Embora ensolarada, a manhã está gelada,
faz cinco graus. Não é por ser inverno que me percebo triste, é porque esta
tristeza veio sutil. Enregelando-me sem que a percebesse afrontosa,
questionadora, esta sutileza tem alento bastante para me persuadir a adotá-la
uma tristeza solar, luminosa. Com lucidez suficiente para que me estimule a dar-lhe
manifestação, encarno-a e, invernoso, me faço um sol pálido.
Ainda que não seja uma tristeza acutilante,
gravosa, profundíssima, a desconsolar-me em dor, num sentimento doloroso,
lacrimejo; tocado, digo-me uma dorzinha, digo o que me põe perceptível.
Esta dor, este sentimento, tanto mexe
comigo que fico um tempinho à janela; refreio-me do ímpeto, seguro-me da irreverência
de correr ao papel para rir-me desse prostrado, desse pensaroso cuja lividez é
uma máscara devera risível, porque, leve, levíssima, a melancolia pede-me uma
sacanagenzinha tola, pede-me alguma graça para comigo.
Com problemas de sobra para resolver, ponho-me
à janela e cá fico eu enquanto a prostração faz-me fraco. Mas a minha fraqueza me
põe idiota, tão bocó que me submeto ao mundo tendo de mim a pérola de ser uma
pessoa lúcida, contida ― um dedo fria e outro apática ―, uma pessoa que precisa
do lápis, não pra maquiar os olhos, preciso de mim para notar-me gracioso,
leve, de uma futilidade a rir de si mesma.
Pego o lápis, pois o sol quer-se por
escrito. Escrevo, risco palavras, troco algumas, pois minha brisa persiste nos
cinco graus. Digito o que escrevi, mas apago parágrafos, reposiciono outros, quero-me
um vento solar a soprar este inverno para fora de mim.
Por conhecer-me, lápis, você sabe que
posso alegrar-me, sabe que não preciso seguir conformado à tristeza, afeito a essa
vulnerabilidade que produz este sentimento de que estou encoberto, que me
confundo, produz-me esta névoa a ser dissipada, como crônica.
O pusilânime e eu lutamos, pelejamos,
temos palavras; há uma luta, ou o lápis não teria de ser apontado; e a folha
vence.
Leio o acabado de ser escrito; e me
decepciona que seja uma pedra a ser polida pelo vento, e me inspira que o faça
uma janela a ser aberta para que o vento passe, e me ridicularizo, que o texto
escrito é lápide a esse escrevinhador com imaginação servil; enfiado na canga,
rodo a moenda, mas não dou farinha.
Não havendo mingau, resta o escrito ser
descartado.
Quanto a isso, rasgar e queimar o que esteja
ruim, preciso de estar afiado, crítico, maluquinho o bastante para mofar da
tristeza vulgar, da lágrima postiça, da melancolia amena a me pôr fleumático.
Mas a falsidade do escrito desperta o
garoto que, por saber do fogo pelo fogo, dá fim ao que precisa ser destruído.
Idiota, inspira a fumaça. Tosse, me enerva.
Na praça, menos idiota, me sossego ao respirar. Sereno, tomo pé do ponto: menos
uma crônica ruim, não um mundo melhor.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 31 de julho de 2025.