Não queria madrugar, mas madrugou. Mais
uma mentira que conta sem ruborizar, contada a si mesmo. Queria tanto madrugar,
e virou de lado, e dormiu até dez pras dez. Queria madrugar, precisava, não para
ouvir o galo cantar porque vive num bairro sem galos, poleiros e ovos colhidos
no ninho, e os bichos que vê nas ruas e em colo de madame são cães;
eventualmente, passam burrico ou pangaré.
Precisava acordar cedo, com o raiar do
sol, mas o medo de perder a hora o fez dormir mal. Por haver dormido mal, virou
que nem viu. Não escolheu dormir até não mais poder, mas ficou até dez e dez.
Quando dorme além da conta, ainda que
não tenha compromissos, levanta com dor de cabeça, pigarro e vontade danada de
urinar, o que o atira em direção ao vaso.
Nada disso!
Puxou o livro que, ao deitar-se, pôs na
cômoda; rasgou o plástico; cheirou-o; ajeitou o travesseiro às costas e, na
página aberta ao acaso, foi apanhado pelo trecho em que bateram os seus olhos:
“Lia ora num ônibus apinhado, ora num banco da praça da República, ou em pé nas
intermináveis filas paulistas; e nesses momentos me ilhava de tudo, com esse
consolo, essa alegria”.
Voltou uma página, a crônica era O
Poder do Braga.
Este texto está no livro A Intensa
Palavra, uma seleta de crônicas inéditas que foram publicadas, entre 1954 e
1969, no jornal Correio da Manhã, cujo autor é Carlos Drummond de Andrade.
As citadas aspas são de leitora anônima,
cuja intenção fulcral ao enviar a carta era agradecer o cronista pela ‘terapêutica
infalível’ que as suas palavras provocavam. Embora agradecida, ela, grave e
terna, segundo Drummond, perguntou ao Braga:
“Você ao menos calcula o poder que tem?”
Queria paz, mas, no café, afloraram
outras questões.
O que faz uma pessoa ter poder? O que é
preciso fazer pra ser vista como pessoa poderosa?
Queria ter saído da cama às cinco e
meia, tomaria banho, café e o ônibus como quem dorme bem, acorda bem e repete
que, mesmo sem ver a quem, aprecia fazer apenas o bem.
Queria descer antes, passaria na feira, comeria
pastel, tomaria refri e só depois iria sentar-se à mesa, checaria números, fecharia
planilhas e largaria aquele trabalho às cinco.
Mas esqueceu que tinha de descer antes
do banco, tinha que retirar dinheiro no caixa eletrônico, tinha de parar de
pensar no poder que não tinha, mas esqueceu que era gente que bate o ponto,
responde a quem a chefia e vai usando cartão até que o saldo fique negativo, os
juros do especial abocanhem um naco do salário do próximo mês e, já que tem imaginação,
a bola de neve atropele ladeira abaixo.
Queria dormir mais um pouco, questionou-se
de pronto: quem bebe sozinho acarreta que seja pessoa à espera de que possa lamentar-se
de que beba sozinha antes do almoço?
Despertou-se.
Não vai entregar currículo, entrega
marmitex. Para trocar a magrela por moto, vai precisar do crédito.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de janeiro de 2025.