Considerando que a minha patroa acha que
sou um cara inteligente por haver-me casado com ela, tenho este espírito para
entender como é que a realidade manobra no sentido do convencimento que estou
na hora certa, no lugar certo, preparado para fazer a coisa certa, certezas que
não me saem do pensamento nem quando bobeio, duvidando que o discernimento se
deixa manobrar pelo demoniozinho que zanza pela cachola adentro.
Considerando que a minha cachola goza de
mim quando não corro do confronto, enfrento-me, abro a porta, passo à rua, não
recuo quando as pessoas se aproximam, puxam papo, falam do clima, da política,
do preço do café, do último segredo contado só a mim, pois sou confiável, sou
um cara que sinto as coisas antes mesmo que aconteçam, sou um sujeito que
conhece a vida pelo que a vida é, sem discriminações, sem piadinhas maldosas,
sem humilhar até quem mereça ser discriminado, gozado e ofendido, porque
confirmo a inteligência que a minha patroa viu em mim que eu a possuía.
Considerando que o meu caráter obriga-me
a confirmar a honradez que tenho em mim desde que nasci, sempre que vejo alguém
ser dado como idiota, banco o retardado, embaralho o pensamento, digo e nego o
que eu digo, confundo, me confundo, trato de jogar com as palavras, pois muito
me honra fazer de mim esse veículo da solidariedade, uma vez que sou uma pessoa
que se incomoda e age, que não se conforma em testemunhar vexames.
Considerando a retidão do meu caráter,
já que eu não deixo passar barato, cobro respeito a quem não quer respeitar e
exijo que o humilde seja tratado como a pessoa humilde que ela é, mostro que é
importante tratar a pessoa como ela é, sem distorcer a realidade dos fatos,
porque o mundo dá voltas.
Considerando a sabedoria da minha
patroa, trato de arrumar briga com gente arrogante que pensa que é melhor que
todo mundo, se hoje ela se acha a tal porque pode humilhar, amanhã será
humilhada, e terá de sofrer o revide porque a realidade não poupa nem mesmo
quem se acha o tal, ainda que este arrogante invista em contra-atacar.
Aqui uma citação de uma crônica do
António Lobo Antunes diz que isso de “esquecer uma mulher inteligente custa um
número incalculável de mulheres estúpidas”.
Considerando que a cerveja gelada da
noite passada vira o ovo frito do almoço que o salário consegue bancar, peço
respeito, pois a patroa sabe que não sou babaca para não sacar o que se dá com
gente que nem eu, que é a satisfação, pois não cometo a sovinice de privá-la do
cartão para que o sapato combine com a bolsa a ornar com o vestido, todos
novos, novíssimos, lindos, lindíssimos, uma vez que nossa bebê merece que a sua
mãe esteja chique no baile em que a nossa joia rara desabrochará para a cidade,
pois a menina não é mais uma menininha, é pérola cujo brilho mostra o quanto nossa
mocinha deve ser honrada, agora como debustante.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de junho de 2025.