguá possibilitará a reviravolta dos cento e oitenta graus, a fim de que a felicidade seja experimentada, não mais sentida como nostalgia, que o fim do mês venha a ser vivido, ele, outra vez, seja dado como parte do mundo.

Porque a anomalia, isso de o mês ficar reduzido a quinze dias, vem acontecendo faz um tempo, desde meados do ano passado, desde que as promoções de aniversário da loja tiveram que ser encerradas.

Para que a folhinha siga vigorando, o calendário funcione direitinho, o outono volte no ano vindouro, o comércio ensina que as liquidações exitosas não duram para sempre.

Uma vez que a farra dos preços baixos tem que acabar no momento certo, o povo vá à concorrência, faça simulações e bata perna por livre escolha, mas, para conservar-se popular, a loja sabe dar um mês para que a sedução das prestações suaves, que parecem caber na carteira de qualquer um, traga mais gente ao lugar certo.

A loja sempre tem razão.

Melhor não pensar no cafezinho que não toma desde que o outono veio, desde que o ano passado é mesmo uma página virada, arrancada da folhinha.

Faz bem deixar para trás o vivido. Há de se pensar no que está por vir. É bom não dar ouvidos ao que já é passado. É justo que pense nas vendas que fará. Que as calendas saiam da frente, não irrompam como perigo à frente, uma curva acentuada, ribanceira, outro precipício.

Por temer ficar desempregado, já não chegou o momento de pensar em assistir à próxima Copa num televisor de 55”?

Tendo ainda vinte minutos da hora de almoço, sem pesar que possa haver alguma inconveniência, pede ao gerente que o atenda.

E o vendedor realça o melhor de cada modelo. Sugere que o carnê não lhe seja sufocante. Ao fim, o felicita pela escolha, pela maravilhosa tevê de 65”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de novembro de 2025.

domingo, 16 de novembro de 2025

Prevenção

 

Prevenção

 

O senhor desculpe, mas o senhor não pode ficar parado aqui, pois o senhor atrapalha o caminho. Senhor? Está me ouvindo, senhor? Por gentileza, o senhor tem que sair da passagem, pois as pessoas pegam este caminho.

Demorei um instante para cumprir a ordem?

Fiz-me demorar. Olhei o homem e vi a criatura. Não me deslumbrei no que vi, e continuo opaco ao funcionário que veio me interpelar.

Vejo que o indivíduo tem um crachá na lapela. Que bom que exibe o documento que o identifica, ou eu não o reconheceria na autoridade que nele está instituída.

Uma vez que o crachá traz a foto tirada pela máquina da empresa que o tem contratado, nem preciso vê-la para compreendê-la no poder que ela tem.

Toda foto em todo crachá profere o discurso: a pessoa que o usa é representante da instituição que a obriga ser identificada pelo crachá que a firma um instrumento, não a serviço do que for, mas a serviço do que seja compreendido como legítimo, legal e disciplinador.

Fiz-me demorar por um milésimo de segundo? Em relação a quê? Ao universo? Ao indivíduo que me abordou tal qual a um cão? No que, ambos, precisamos ter de domesticados? Eu com minha orelha cheia de pulgas? Ele protegido por um crachá? Em relação ao que achamos que temos? Nada disso? Tudo isso? Ou a ambos?

Embora não o desculpe, faço a gentileza de sair.

Não preciso desculpar quem faz o trabalho pelo qual é cobrado que faça e que o faça sem que lhe digam que o possa fazer melhor, nem o desculparia ainda que houvesse feito algo de ruim.

Por igualmente ruim, gritaria palavrões. Assim opresso pela vilania de agir pessimamente, eu seguiria no meu caminho.

O senhor me perdoe, mas o senhor não deve pensar deste jeito. O senhor é mais que um vira-lata carregado de pulgas. Senhor? O senhor me entende? Por obséquio, o senhor dê passagem. Deixe-me mostrar-lhe do que sou capaz. Já que confio em mim pela sagacidade que julgo ter, permita-se crer no seu perdão, senhor.

Antes de perdoar quem espere sê-lo, desejo de ser perdoado?

Tenho outra história para dizer.

Vi nascerem minhas crianças. Passei noites em claro quando houve febres. Neguei brinquedos quando a impaciência era febril. Fui sóbrio quando deitaram opróbrios sobre mim. Vi crescerem minhas crianças, e disso não guardo mágoas nem as ostento.

Para acusar quem acusa as dores que causei, busco escusas?

Saio do caminho. E saio ressabiado, uma vez que o segurança veio a mim por indicação. Veio até mim porque há câmeras vigiando.

Olho por sobre o ombro. De soslaio, olho a câmera no alto. E vejo, a luz acesa diz que a máquina está acionada.

Quero falar uma história sem fugir da luz da verdade?

Volto, e pergunto ao segurança para que lado fica o banheiro.

Não voltei apenas por uma informaçãozinha à toa, voltei pelo nome da corporação no crachá.

Deus me livre!

Dos meus anjinhos, o mais rebelde bate ponto na tal firma.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de novembro de 2025.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O cosmo fala

 

O cosmo fala

 

No banheiro, lendo um livro, ocupando-me de avançar a leitura nem que seja uma página, tentando desenovelar as ideias que embaraçam olhos e olhar, é bem neste estado, natural a quem acabado de acordar, que toca o telefone.

São sete horas, deixo que toque, leio, insisto, penso em aproveitar o momento, resisto à ansiedade de ir correndo irritar-me com a ligação da operadora cujo assédio é para que eu troque de plano, assine outro, um que seja mais caro, mas, como posso, quero dar prioridade a este instante, permito-me permanecer no vaso, pois a leitura acode, ajuda, me socorre, pois tenho de sossegar-me dos remorsos, dos muitos que, ultimamente, venho precisando desvencilhar-me.

No vaso às sete, matuto o que me abone este sujeito empatado nos afazeres domésticos, afrouxo o nó que não asfixia no pescoço, adianto que pondero sem um dedinho de autocomiseração.

Devo ser honesto com quem fez a gentileza de me convidar para o churrasco, ainda que o pimpolho esteja fazendo um mês, ainda que eu não seja o padrinho, é que sábado, ainda que eu não faça restrições a batizados num sábado, como moro sem ninguém que faça por mim o que o lar pressupõe que seja feito sem procrastinações, pretendo tirar o sábado para lavar roupa.

Devo dar explicações menos cínicas ao casal que me chamou para a revelação do nome do primogênito, até porque a noite passada teria sido ótima para um engano na divisão, comigo pagando reais a menos, se houvessem notado as fatias a mais que eu tenha comido.

Às sete da matina, prevejo, terei de negar ter cochilado, haverá jogo na tevê, será outra partida fantástica, mais uma decisão acirradíssima, haverá esta peleja entre os dois possíveis campeões do campeonato, isso se houver quem se incomode que eu ronque.

Sentado no vaso às sete horas da matina, toca o telefone.

Toque, mas saiba que nem sei onde está. Toque, e deixo que toque, pois nem me esforço de lembrar onde o esqueci.

Contudo, o danadinho não para. Parece a fim de me persuadir de ir atendê-lo. O demoniozinho que sabe tocar quer-me persuadido de tirar a bunda do vaso, embora sejam sete da matina.

Já que a peste me faz crer que estarei empesteado se deixá-lo tocar até a ligação cair, compreendo a minha situação. Convenço-me, já que ele não para de tocar, fica mais do que evidente que não deve ser mais uma ligação da operadora.

Portanto convencido, lamento a passividade que me impede de sair do vaso, me põe nesta ânsia de me livrar do que me faz quedar nestes meus remordimentos.

Tenho razão para mordiscar meus lábios?

Preso à leitura de uma página do Otto Lara Resende, sinto, de fato: o universo quer que eu capte a mensagem, seu recado, a dica, que a triscaldecofobia não faz supersticioso o triscaldecófobo, pois hoje não poderia ser simplesmente mais uma quinta-feira, sim, é quinta, só que é outro incontornável dia 13.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de novembro de 2025.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Ananias

 

Ananias

 

Que me deu uma vontade de comer cachorro-quente, rapaz, que o melhor para mim é pensar no aquecimento global. Com duas salsichas, ketchup e mostarda, assim eu não salivo pelo fruto vexatório. Concordo que o desespero por comida e a morte dos ursos polares tiram mais o sono que um cachorro-quente com duas salsichas, ketchup, mostarda. Ursos polares morrendo de fome, entretanto, não comem salsicha com o prazer explicitamente indecoroso do meu gato.

Faz dezessete anos que o meu gato sumiu. Foi o meu primeiro, cujo nome era Félix, e eu não estava preparado para conservá-lo em casa. Ao cabo de uma semana, quando o telhado tinha uma orquestra a miar uma versão, polifônica e promíscua, de Cio da Terra, o meu bichaninho escafedeu-se.

Lembrei desse sumiço, pois, noutra noite aí, o marido de uma amiga saiu querendo uma gaita e, já fazendo três anos quase inteiros, quede que o musicista não veio para sapecar aquele Brasileirinho duca.

Quede que volte? Quede que mie? Os catitos, cadê?

Jogando no liquidificador, noves fora, bem se toque em se lambuzar de mel e bem se abunde na baba o quanto gostei, dancei, pulei, viciei, pois bem se faça o bem que se peça, tendo pão e chorinho como chão de cada dia.

E a minha amiga se livrou do gato, dando-me. Por quê? Ela ganhou do gaitista farrista, aquele fio de uma égua.

Rapaz, não me corrija. Sei fazer conta. É que às vezes falo de modo a confundir. Mas eu não me atrapalho com as confusões que eu causo, pois faz parte da pessoa de personalidade como a minha.

Não abuse de mim, abusado, pois não estou determinado a abusar da boa-vontade. Só confundo um tanto. Em vez dos dezessete, cinco? Ou cinco pelos dezessete? E o Félix continua sumido, né?

Rapaz, isso importa? Tem mesmo que bater pau?

Nem os ursos polares nem os marimbondos ligam para mim quando levanto a cortina para mostrar as conexões.

Os marimbondos? Francamente, que ignorância.

Tem aquela música do Ataulfo, que a gente assobia, que laranja na beira da estrada, a laranja madura, tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé.

Me faz este favor, rapaz? Você permite que eu conte da vez em que o Ananias foi censurado pelos três pontinhos no cheque? Quer saber por que o advogado exigiu que não assinasse com o frufru?

O Ananias é desses que aprendem uma besteira e sai imitando, sai copiando como se fosse moda a ser replicada de pronto.

O que teve de ouvir é que o advogado era integrante de um grupo seleto, com responsabilidades inalienáveis para com a comunidade, e que os três pontos apontavam quem era da fraternidade, quem estava incluído no elenco de gente ética da cidade.

Por que, respeitando a ordem de não fazer mais aquilo, ao despedir-se, bati três vezes com o indicador no antebraço do conselheiro?

Não há improviso com força bastante que silencie, despiste, apague ou desminta o que o óbvio ulula, que o Ananias é onanista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de novembro de 2025.

domingo, 9 de novembro de 2025

O ar da sua graça

 

O ar da sua graça

 

Para dar momento ao modorrento, tem-se o início.

Olho pela janela. Bebo um gole. Há um cão latindo. Bebo outro gole. Um mendigo brinca com o vira-lata. No entanto, o suco acaba. Encho o copo outra vez. Volto à janela. Vejo, novamente, o cão e o camarada. Noto-os, que reprimem jactâncias, praticam errâncias, estão ignorando ganâncias. Percebo que ajam assim, porque sou eu que os conjecturo capazes de serem assim.

Supondo. Bebericando. Todavia, não há copo que permaneça cheio o quanto se queira; o meu esvazia de repente, mas não praguejo.

Tem mais suco, porque fui eu que espremi as laranjas. E trouxe-as há pouco. Pelas laranjas, fui ao supermercado. Sob chuva e vento, fui somente por elas, e trouxe logo uma dúzia.

A cada vez que faço laranjada, sempre espremo uma dúzia. Como gosto de beber devagar, sem nenhum mal-estar, bebo tudo. Quando a fruta tem sumo abundante, bebo mais que um litro. Bebo tudinho, sem que reste uma gota sequer, pois tomo este tempo para mim.

Assim como não gosto de laranjada adoçada, seja por mel, seja por açúcar, por nenhum deles, ou mascavo ou demerara, sei, sim, senhor, que não é domingo que é dia de laranjada, todo dia é.

Com o fim do introito, vai, passado no mercado, o entrecho.

Disse bom-dia à moça que pesa frutas e legumes. Tornei a dizer o meu bom-dia. Por ignorado, temperou-me uma pitadinha de mal-estar, já aquele bom-dia de gente educada encruando-me.

Tenho esta índole, de ficar achando que o culpado de tudo sempre sou eu. Ou melhor, sendo fiel à realidade, alimento-me deste espírito, que a mim me dou carne e dores quando me sinto desarticulado pelas indiferenças do mundo. Ou seja, quando as pessoas demonstram que estou a entediá-las, e não o contrário, somatizo este tédio.

Aborrecido com a falta de modos da funcionária da balança, eu sou abalroado. Sem afetar estoicismo, acuso o impacto: ai!

Mesmo massageando a canela, a minha dor, todavia, não chega ao moço que empurra o carrinho.

Assim como àquela moça o meu bom-dia não existiu, ao funcionário de reposição de frutas e legumes meu ai! não despertou simpatia, nem sequer a preocupação dada às caixas de uvas.

Para que o rapaz manobrasse o carro carregado de caixas sem que a minha perna ajudasse a orientá-lo, abri caminho. Em vão que a minha boa ação tivesse reconhecimento, o sujeito seguiu que nem me viu.

Com isso posto, que comece logo o epílogo.

Como continuo sendo o tipo de pessoa que não voa nem cheirando pó de pirlimpimpim, fico à janela. Embora nem me ensandeça o desejo de ser visto por um dos camaradas, seja o cachorro, seja o cara, bebo a laranjada. É forçosamente sem pressa que a bebo.

Sem irritar quem seja, passo a língua nos lábios. Nem pigarreando nem me lambendo, este troço intragável seguirá impotável.

Que moral tem tal croniqueta?

Só o pícaro faz laranjada com as duas dúzias de limões.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de novembro de 2025.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O domingo do mundo

 

O domingo do mundo

 

Valha sempre a intenção, pois o bem-intencionado dá propósito ao desejo de persistir, e ele persiste porque tem em mente que o paraíso alberga quem dobra as cobertas, ajeita os lençóis, e reclama, que lhe entreguem uma colcha, sendo sábado.

Valha ser um sujeito bem-intencionado, não outro cara desejoso de entrar no refeitório, recusar café no leite, sentar-se onde queira e negar conversa com gente que diga, pela eternidade inteirinha, tão somente a verdade, que sempre há de ser domingo, sendo sábado.

Valha ter conhecimento da situação, a zanzar, fingindo zanzar, indo atrás de quem lhe fale a versão mais verídica, não indo atrás de gente que lhe aponte qual o caminho da modéstia.

Valha autoelogiar-se, pois, sendo pessoa modesta e paciente, não se deve deixar a cama desarrumada, até porque o inferno tem lugar de sobra a quem jura que não jura, nem em vão, porque o inferno acolhe, até, cobra que vive se comendo pelo próprio rabo.

Valha ser como aquele cara que não sorri à toa, só quando entende o subentendido do que está dito, porque um camarada sério, sobre rir à toa ou pirar que joguem café no leite, é boa-praça, é sujeito que troca de pele por conhecer o público que tem, é cara que aplaude a plateia que se diverte a ouvi-lo e alegra-se que o vejam como precisa ser visto, o justo que guarda sábados, não o domingo.

Valha ser, pobre-diabo de autêntico comedimento, cobra criada que precisa de nova pele a cada vez que precisa renovar-se, já, e sempre, em pele nova.

Valha por responsabilizar-se pela cama, já bêbado de si, feito gente que pensa que é, ainda que nem saiba que dia é, o entusiasmado que arde por mais outros sábados, porque lhe basta seguir sendo quem é, a pessoa, tão somente, que ele pensa que lhe seja permitido ser.

Depois de tomar umas, ele se aborrece que o tratem feito figurante. Com tantas verdades para dizer, ficar ao fundo? Que falta de simpatia. Mas, boa gente a ouvi-lo quando fala sem constrangimentos, é sensato distribuir perdões. Com uma história riquíssima, calamitoso é deixá-lo a dois passos do banheiro. Depois vão dizer que vira todas, resmunga demais, é o chato que não dá folga, quando o sábado é para gozar das boas coisas do mundo.

Mas, o mundo tem que saber o quanto está radiante. Tal qual o sol que não tem concorrente, brilhando feliz, despejando nas pessoas sua luz alvissareira, já que o sol é amor, ele quer irradiar o amor.

Com tanto amor, ele sabe que o paraíso está dentro de cada pessoa e, destemido, ele fala sobre arrumar a cama antes de sentar-se para o copo de leite, e tomá-lo sem pressa.

É preciso amar, ser o sol àquele bar.

Ele compartilha a razão para ter mudado de cargo. A mudança torna patente a verdade: com salário maior, a pessoa tem mais inteligência. E todo mundo de inteligência superior merece perceber o tanto que as suas preces estão atendidas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de novembro de 2025.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Girassol descalço

 

Girassol descalço

 

Num átimo, percebo. Estou alterado. Sem que tenha controle sobre o que sinto, passo, de repente, a me sentir diferente. Me acho, que sim, porque busco respostas que não sejam as sabidas. Quero precisão na procura. É para encontrar-me nas repostas que sejam outras que, num átimo, quero achar o que nunca tenha procurado.

Em vão, o universo não faz noite o dia, não faz do vinagre um vinho fino, nem me faz perceber que faço o que nunca tenha feito.

Como acho o que faço, vejo-me na rua.

Estou a caminho, devo pagar contas. Contudo, devo ter saído muito cedo de casa, porque as lojas estão fechadas. Sei aonde vou, preciso ir, pois, embora a agência nem esteja aberta, vou pagar boletos.

Nem preciso calcular, nem sei das horas, sei que voltarei mais cedo que o costumeiro. Mesmo indo sob chuva, temendo escorregar, sei que ficarei na varanda. Dar-me-ei este tempo, a escutar a chuva.

Na caminhada, vou que nem preciso por onde me levo. Pensando, sentindo, achando que me levo a agir como outra pessoa a me orientar. Eu vá porque tenho deveres, que eles não são de mais ninguém.

Sim, eu sei, eu sinto, eu percebo: estou outro porque me sinto outro; embora seja ilusão, há esse poder, que eu posso ser outro.

Por algum mistério que não calculo o quão poderoso ele possa ser, a chuva me ilumina, me faz ver um vira-lata.

Não faço nada e, mesmo assim, o cachorrinho abana o rabo. Ainda assim, o bichinho quer vir comigo.

Cãozinho, esqueça, vá por aí, siga seu caminho. Entenda-me, não aprovo isso de irmos juntos por aí.

Mesmo que o universo oriente-me a suspirar pelas coisinhas à toa do mundo, bato o pé, toco o cão, não quero nenhuma sombra que nem pedi. Dispenso suas pulgas, já me coço do que nem sei o que seja.

Ainda que nem me entenda, vai-se o cão.

De súbito, faço que não aperreio. Enjoei de tomar chuva.

Tenho tais súbitos, que me quero mais centrado no que faço. Busco a concentração. Na agência fechada, em segurança, tiro o celular do bolso e pago os boletos. Não reclamo de ter entrado cedo, muito cedo, num horário em que nem os caixas eletrônicos funcionam.

Opero mal quando chove?

Parto-me pelo meio: à direita, sou o urso a usar do monociclo para arranjar trutas que o alimentem, sim, as palmas são o que preciso para me exibir; à esquerda, sem ferroar quem exare fel, acho-me adocicado, mel a querer mel, cordato, sou abelha a visitar lavandas.

Partido ao meio, cachorrinho, lembro-me.

À direita e à esquerda, opto. Quero ser adotado por aquele cão. O urso e a abelha, carrego-os pela rua. Por isso, vamos achá-lo, cão que abana o rabo. Como pulga a atormentá-lo, porque chove, cão que late sem parar, vou ladrar até que me apareça.

Venha, cachorrinho, pois, embora meio zureta pelo tanto de chuva, minha cachola é girassol descalço de petulâncias. Vira-lata, venha latir onde tênis não envelhecem, venha latir no meu peito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de novembro de 2025.

domingo, 2 de novembro de 2025

Gentilezas de amigo

 

Gentilezas de amigo

 

Mostrando as sacolinhas que trouxe pro churrasco, a pessoa, certa de estar certa, dá uma latinha que nem tenho o trabalho de abrir. Pego-a aberta por estar aberto à gentileza. Embora o gentil me seja estranho, pego e beberico. Beberico-a, pois a cerveja não está morna.

Estranho a afetação, tão simpático. Por não conseguir engolir mais um gole, o maxilar relaxa e eu babo. Tem também a afobação, que ele não me deixa engolir a cerveja porque, já sufocando no bodum, o peito do cara comprime meu nariz e o meu queixo trava.

Sendo abraçado com tanta generosidade, ele diz que o Amintas vai chegar depois do almoço porque a mãe dele não gosta nada que o filho falte à macarronada.

É sim, o cara das latinhas fede, tem necessidade de demonstrar-se afetuoso, exibe-se másculo e gosta de uma fofoquinha.

Acha que me informa?

O que já sei não é novidade. E não havendo nada de novo, também me exibo, que eu também adoro fofocar, desde que me deixem respirar e apreciar o gole que tenho na boca.

Ao cara das latinhas, por pirraça, não digo que, ontem, o meu amigo Amintas telefonou-me para avisar que chegaria depois de almoçar na casa da mãe dele, porque ela não gosta nada que um filho seu decida-se por faltar à macarronada da família.

O amigo do Amintas não se acanha, vai entrando. Porque não gosta que bebam cerveja quente, vai pela casa adentro, já perguntando onde fica a geladeira. Por eu ser bom anfitrião, e sensato, na certa iria querer tomar e iria querer oferecer uma gelada aos meus convidados.

Se assim o permita, é claro. Assim o permito, é claro. E que ele faça o que parece disposto a fazer, já o fazendo, já enchendo o freezer, já pegando duas latinhas, sendo uma para mim, é claro.

O que a mim me parece claríssimo, muitíssimo óbvio, é que não sei quem ele é. Assim, amigo do Amintas, nem acho de hesitar, pois devo acompanhá-lo. Vou com você, pois eu o conheço pelo modo como age, que você é gente que não dispensa nenhuma latinha.

Melhor vigiá-lo sem discrição, pois ser amigo de um amigo meu não implica que haja o que contestar. Até porque o freezer reabastecido diz que lhe devo gratidão, sem me achar certo da sua linhagem. Pois você mostrar-se amigo do amigo, ainda que o traia a fala mais gentil do que a mais gentil dos amigos, é uma baita bajulação.

O amigo do Amintas bajular-me dentro da minha casa é o jeito mais simpático de alguém, que não é familiar nem íntimo, convencer de que é de bom-tom sondar o Amintas.

O amigo do Amintas, sem pressão, portanto gentil e simpático, pede que o deixe procurar onde o sinal esteja mais forte.

Como deixo que use o celular na calçada, já que destravo o portão, o danado do meu telefone vai junto com o amigo do Amintas.

ꟷ Ainda bem que tenho mais aparelhos, Amintas.

O amigo também lhe é estranho, pois ele não conhece ninguém que tenha lágrimas tatuadas caindo de nenhum olho esquerdo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de novembro de 2025.