terça-feira, 10 de junho de 2025

O pirralho Manuel

 

O pirralho Manuel

 

Houve um tempo em que o velho tinha apenas cinco anos, era uma infância simples porque as suas vontades eram irrealizáveis.

Não poderia ter um pônei, uma vez que, sem que a gente soubesse os motivos dele atacar, o bicho escoiceava. Ficava proibido de nadar no rio, pois do lado de lá vivia uma gente que vendia carvão de árvore queimada. Também estava impedido de jogar bola, pois a garotada da bola era herdeira de gente que assava carnes, não pizzas.

Pra dor na espinhela, dor nas ancas, dor nos pés, um homem gritou que tinha garrafadas. Com os gritos, aquela revoada de pombos trouxe à lembrança os dias que não ficariam melhores se tirados do passado, porque o esquecido merece permanecer esquecido quando os pombos arrevoam.

O velho estava de costas para a rua, sentado sozinho, bebendo de gole em gole, sem apertar o nariz porque fosse amarga a beberagem; bebericava devagar porque apreciava, que não era nenhuma poção de poderes trágicos, era tão somente um suco.

Mexendo com o canudinho de quando em quando, o velho bebia o suco; sem ninguém nas mesas próximas, não queria papear nem com os retratos na parede do fundo da lanchonete.

Se reconhecesse alguém, também poderia ser reconhecido, porque teve cinco anos, aqueles cinco anos que a revoada dos pombos os fez renascidos.

Se fosse reconhecido, sairia. Pra não negar a dor, pra não sucumbir ao peso da angústia, deixaria de beber aquele suco, sairia. Não fugiria da conta nem do remorso.

Se tivesse pedido leite, sofreria um bocado, só um gole provocaria estrago, o azedaria pelo resto do dia, o perturbaria, não iria se desfazer do pavor, apenas pra senti-lo como um pavor a ser desfeito.

A vizinha nunca soube e por ele, ao menos, nunca haveria de saber que naquele dia, quando ele tinha cinco anos, ela não soube que não foi ele quem arrumou aquilo à porta da cozinha.

A mulher que enfartou ao dar com as três velas acesas nunca soube que tinha sido outro menino, um que gostava de chutar bola.

O mal não se esgota enquanto uma criança gargalha, tampouco se arrefece enquanto ela sorri, porque nem o riso nem a alegria retratam a perversidade de quem pouco se sabe ingênuo, inocente, na meninice dos cinco anos, que gente má também pode ter cinco anos.

A vizinha enfartada não viu as Três Marias, ela viu uma vela preta, uma vermelha e uma branca. Ela não sabia que a morte pudesse ser repentina, abrupta e dolorosa, que o seu peito iria doer de tal modo que o seu olhar quedaria baço e, estranhamente, seus olhos cegariam.

Às vezes, assombra que tudo seja tão súbito.

Como explicar que um menino poderia atentar contra outra criança? Como esquecer que um pirralho de cinco anos acusaria outro menino? Por escafeder-se, perdoaria àquele fedelho?

Aqueloutro não queria a dor, mas agora este Manuel, de costas pros pombos revoando, deseja suco de manga feito com leite.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de junho de 2025.

domingo, 8 de junho de 2025

Benditas águas

 

Benditas águas

 

Gosto de pescar, entretanto há meses não pesco. As circunstâncias da minha vida impedem-me de ir, mas não desanimo, acalento que irei à represa assim que surgir uma brecha. Pescarei sem sentir culpa por postergar o que seja incontornável, porque a cabeça precisa praticar o que ventila o pensamento. Pegarei do tempinho que há de ser pra mim, vou deixá-lo que me fisgue, sentarei na canoa que alugarei, escolherei a isca, verei o anzol afundar no espelho d’água, acharei bom, isso fará bem. À margem das frustrações, sem encasquetar, pescarei enquanto a minha bunda aguentar.

Ora, gostar de pescar não supõe ter tempo para isso.

Tanto falta esse sossego que, entre cafezinhos e becos sem saída, encarando o teto, vem à mente que estou de boné, a garoa não penetra a japona; sem ninguém a ditar o que precisa ser feito, o que tenho que fazer, é boa coisa ficar sozinho na canoa, no meio da represa; cercado de mansidão por todos os lados, sentindo a placidez, não preciso achar que controlo o trabalho dos pulmões; a cada vez que não penso no que sinto por estar no meio da represa, longe dos problemas, estar a tantos quilômetros dos boletos, das filas, do arroz com feijão sem refrigerante, é bom ficar longe do gás do refri; não ter que arrotar o gás é ótimo.

É óbvio que adoro pescar, tanto que não pesco faz um ano, porque o ano passa rápido; esse passou que mal percebi que o arroz e o feijão andaram vindo guarnecidos de repolho cozido, mal reparei na minha impaciência com gente que tem o costume de passar na frente de todo mundo, que este ano acumulado tinha feito bem ao meu sono; dormir bem me faz ir de carro à padaria; ainda que o farol do cruzamento viva quebrado, irei e voltarei sem arranhão algum.

Não preciso me enganar; isso de improvisar, essa sanha de arrumar uma pescaria pra ontem, a promessa que me fiz tem que ser lembrada justamente quando a vontade de respeitar-me é atacada por uma força que conhece os atalhos da minha cachola, mas prometi que iria pescar apenas quando eu não fizesse a pressão subir.

No último domingo do primeiro mês que estava sem pescar, quase quebrei a promessa, quase fui pescar porque todo domingo ia pescar, mas consegui me segurar, tanto foi que enchi a cara.

Veio o segundo mês, quase quebrei a rotina de tomar um porre sem querer tomá-lo, falei asneiras, furei a fila do caixa, comi uma porção de provolone, mal lembrei das pescarias que não fiz.

Dispenso pensar, pego o carro e vou à padaria; dispenso pensar na necessidade de estar perto das pessoas; que tenha gente falando sem parar, nem preciso da tevê ligada; ainda que não haja precisão de estar perto da TV, não me amofina a percepção dos estímulos do momento: recebo os perdigotos e reconheço os borborigmos.

A melhor pescaria que eu não fiz, neste ano, devo-a ao garçom da padaria, cuja neta vai sendo batizada nas águas da represa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de junho de 2025.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Um passeio aleatório

 

Um passeio aleatório

 

A cidade está silenciosa. Desde que acordei, tenho ouvido um carro ou outro passar. Sim, de quando em quando, ouço vozes, vou à janela e vejo um rosto ou outro de gente conhecida.

Faz horas que acordei, mas o estalo só veio agora, pois foi só agora que percebi que o silêncio das ruas não é preocupante.

Não estou preocupado, pois não creio que as pessoas tenham sido abduzidas quando estavam dentro dos seus carros, prontas para pegar a estrada, para irem à praia ou passarem o dia na capital.

Abduções têm espalhafato, há luzes fortes, motores fazem barulhos esquisitos, surgem máquinas que têm formato de charuto, aí desce um raio, então, adeus vaquinhas, tchau tchau menina de maria-chiquinha, até mais ver guarda esbaforido.

Tal espécie de abdução costuma me assustar, obrigando a acordar e correr pro meio da rua, mas não moro no campo, meninas não usam maria-chiquinha nem policial faz ronda sozinho.

Com a realidade vigorando, a rua de casa revela-se esvaziada, sem a azáfama das pessoas que colaboram pra realidade seguir vigorando; mesmo eu, é real que não estou assombrado nem estressado.

Curioso, vou ver na folhinha que dia é hoje, se é uma data especial, mas a terça-feira da folhinha é um dia comum.

Ai caramba, esqueci que hoje o feriado é local.

Quero aproveitar o feriado, vou sair, eu caminharei sem rumo certo, zanzarei ao sabor dos olhos, das pernas, dos ouvidos, porque me darei o prazer de andar sem pressa, de vagar por aí porque me darei tempo, farei com que o dia me seja único, que este dia, sem nada de especial, quero que a mim ele se torne inesquecível.

Daqui a sei lá quantos anos, a memória surpreenderá, me lembrarei que gostei de vivê-lo, tanto que o recordarei, que este dia foi bom.

É feriado, que dia bom para fazer coisa errada. Quando faço coisas erradas, meu bem-estar aumenta. Quando quero aumentar meu apego à vida, menos quero dar ao mundo o espetáculo de sempre.

Sei que é errado agir como se o mundo enxergasse o quanto posso ser extraordinário. Sei que é certo esperar que me tratem como alguém fora dos padrões. Sei, sim, sou uma pessoa sem igual, só preciso que me permitam mostrar como posso ser de verdade.

Feriado existe para que a gente revele o quanto o mundo não nota o quanto é míope, portanto vou à rua, quero me mostrar sem medo.

Me anima querer aproveitar o dia ainda que peçam para descer da mangueira da praça, mas, só depois de ter chupado a manga que me fez subir pelos galhos, eu pulo.

Entusiasmam-me as águas, pulo da ponte, nado, boio, deixo que a correnteza me leve, mas o dono da casa manda que eu saia, que deixe a propriedade, eu aja com respeito, porque as suas filhas não precisam assistir à pessoa nadando como se o rio não estivesse frio o bastante pra fazê-la tiritar, suplicar pelas roupas secas que eu não peço.

Só porque está chovendo, precisa atiçar os cachorros?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de junho de 2025.

terça-feira, 3 de junho de 2025

Conversa ao pé do ouvido

 

Conversa ao pé do ouvido

 

Ontem perdi a hora. Parece que demorei dormir. Deve ser isso, que eu tenha perdido a hora de ir trabalhar porque o sono demorou-se a vir que acabei desistindo da rotina.

Porque ontem foi um dia difícil, pelo tanto de problemas que deixei sem solução, pelo tanto de idiotices que nem escolhi em deixar pra lá, mas fui deixando, fui pedindo que sumissem no ar.

Que o ar sempre vire brisa, não me azougue que nem gotejamento que não para, não passa, uma vez que isso é assim para que a gente enlouqueça ou perca as estribeiras.

Pouco a pouco, gota após gota, sopro a sopro, o ar faz ruídos para camuflar, para que eu perceba mas sinta que me esquivo do percebido, pois tenho a impressão que as gotas têm mensagem.

Não perdi o sono tentando decifrar o que a brisa tentava dizer-me, quis achar o que era preciso pra melhor captar o que o ar da noite dizia; sem que achasse difícil de traduzir, quis organizar o pensamento para achar o que era preciso pra me fazer entendido, até sem palavras.

Eis o ar, as gotas, os caixilhos da janela batendo, o mundo, não há palavras sussurradas vindas de um bicho, que desejo entendê-las.

Não levantei no escuro, inventei que tinha aquele inseto no quarto, que era uma barata roendo a sacola. Inventei que era preciso matá-la, para que a noite não fosse uma noitada de infortúnios.

Bastava que o dia tivesse sido aziago, não queria uma noite de sons bizarros, que acabasse sendo uma travessia cruel, a conduzir à aurora que não chegará do jeito que podia ser, porque, noturna e estranha, a noite que se instalou em mim era o ar, essa brisa era uma barata.

E o dia juntou acontecimentos, os eventos assorearam-me a alma, os fatos teriam de ser pesados, precisavam de mim que os avaliasse, isso para, amanhã, a memória ter apagados os fortuitos.

Hoje eu tinha estabelecido que começaria meu empenho em correr maratonas, mas ontem, por acaso, teve um bicho a roer coisas.

Os meus nervos acharam que era uma barata roendo sacolinha de supermercado, mas não guardo sacolinhas de plástico no quarto.

Se fosse barata, por que não levantei? Se fosse para matar aquela barata, por que deitei de lado, sabendo que teria pesadelos? Se fosse para roer o plástico da sacola, por que não fui às compras? Por que não sou aquela barata que não para de roer mesmo a madrugada estando fria?

Sou uma sacola sendo roída.

Que a brisa seja interrompida. Que a barata fique saciada de tanto morder plástico. Que a brisa leve a sacola, faça-a sumir. Que a aurora venha quando for chegada a hora de vir.

Como não levantei, não vi se havia barata, se havia sacola, se meus pés sentiriam o piso frio do quarto.

Ontem foi um dia estranhíssimo, ciclistas quase me atropelaram na calçada, cães latiram sem que houvesse motivo, o botijão acabou sem que tivesse leite fervido e café passado na hora.

Ainda assim, baratinha, fiz o meu desjejum.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de junho de 2025.


domingo, 1 de junho de 2025

Uma pitada de sal grosso

 

Uma pitada de sal grosso

 

Fazíamos churrasco porque era aniversário do meu pai. Depois de 365 dias, perfazendo quarenta e quatro anos de canastrice na imitação do Sol que tolera que a Terra o circunvague, não se apoquente de sua atuação risível, uma vez que nós prosseguiremos a surpreendê-lo com esses regalos regados a aldrabices, e picanha no alho, pois sabemos quão doloroso é doar-se a nós sem ficar numa nota dó, sim, apraz-nos o senhor produzir as quatro estações a nos unir no seu derredor.

Sem que ninguém tivesse pedido, e como costumo ficar perdido em reuniões festivas, fui ficar na frente de casa, recebendo os convidados, que, em sua maioria, eram parentes, e os nossos, ainda bem, não dão pelota pras minhas melancolias de rapazola mimadinho.

Gente de certa idade, embora (eles) sem entradas na testa e (elas) com madeixas rubras, os familiares não tinham frescurites. Chegavam fazendo fuzuê, falavam alto seus braços serelepes. Podiam ter vindo loucos pra tirar a latinha da minha mão sem fazer cafuné, ou seja, fiquei abrindo latinha a cada vez que vinha biruta bagunçar meu topete.

Tendo ânimo que faça ferver o sangue, ou Freud saque explicação menos determinista, só sei que os meus tios são de chegar cedo, algo típico do meu pai, a quem muito importa que seja para bater ponto na repartição ou pra papear no botequim, ele normalmente chega minutos antes de qualquer que queira ser a primeiríssima pessoa a se alvoroçar da chegada.

Normalíssimo era liberar a entrada a quem supostamente conhecia alguém da família, pois fora convidado por papai ou pela mamãe, fosse colega de firma, morador da nossa rua ou tivesse se lembrado da data, eu não ficaria chateado caso algum penetra cometesse a barbaridade de tomar um dedinho do Royal Salute do meu pai, ainda que a garrafa estivesse oculta, protegida por Jack Daniels, Chivas e Buchanan’s.

Apareceu esse cometa. Chegou sorridente. Abraçou-me sem pegar a minha latinha. Falou da semana puxada, disse que não desceria aos detalhes porque eram maçantes. Mas o chefe soube resolver tudo, não seria líder se não topasse ajeitar tudo. Foi entrando porque teria de dar aquele abraço apertado em quem sempre dá cabo das encrencas sem provocar encrenca, outra maior. Que eu lhe desse licença, que iria logo abraçar o seu camarada.

Lhe dei licença por óbvio; e eu dá-la-ia ainda agora, mesmo depois da performance meteórica.

A pessoa foi de roda em roda. Comeu um espeto de coraçãozinho. Bateu foto para minha tia com máquina das antigas. Bebia um gole de cerveja para abandoná-la em seguida. Sem parar de sorrir, escutava o que era assunto nas rodas. Era mesmo uma simpatia.

Ninguém a botaria para fora ainda que tivesse colocado sal grosso no pãozinho sem linguiça, que foi pra se livrar do olho gordo que sentia desalinhar as tripas, mas, de fato, ela não pôde segurá-las.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de junho de 2025.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Inimigo secreto

 

Inimigo secreto

 

Juro por deus que não é mentira, juro que não vou inventar alguma lambança, juro que não quero desviar o foco, porque a vida é sonho e não preciso forçar a barra para acordar, nem mesmo acordarei quem não tem pesadelo do qual precise ser despertado.

Se eu pretendesse desviar a atenção da minha vida prosaica, reles e enfadonha, poderia mostrar o quanto me falta imaginação, ainda que suponha estar dando conta, eu erro feio na autoavaliação.

Eu poderia dizer que Flamarion e Arinelson são irmãos, e primos de Asclépio, diria também que Atanagildo e Claudiomiro são amigos, sem parentesco com Mariazinha, que entrou na história porque emprestou quatrocentos reais pro Arinelson, que foi roubado pelo caolho chamado Francinildo, que por sua vez foi roubado por um rapaz que passava de bicicleta e foi-se embora levando a grana que seria usada por Arinelson pra quitar a dívida que tem com Claudiomiro, que tinha dito ao devedor que a dívida tinha que ser paga antes do dia cinco porque o pagamento da dívida estava atrasado e quem virá resolver a questão (do jeito que tiver de ser) será um sujeito ruim como o diabo, chamado Francinildo, que, enquanto mina a resistência da gente dando socos no abdômen, sabe fumar o seu cigarrinho sem jogar a fumaça na fuça de quem ele precisa socar no abdômen.

Até agora, fizemos bem em deixar Asclépio de fora desse imbróglio, pois há décadas não se tem notícia desse primo do Arinelson, embora tenha gente que diga que ele vive em Minas, nalguma vila, num rincão que fica perto de Mariana, mas não damos como precisa a informação, embora vinda de terceiros que gostam de galinha à cabidela.

Aceitamos a verdade que uma fofoca finge não trazer na superfície, como não torço pescoços nem coleto sangue, conto o que sei sobre o que vou contando, conto o que acredito saber sobre o que acho que estou contando, posso agir como um terceiro nesse causo em que não entram Flamarions, Arinelsons, Atanagildos, Claudiomiros e Mariinhas, permitindo a entrada do Francinildo, pois a sua presença dá essa paúra de questionar se conseguirei aflorar em mim o astucioso, esse farsante que mostra a cara quando estou boquiaberto, certo de que não saberei trazer à tona o que minha cara sonha que eu não veja, eu não perceba e não sinta que as identifico, essa paúra e essa cara de cobarde, pois, ao identificar-me com esse sujeito no espelho, então, sou esse crápula, viro esse Francinildo avexado de ver-se em mim.

De soslaio, dou uma olhadinha. Olho fingindo que não quero olhar, espio. Dou outra espiada, apenas pra me certificar do que vejo, apenas pelo desejo de ver-me, embora eu tenha vergonha, tenha medo.

Posto ser desagradável haver-me caviloso, o que preciso fazer para não me estarrecer é raspar a cabeça.

Pro espelho não criar desdita alguma, caracoles!, vou comprar um aparelho de barbear.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de maio de 2025.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Os seis desejos do mundo

 

Os seis desejos do mundo

 

Quando o mundo quer ver-me irritado, basta que dispare o alarme do carro que, pela altura e pela proximidade, só tem que ser do vizinho; ele segue disparado, tocando por cinco minutos, parando outros cinco e voltando a tocar por cinco minutos; é sério que seja uma provocação, isso de tocar, parar e voltar a tocar, assim por diante; então eu levanto, vou à janela, grito que o vizinho venha dar jeito naquilo; então eu grito, chamo o vizinho, ele vem ao carro, tenta desligar o alarme, mas minha irritação avança; chamo-lhe parvo, enfatizo que se quer um parvo, mas é minha a parvoíce, pois o carro de alarme fanfarrão é meu.

Quando o mundo quer o meu vizinho contra mim, só preciso ser eu mesmo, mas na versão endiabrada; daí emendo uma mentira na outra, retomo, altero, cismo dos detalhes, brinco com o que havia contado; o que meu cérebro percebe é o que corrijo, porém falar, desdizer, falar e desdizer, tal método, cuja finalidade é o convencimento de que eu falo a verdade, acaba irritando o vizinho; porque a bicicleta não foi roubada, eu a peguei porque tinha pressa de ir e voltar da farmácia, mas a minha dor de cabeça tinha solução fácil que bastava eu fosse rápido, portanto achei melhor não falar nada; fui e voltei da padaria para ganhar tempo, para não injuriar o vizinho, dono da bicicleta, pai da menina que usa a bicicleta, pois eu não tinha a intenção de puxar briga; eu queria apenas comer um pãozinho com peito de peru.

Quando o mundo quer que me iluda, toco a campainha do vizinho, soco a porta; bebo da latinha, torno a tocar a campainha, bato na porta com a mão espalmada; sei que a campainha não está alta o suficiente, esmurro a porta; tem gente em casa; está com vergonha de vir à porta depois de eu ter apertado a campainha o suficiente pra que saia e deixe que pegue emprestado seu cachorro, pois o pitbull impõe respeito, não fica atrás de pastor, e o novo vizinho vai ter que correr pra dentro.

Quando o mundo quer compensar-me, no meu caminho aparece a pedra, nela não darei uma bicuda; não testarei o dedão e não quebrarei o para-brisa do carro do vizinho que acabou de mudar-se; não estarei possesso o bastante pra furar pneu de carro recém-chegado; sei o que é preciso para que seja mantida a ordem na vizinhança.

Quando o mundo me quer um palhaço, aparece um cachorro com segundas intenções; aproveito o sinal vermelho e corro, mas olho para trás, me desequilibro e caio; já não há cão e já não quero voltar, porque enfrentei o medo de ser mordido pelo chihuahua; me levanto, mostro o dedo do meio aos motoristas que buzinam, buzinam, buzinam, porque não tenho medo de manter firme o meu dedo do meio.

Quando o mundo quer que eu erga um muro que me esconda, deito na rede, bebo guaraná, como pipoca e espero que o mundo passe; que ele há de passar, e não assobiarei; serei respeitoso, mesmo que passe a caminho do lar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de maio de 2025.

domingo, 25 de maio de 2025

Bololô sentimental

 

Bololô sentimental

 

De chofre, ao ser convidado, aceitei tomar café. Uma vez que gosto de mantê-la entre as pessoas amigas, entre aquelas a que não resisto em tratá-las bem, pois, sim, irei à casa de Dona Cremilda, mas eu não a tratarei a pão de ló, desfrutaremos de um bolo de cenoura.

Ainda que o mundo siga sendo esse reino atulhado de reis, fortaleza com mil crocodilos no fosso, siga erigindo-se em alcova com segredos retidos pelo selo dos cem anos, pois, sim, lá eu irei despido da empáfia, do anseio de exibir-me galante, não irei dado a censuras nem movido a injúrias de salão.

Farto das astúcias e por sabe aonde vou, irei leve, sem pretensões de equacionar os dilemas do mundo, porque não irei ao mundo, estarei à mesa posta por esta minha amiga dileta.

Por não ir ao mundo como se estivesse pronto para as batalhas em que sempre sou derrotado, já que ignoro de quais armas não disponho e de que jeito manejar apropriadamente as que possuo, irei desarmado ter com Dona Cremilda.

Primeiro, irei sentar-me sem focar em sentir-me bem apesar do que seja, ou porque precisarei recusar os biscoitos por causa dos açúcares adicionados ou por conta da acidez da crítica aos balões de ensaio da trupe econômica de Brasília.

Segundo, quero agir com a naturalidade da pessoa amiga que não se acha eleita a desempenhar o papel de pessoa amiga, uma vez que sei ser o amigo que não diz apenas o que se espera que diga o amigo, direi o que penso, reafirmarei minhas opiniões e serei amigável mesmo ao me contrapor àquilo que soe ofensivo.

No sábado, que é o dia para o qual estou convidado a ir, prometo a mim mesmo que acordarei bem, tomarei banho sem reclamar do vento, beberei café sem um dedo de açúcar, comerei pão sem manteiga, farei o que posso pra me manter tranquilo, lógico e simpático, farei com que tudo contribua para o meu melhor estado de espírito, porque serei essa pessoa a estar bem consigo.

Ainda que seja sábado, dia em que escolheria nem pôr o nariz fora de casa pelo tanto de tarefas que adiei durante a semana, farei de mim essa pessoa a confrontar-se, pelo convite.

Não esconderei e não pretenderei esconder que, saciado de bolo e satisfeito por divertir-me o papo furado, tenho esse efeito colateral: não evito me revelar que sou um camarada sentimental.

Comover-me-á ter a boca livre dos farelos. Os pelos da nuca ficarão eriçados assim que reconheça um abraço sem malícia. Sem vergonha alguma, darei beijinhos e vou, mesmo, querer selinhos.

Certo de que as pessoas não se apresentarão como sincronizadas ao que vigora, terei o bom senso de comer bolo sem pôr os cotovelos na mesa, beberei suco de maracujá com as colheres de açúcar que o adocem e, ainda que nem saiba o que a maioria pensa, falarei a favor do que esteja posto em discussão, entrarei de cabeça no bololô.

Emocionado com esse sábado vindo, adiantarei minha decisão de que vou.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de maio de 2025.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Soberba humildade

 

Soberba humildade

 

Era no tempo do rei; na corte, entre damas e cavalheiros, vivia uma pessoa a quem lhe destinaram o poder de falar sem medo; a ninguém, todavia, ocorreu que à pessoa autorizada a falar sem medo ocorresse de ter medo de não ter nada para falar ou, pior, falar besteira.

Houve esse dia, constrangedor, de olhar sem ter palavras pra dizer o que fervilhava na alma, com as formigas da aflição devorando esse cadáver, a sua sombra, pois ela, neste instante revelador, tão somente fazia sombra de si.

O rei, a rainha, o príncipe, os cortesãos, os alcoviteiros, as amantes, os amantes, os palpiteiros, eles todos pegaram temer essa pessoa que podia tagarelar, temeram-na porque deu de não refutar à vontade nem mesmo os elogios que iam sendo ditos, espalhados e confirmados pelo silêncio, com esse viés perturbador.

Como era previsível, a pessoa que tinha o poder de falar sem papas na língua começou a ler longe dos outros, pegou gosto de passar horas lendo onde as gentes sequer a imaginavam estar.

Por óbvio, logo que houve a confirmação de que não era boato, que realmente a pessoa que poderia falar o que bem quisesse encontrava-se neste estágio de isolamento, foram à biblioteca, ela não estava, no telhado, também não, no jardim, nem um fio de cabelo foi encontrado, no caramanchão a quatro passos do riachinho, necas.

Para abreviar o suspense, o príncipe intuiu que a pessoa que podia falar o que quisesse bem que podia estar largadona na sua cama.

O rei, a rainha e o pajem que torcia para o príncipe nunquinha virar rei bateram à porta de onde se julgava estivesse quem que se revelava ser a pessoa mais bem preparada do reino para esconder-se de bocas e olhares da referida matilha. Quem podia falar como bem achasse ser o seu dever de falar, contudo, não estava no seu quarto.

Sem detença, o rei, a rainha e o pajem do príncipe foram ao jardim pedir esclarecimentos ao rapaz que nunquinha haveria de sentar-se no trono do pai.

Fora do labirinto, deram com o herdeiro e um rapazote, cujos braços doíam pelo tanto de pratos que houvera arremessado ao alto.

O filho estava chumbadinho, pois, a cada vez que um tiro resultava certeiro, ele celebrava com bicadinhas na birita.

― Príncipe, a pessoa que tem o direito e o dever de dizer a verdade não estava no seu quarto, sendo falsa a afirmação de vossa graça.

Bastante alegrinho pra não ter medo do pai, da mãe e da patota que tanto o estimava quando sóbrio, plácido e faceiro, o principezinho riu-se do equívoco, porque a pessoa que possuía o direito de ler onde bem quisesse estava no seu quarto, dele, do flagelo dos pratos.

Bateram na porta do príncipe, mas bateram em vão.

O rei ordenou que abrissem a porta.

Aberta a porta, viu-se que a pessoa que devia falar a verdade, nada mais que a verdade usava luvas de tricô.

Resgatada do silêncio, disse:

“Será possível que a gente nem pode ler?”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de maio de 2025.


terça-feira, 20 de maio de 2025

Asas de açúcar

 

Asas de açúcar

 

Conversam sobre viagens ― fulano diz que prefere alugar carro pra fazer como bem entende o roteiro planejado; para conhecê-lo o mais que possa, beltrano viaja pelo Brasil; já sicrano saiu-se com essa:

― Uma vez fui a Salvador, mas eu não tive nenhum medo de andar de alemão.

Por ser pessoa retraída, sequer cogitou a retratação.

Se soubesse a que o levaria aquela fleuma, provavelmente teria ido à lanchonete descalço, teria parado para pensar, pensaria nos efeitos, teria recolocado o tênis, teria tirado as meias encharcadas, teria ficado na lanchonete, teria evitado zanzar na chuva, na calçada, teria evitado pisar nas poças, evitaria chapinhar as poças da calçada.

Se soubesse que o tomariam por abobado, certamente teria ficado em casa, o contentaria ver tevê, em ler as últimas postagens, em curtir as fotografias daquela gente que viraliza sorrisos.

Ao se sentir ansioso, deriva por escassa sensatez.

Se contasse que a chuva faz tossir, já que chovendo o frio aumenta, teria vestido uma blusa, teria vindo de botas, teria saído a fim de achar umas galochas, teria entrado nas lojas, até que achasse aquelas botas de pescador, um macacão que suba aos sovacos.

Se ligasse pro frio, não ficaria de meias molhadas, tiraria as meias, não ficaria zanzando em frente da lanchonete, indo à esquina, não iria de novo à esquina, até calçaria os tênis, mas eles sumiram, não estão mais onde estavam, que estavam debaixo da mesa.

Mas não quer sair para comprar outro par.

Se soubesse que é pouco usual roubar de volta o que lhe pertence, não teria comido aquela porção de fritas, teria tomado quatro latinhas a menos de guaraná, teria grana para resgatar o tênis, teria falado pro ladrão que compraria de volta o par que surrupiara.

Se fosse menos fracote, apanharia menos, teria a coragem que lhe falta, impressionaria quem tenha afanado o tênis, teria impressionado quem sabe ser truculento, saberia ser valentão, teria vencido sem nem mostrar muque, cara de mau, o sorrisinho do diabo.

Mas chovia, fazia frio, as meias estavam frias, molhadas, precisava comprar outras meias ou outro tênis, não a sombrinha do Pateta.

Se ficasse bravo quando o chamam de idiota, pensaria em sair atrás do chapeuzinho com hélice no cocuruto, teria ido atrás do chapeuzinho da hélice que roda quando venta, provavelmente teria parado de fazer bola de chiclete nem ficaria estourando tais bolas.

Se pensasse que o melhor pra si era ter ficado vendo tevê, teria ido descalço à lanchonete, exibiria as unhas, todo mundo teria sabido que precisava cortar as unhas, principalmente mostraria a nova tatuagem que tem no pé, porque o tempo é tripartite, a tatuagem tem gaivota pro passado, pro presente e para o passado que virá.

Mas as meias ensopadas diminuem o atrito, tanto o diminuem que, patinando até cair, ele voa baixo na lanchonete.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de maio de 2025.

domingo, 18 de maio de 2025

Aftas ardem

 

Aftas ardem

 

A pessoa parada na esquina; desfaça-se a ilusão, uma vez que não está parada, embora esteja imóvel, seu olhar não é de peixe morto, é de gente que luta para manter-se lúcida, lucidamente observadora do movimento de automóveis, ciclistas e cães.

Assim a vida vai, assim a vida vem, assim a vida vê a pessoa.

Paralisada por estar estupefata pela compreensão de que o vaivém da vida não está particularmente influenciado por enxergá-la, a pessoa na esquina espera que venham aborrecê-la, conta que não a ignorem, espera que ofereçam meia dúzia de balas por dois reais, conta que não venham pedir trocado quando for espirrar.

Tivesse espirrado, viriam vender balas, correriam pedir informação, qualquer informação, até onde fica a farmácia mais próxima, onde fica a loja de brinquedos pedagógicos, para que lado fica a praça da matriz, a lotérica, a revendedora do milhão, do baú, da bet dos bilionários.

Houvesse espirrado, seria pessoa a não fazer charminho, querendo viralizar o quão milionária será, porquanto espere, espere, espere que o vaivém da vida seja mais que automóveis, ciclistas e cães.

Assim a vida vem, assim a vida vai, assim a pessoa que espere.

A pessoa esperando na esquina sonha que não cochila nem dorme, ela quer renascer, sonha em reconstruir-se outra, quer-se reconstruída rica, famosa, tornada uma celebridade por muitos reconhecida.

Atchim!

Espirra para que acorram, espirra para que os cães ladrem, espirra para que ofereçam a salvação, repousem a bíblia debaixo da palma da mão, espirra que espirra, certa que saberão julgá-la pelo pensamento de tornar-se o boneco que dará voz ao sonho de ser transformada, que lhe tragam bolo, roupinhas, cantem-lhe os parabéns pela pele made in Confúcio, estupidamente realista.

À pessoa revestida não esteja dispensada de ideia puxando outra, até que o engano fique invisível, que nem cicatriz bem costurada.

De engano em engano, ainda que espirre para provocar os cães, a pessoa acordada, em pé na esquina, tem memória, até memórias que lhe são estranhas, mal cicatrizadas, pústulas latejantes.

Apesar do Eclesiastes, a pessoa sabe que o instante de apostar e o instante de chorar hão de cobrar-lhe que aposte mais, chore mais e que tudo mais vá pro beleléu.

Depois de tantas manhãs perdidas, numa bela tarde de outono, isso depois da pandemia, decidiu-se a pessoa que largaria a bebida.

Tomada a decisão, resiste, bebe dos sonhos, sobrevive aos sonhos ruins, mantém a palavra, prefere sonhar na esquina, segue bebendo a cervejinha que a vida sonha que ela não bebe.

O sujeito aparece, quer que experimente uma fatia, diz que abacaxi não dá afta, insiste que morda, insiste que coma, mas o sonho menos perturbador é ir-se embora.

Quando lhe der essa vontade de mijar, não aposte contra si.

Inconsequente sonâmbulo, urine na canela desse cão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de maio de 2025.