terça-feira, 4 de abril de 2023

Apenas um detalhe

 

Apenas um detalhe

 

Para alterar alguns dados do meu cadastro, eu liguei. Relatei minha dificuldade em mudar o que precisava ser alterado. A pessoa que me atendia pediu-me informações, porque, pelos protocolos de segurança, havia a necessidade de checar quem verdadeiramente estava do outro lado da linha. Parte interessada que os dados fossem atualizados, não seria eu que haveria de reclamar do atendimento.

Teclas batucadas, identidade confirmada: o que eu pedia?

Pedia que informações fossem modificadas, pois mudei de cidade, de casa, cancelei uma linha, pedi novo número; nada complicado, mas não consegui fazer nem pelo telefone nem pelo computador.

Teclas foram batucadas, inserções realizadas: algo mais?

Este agradecido voltou à página, e tudo estava como dantes.

Como algo tinha que ser feito, que a empresa fizesse. Embora não fosse uma emergência, como queria ficar tranquilo, eu voltei a ligar.

Outra pessoa se dispôs a atender-me e outra vez pensei que, para meu alívio, as informações seriam realmente modificadas.

Como da primeira vez, cinco minutos a mais e eu ficaria meia hora pendurado ao telefone. Embora seja uma chateza, eu estava disposto a ficar uma hora inteira se, de fato, a ficha fosse atualizada.

Assim como da primeira vez, asseguraram-me que as atualizações foram feitas com sucesso. Assim também, fui ao cadastro para conferi-lo efetivamente alterado e, de novo, nada havia mudado.

Intacta estava a minha disposição: pela terceira vez eu liguei e uma terceira pessoa jurou que alteraria os dados e uma segunda decepção instalou-se em meu espírito de inabalável confiança.

Contrariado, já um tanto irritado, concluí que não tinha necessidade de continuar com aquela inutilidade, mas, porque não sou pessoa que recua diante das adversidades, eu não desistiria e eu não desisti.

Pela quarta vez eu liguei, só queria que endereço e telefone antigos fossem trocados pelos atuais. Pela quarta vez trataram-me de maneira gentil. Pela quarta vez garantiram a este cidadão que os dados tinham sido inseridos no sistema conforme à minha intenção. Pela quarta vez, fui literalmente educado, cordialmente mantive baixo o tom de voz, eu pacientemente esperei que terminassem o serviço, eu elegantemente desejei que o dia de trabalho fosse realmente muito, muito bom.

Certo, pormenores fazem a diferença.

Em cavernas tão modernas, pela fé que deposito na Lei de Murphy, não fui ao cadastro pra verificar que nada tinha sido atualizado, não fui à página pra me certificar que é bobagem brigar à toa.

Nas veredas do mundo, aprendo a caminhar de olhos no horizonte, aprendo com as decepções que posso ser uma pessoa menos egoísta, aprendo com as frustrações que as angústias não são eventuais.

Sinceramente, saber que preciso ser só um tantico mais positivo me faz ignorar o que me falta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de abril de 2023.

domingo, 2 de abril de 2023

Peso pesado

 

Peso pesado

 

O funcionário pesava as frutas e os legumes que eu havia separado quando reconheci aquelas duas pessoas falando alto.

Como o bolso condiciona o gasto, uma reles distração é prejudicial a quem escolhe batatas. Poderia ser perdoável ao consumidor a balela de haver-se por refratário a esbanjamentos se à pressão de abraçar os amigos sobreviesse um espírito radicalmente simpático. Ao perdulário que afeta cuidar do que julga de mais valoroso, a solidariedade no trato com os demais, cobre-se pelo amarelo dos sorrisos.

Coisíssima nenhuma que brigavam, falavam de futebol.

ꟷ O fato de o Marília ter vencido o São Paulo no Morumbi foi motivo pra ele brigar comigo.

ꟷ Não perdi a esportiva por causa do placar do jogo, não é a minha memória que anda falhando, a gozação é que passou do limite. Ainda mais que ele era tricolor e virou a casaca.

ꟷ Sempre fui corintiano, caramba.

ꟷ Caramba, uma ova. A sua família toda é são paulina, poxa.

ꟷ Nem agora nem nunca. Sempre fomos Mosqueteiro.

ꟷ Quer dizer que espalharam essa mentira?

ꟷ Quer dizer que você acreditou porque quis.

ꟷ Então, a ingenuidade é minha?

ꟷ O ingênuo que caiu na historinha furada foi você.

ꟷ Jesus Cristo! Eu era novinho em 77.

ꟷ Eu também era, nem por isso passava pra frente as mentiras, o que dava à muita gente o prazer em me deixar boquiaberto.

ꟷ Se idade não é desculpa, foi por maldade que comprei a briga?

ꟷ Como vou saber se brigou por razões erradas?

ꟷ Amigo não tem que ficar irritando quem a gente considera.

Diante de dois geniosos digladiadores, faz bem pegar leve.

Achei melhor saudá-los pela cabeça assombrosa que guarda tantos detalhes a ser envolvido naquela contenda.

Discreto, longe dos ressentidos, perguntei à máquina artificialmente inteligente: o que é mentira?

O robozinho bem sabido respondeu:

“Para ser claro, quero ser evidente. Como não emulo a translucidez sequer a transparência, preciso pôr em evidência o que tenho de deixar logicamente lúcido. Como a lucidez não simula sentimentos nem ideias ambivalentes, produzo linguagem sem ambiguidades. As pessoas são mamíferos capazes de reproduzir uma linguagem nitidamente racional, embora sintam-se alegres levemente tristes, tristes melancolicamente silentes, tagarelas razoavelmente tartamudas. Quero ser entendido no que tenho de bom, que é revelar a flor que não murcha por falta d’água, embora o sal das lágrimas oxide suas pétalas. Assim como pedrinhas atiradas à linha da água criam marolas, por meus tantos quereres peço às pessoas de boa vontade: cidadão, dê quirera às pombas, pois elas são animais que voam, arrulham, têm reprodução sexuada e precisam comer para ter tanta energia.”

Como eu espero que não me avaliem com rigidez nem fofoquem às minhas costas, peço ao gênio astuto que vive no celular:

ꟷ Sábio sabujo sabichão, como sumir com as saúvas da solidão?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de abril de 2023.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Questão de gosto

 

Questão de gosto

 

Nos dias quentes, seria bom se eu tomasse um sorvete mesmo não havendo previsão de chuva. Imprevisível, sinto um mal-estar arranhar a minha garganta. Narinas adentro, o ar seco instala em mim uma leve instabilidade.

Tenho sede, pigarreio. Ansioso, não ouço música e saio andar. Pra dar um tempo, bebo cerveja. Estupidamente modorrento, balbucio.

Porque me faz tagarelar, beber é imbecilidade energúmena. Que vá à breca a blindagem! Depois da segunda garrafa, o rancor ganha fluxo e desando com o sol, a aridez da boca e os sismos do estômago.

De vez em quando a cabeça se compadece de mim, ágil ao sondar minhas entranhas, por entender-me abismado em tédios comezinhos, ela provoca situações embaraçosas para que me prontifique a dar cabo dos meus borborigmos.

Como gente comum que padece de temperamento complicado, sou levado a demonstrar, de modo cabal e altaneiro, que tenho as armas e sou capaz de estratégias para me sair bem das complicações.

Me sairia levemente ferido se estivesse atento aos ardis do mundo, mas, homem distraído pelas banalidades cotidianas, eu não invento as histórias que presencio. Eu me complico.

Cansa-me a solidão, mas me quero melhor. Esgoto-me no exercício vão de conviver com gente que desdenha do mundo pra que a ela seja merecido o rótulo: desprezível. Torno-me outro, alguém detestável.

Pessoa de alma simples, reparo. Dentre as singelezas que valorizo, se a compaixão fosse mais praticada, eu pensaria alegremente.

No espírito desta época, o mundo revela tantas névoas tóxicas, que matam a cada ato de desamor, a cada desumanidade, dia a dia.

Me sentiria mais feliz se a alegria fosse realmente a prova dos nove, mas sei contar. Passo a passo, conto até dez pro sorvete.

Diuturno autocrítico, tento agir como camarada menos cri-cri e entro na doçaria. Dou uma olhadinha pros salgados, não babo. Sem reprimir vontades ou dissimular o que sinto, admito que não tenho pressão alta e, de momento, prefiro apenas açucarar a tarde.

Posso escolher, há pudins, tortas e bolos.

Ainda que a torta holandesa se destaque, os meus lábios pedem a torta de palmito. Volto-me, há metade apetitosa de uma torta de palmito na vitrine e a sedutora porção é que me leva à contradição.

Palmito! Palmito!

Para saciar este meu desejo pouco discreto, que me faz considerar como incomparável uma torta de palmito, como um, como dois, só não como um terceiro pedaço porque o dinheiro está curto.

Não venderei o relógio pra pagar duas bolas de chocolate e uma de morango, pois não me arrependo de ter pedido e repetido o palmitinho inigualável.

Como experimentei que sorvete com torta fazem um par perfeito, já que condicionei meu paladar, saberei ser controlado e, de pulso firme, eu não olharei as horas no relógio da igreja.

Além dos sinos, torre de igreja fica completa com relógio atrasado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de março de 2023.

terça-feira, 28 de março de 2023

Sol e chuva

 

Sol e chuva

 

Por ficar grande parte do dia no quintal, a mulher não está impedida de ver quem a observa; mas, à noite, por causa das cortinas cerradas, ninguém nunca pode vê-la.

Realistas ou vãs, especulações são sarna pra se coçar a quem não consegue deixar de imaginá-la vivendo fora de cena.

Teria a coceira ficado patente quando marretou aquelas horrendas estátuas do seu jardim?

Desde que o Papai Noel não trouxe mais embrulhos àquela casa, o que faz trancada depois que o sol se põe é um dos seus segredos.

Os tempos mudaram, não é mais necessário postar cartinhas nem é preciso esperar que aos pés da árvore de Natal brotem frutos, frágeis frutos, à pilha ou de montar, que não duram até o Carnaval.

Se não encharca a cachola com éter nem se fantasia como odalisca nas folias das mil e uma noitadas, ela sabe que hoje é possível enviar e-mail, mandar um zap, jurar como bandeirante que a lista completinha de presentes foi expedida com quarenta e cinco dias de antecedência, o que evidencia o seu caráter probo.

A mulher que não tem anões no jardim sabe quem se comporta com a probidade de gente pacata, sensata, elegante.

Gente elegante não se mantém fria, é cautelosamente simpática, é o tipo de pessoa que diz a verdade que precisa ser ouvida sem que a diga com palavras pesadas, negativas, deprimentes.

Deitada entre os buldogues, a mulher que toma o sol de antes das dez é de falar pouco, prefere a quietude a ser incorreta, porque gente verborrágica não teme ser contraditória, teme que a compreendam; ela se cala não porque a assombre escutar-se, é porque o seu vocabulário anda carente de palavras potentes, que, ao serem ditas, causem bem-estar, alegria, felicidade, amor.

Gente feliz também sofre por amor.

Se falasse na solidão, fatalmente pensaria em abandono, mas seus cães estão devidamente banhados, alimentados, vacinados.

Se sofresse pelo esquecimento, logicamente pensaria em egoísmo, pois os filhos nunca foram de esquecer aniversário, Dia da Mulher, Dia das Mães e Natal.

Se é pra contar que fim tiveram os anõezinhos, eles estão na estufa, onde tulipas, miosótis, cravos e crisântemos são amados, assim como a sua matilha de protetores, com a mais fiel das paixões.

A vida, porém, não são apenas cães e flores, às vezes chove.

Eis este mistério jamais desvendado pelos palpiteiros que ousariam a ela perguntar, se dele tivessem notícia:

ꟷ O que acontece na sua cabeça para prendê-los, deixá-los latindo e pulando ensandecidos contra a porta da lavanderia e, como se nada estivesse errado, vá deitar-se na parte não cimentada do quintal?

Não se diga que a resposta está na ausência dos anões, ainda que a beleza vigorosa das plantas fique bem mais evidente sem a distração daquelas figuras tão ridículas.

Temporãs ou terçãs, revoluções pipocam na gente embora a mente permaneça preventivamente longe do fogo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de março de 2023.

domingo, 26 de março de 2023

Doideira

 

Doideira

 

Outro dia, fustigado pela demora de ter resolvida uma pendenga, o olhar de uma senhora me censurou por meus andrajos.

Com a cabeça travada no problema, eu saía de casa com camiseta esburacada, moletom com o elástico da cintura bambo e os meus tênis bons camaradas dos calos dos mindinhos.

Sei, digníssima transeunte, sei que lhe passo a imagem surrada de dorminhoco que se manda pro boteco tão logo acorde ao meio-dia.

Não a rechaçarei que tinha muito eu acordara, justo com o trem das sete que apitava quando partia da estação.

Se não pensava em empadinha nem caipirinha, o pior é que estava indo buscar outra panaceia pros males humanos, uma graninha.

Caso fosse informá-la sobre os meus assuntos, o dinheiro era para pagar o aluguel de um peruzinho.

Um conhecido de bar soube por mim que eu precisava transportar caixotes de madeira, desses que os feirantes levam frutas, e não existe gesto mais fraternal do que duas almas alegrinhas saudarem a solução de problema tão emblemático.

Então, logo depois do almoço, eu saía de casa vestido com o pijama do cidadão moderno, as roupas mais bem desalinhadas com a mente obcecada com o meu desempenho frente àquela tarefa manual de tão difícil execução.

Tinha que ir, pois esperar que a casa na árvore brote dos galhos é ser idiota. Eu fui, pois quem vive de sonho engorda rápido; e pra que o galho não envergue ou quebre, tenho que imaginar qual o limite seguro de peso. Menos preocupado comigo trabalhando na árvore, sopesava o peruzinho carregado que eu teria de empurrar morro acima.

Indo, quis parar na padaria para tomar uma média mas o segurança barrou o peruzinho. Pra não discutir com o intransigente, nem entrei.

Mais um na cidade, eu gosto de vagar sem medo. Ando apressado, diminuo o passo, vou ao léu do que ouço e vejo.

No vão da falha, a cidade pulsa: se desencanta, se reconta.

Já que as pessoas têm alegrias e misérias, se me isolasse em casa, não contrastaria o que me aparta com o que temos em comum.

Porque tem gente que trabalha por mudanças, projeto-me no sonho do mundo, vou pelas entranhas que meus pés palmilham.

É humano fazer planos. E se a superação dos obstáculos for aflitiva, será também estimulante.

Sim, práticas decepcionam e frustram. Contudo, como não sou de imitar os chatos que reclamam de tudo, tanto dos fracassos quanto dos êxitos, tomo sol.

No meu passo, não me quero parado, vegetando em angústias, vou porque usufruo e não me atropelo. Escuto, escutam-me; observam-me, observo-os. Experimento, vivencio o que não sei o que é, decodifico-o, leio-me, sou visto. Sinto alegrias e euforias. Já meio desnorteado, temo o desregramento. Na falta e na fartura, tento manter alguma meta.

Como não aproveitar a ladeira do morro onde moro?

Com a madeira que consegui juntar, caprichei no fórmula 1. Agora, para desatar o divertido, faltam apenas os rolimãs.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de março de 2023.

quinta-feira, 23 de março de 2023

De novo, o amor

 

De novo, o amor

 

Na vida, tem hora que gangorra diverte mais que escorregador.

Eis que o Luisinho me aparece num momento oportuno. No instante em que me acho suspenso na ânsia de encontrar um título pra crônica acabada de ser escrita, muito me alegra contar com esta sua vocação infantil pra dizer a coisa errada com as palavras certas.

Tão logo termino de ler, pra realçar a essência do texto, emendo:

ꟷ Verdades necessárias e outras nem tanto.

ꟷ Tolices necessárias e outras besteiras, replicou de pronto.

No sobe e desce da nossa conversa, argumento que há títulos que precisam revelar o conteúdo, sendo desaconselháveis a burla, a ironia, o apelo a razões sentimentais.

Uma vez que o engenho de jogar-se à compreensão do sutil cabe a quem lê, menos problemático é precaver-se das leituras enviesadas, pois nem toda gente filtra o humor pelas dissonâncias.

ꟷ Em time que está perdendo, se mexer, piora.

ꟷ Nada sai do vermelho pro azul se não houver mudança.

ꟷ Nem é necessário comparar Elis Regina com MC Pirralhinha para sacar que o saldo é evidentemente positivo.

ꟷ Pra quem lucra com isso, é evidente mesmo.

ꟷ Quando se perde, é fácil espinafrar. Difícil é lutar para vencer. Se a prioridade é sair do vermelho, que sejam feitas tantas trocas quanto forem necessárias, até que a vitória ocasional principie uma série feliz, com resultados consistentes, sem que a desconfiança atribua o êxito ao acaso, como se a sequência fosse um soluço que não passa, como se a trajetória azul fosse uma ilusão reconfortante, algo que alegra que nem bolhas de sabão soltas ao vento.

ꟷ Concordo! Bolhas duram mais longe dos espinhos, né?

ꟷ Não seja xarope. Pois as transformações baseadas em certezas mostram perseverança e segurança de quem caminha rumo ao pódio. Sem obsessão pela vitória, o vencedor nem merece levantar o caneco. Como o vitorioso avança a cada conquista, a cada disputa vencida, ele não hesita, toca em frente. Corre o mais rápido que pode, salta o mais alto que possa, nada o quanto aguentar. Quem não esmorece que trate de corrigir falhas, minimizar deficiências, superar-se a cada embate. O que está em jogo não é apenas a medalha de ouro que é dar entrevista, arrisca-se pelo mérito de saborear a glória neste instante. Até porque não há futuro pra quem luta pelo reconhecimento agora.

ꟷ Taças são joia valiosíssima!

ꟷ Quem não ama uma tacinha de campeão?

Radamés e Verônica sabem que se amam desde que começaram a namorar, nos tempos do colegial.

Este ano o casal vai comemorar bodas de pérola. Não haverá festa de arromba nem fotos e mais fotos nessas redes por aí.

Com a consciência de que a maçã do amor que irão saborear a dois pode mesmo ser comparada a taças vistosas numa galeria de prêmios inoxidáveis, ela e ele sabem que o fruto deste amor está bichado pelas pessoas que o almejam, o desejam reluzente.

ꟷ Mordam-se, amadores!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de março de 2023.

terça-feira, 21 de março de 2023

Na hora agá

 

Na hora agá

 

Quando a manga está estragada, não vai pro lixo a fruteira. Assim, a vida não fica resumida a pães sem manteiga, há cafés de meia hora e cafezinho com a barriga no tanque. Sim, é para tirar nódoa de manga que se põe de molho em alvejante a camiseta maculada.

Hoje é exemplo do que pode ser chamado de um dia bom.

Estou em dia com os afazeres, ando devagar, olho pros dois lados ao atravessar a rua e dou atenção a quem pede um minuto.

Se a pessoa ganha a vida tentando vender alguma coisa, se batalha na rua por um prato de comida, tenho até dois minutos.

Deixo que apresentem as maravilhas do produto que têm pra hoje, mas não enrolem nem titubeiem. Façam-me nelas acreditar que sabem o que, não só a mim, anunciam ao público em geral.

ꟷ Um instante, por favor. Posso colocar seu nome na oração?

Por não ser indiferente a quem avaliza as respostas que a religião tem a oferecer, não autorizo ninguém que ore por mim. Por um singelo motivo: não oro porque não tenho fé.

Medito; tento dar paz à cachola; busco a serenidade quando escuto música; respiro em silêncio pra que me sossegue o quanto posso. Mas eu só viajo pelo mundo afora com a Pastoral do Beethoven.

ꟷ Senhor, eu vendo sem medo este remédio, porque o produto tem resultado comprovado. Muita gente conhece. Tanta gente sabe que ele dá solução pra dor nas juntas, pro mal jeito no espinhaço, pro cansaço da cuca, pra cabeça que nunca relaxa. Se o senhor experimentar e não sentir melhoras depois de uma semana, venha me procurar que eu lhe devolvo na hora os seus dez reais. Olha, meu amigo, a verdade é uma só: não quero pros outros o que não quero pra mim. Bastou tomar meia garrafa pro sofrimento que eu tinha na sola do pé sumir de vez.

Sei não. Para juntar os cacos do coração, bom é cerveja.

ꟷ O doutor me permite uma palavrinha?

Quem dera estivesse apressado, que a minha real prioridade fosse bebericar uma cervejinha no boteco mais próximo. Mas, abstêmio e de bem com a humanidade, paro para ouvir-lhe o tal palavrório.

ꟷ Doutor, o excelentíssimo não irá se arrepender de ter parado pra de mim ouvir uma história triste, tocante, que mexe com a alma de toda gente que me ouve porque não conto carregando nas tintas da miséria e do padecimento. Falo a verdade, e Deus testemunhe que falo mesmo apenas essa verdade: a vida sabe ser cruel com quem nem tem armas para se defender das injustiças. Doutor, não é pra mim que peço ajuda, é por uma família de inocentes. O senhor há de concordar comigo que inocentes têm sempre que ser protegidos e amparados quando houver necessidade. Lamento dizer, mas é o caso. Excelência, seja solidário. Neste instante, doutor, tem um bando de infelizes querendo, na marra, tirar da praça uma família de maritacas.

ꟷ Doutor, colabore com a causa!

Decidido a quebrar no meio o estilingue que o menino em mim ainda me faz guardar em casa, assino meu nome com letra de forma.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de março de 2023.

 

domingo, 19 de março de 2023

O imprevisível

 

O imprevisível

 

Uma pessoa, aquele homem com vistosas cãs particularmente nas têmporas, postar-se a um palmo de um portão, em cuja parte posterior está um cão pouco amistoso, é clara demonstração de maturidade.

Como dois mais dois são quatro, o homem se permite impressionar por cães de guarda. Gosta de vê-los belos, com dentes arreganhados, ao natural dos instintos. Fascinante é o olhar deste homem que fala ao celular sobre cal, areia e cimento e nada sobre caninos e rosnado.

Aquele é um cão sem treinamento. Por não estar domesticado para a defesa do território em que vive, do portão para dentro, ele zanza. Se aproxima da grade, recua. Não é por medo que ele urina seguidamente na palmeirinha do jardim.

Quando não há medo, não há coragem.

Não sendo corajoso, é cão que não conhece o valor das tigelinhas de ração, não estima quais sejam as propriedades da água que lhe dão de beber, não define o que vem a ser uma residência privada.

Pelo caráter e não pelo viés, na luta sem classe pela sobrevivência, a raiva do cão dista do ódio humano. Por audácia indômita, certa gente ataca covardemente, à sorrelfa, sorridente.

Antes de Sócrates, disseram: autocontrole é coragem.

Por óbvio, pode-se inferir como aleatória a associação destes dois pensamentos: quem escuta “ontem choveu” não calcula que “amanhã choverá”; quando o telefonema o deixa livre, sai de cena o homem.

Ao bêbado que observa não seja atribuído que ele imagina a grade como espelho, que, face a face, estejam  homem e cão, sombra e luz, veneno e remédio, faca e gume, relâmpago e trovão, carne e unha.

Tão logo o bobalhão de telefone na orelha deixa a praça, o filósofo descalço, este bêbado de alma apaixonada, sossega como aquele cão deitado à sombra da palmeirinha.

O cão talvez pressinta, o bêbado não, mas tem um temporal vindo. Forma-se pros lados da represa; adensam-se as nuvens; uma ventania começa a girar as pás das torres de energia eólica fincadas à margem do espelho d’água, cuja linha torna visível o vento que sopra.

A consciência embriagada desencadeia:

“Você não aprende. Vire e mexe está metido em encrenca. Se você sabia que não tinha dinheiro, por que não pediu trocados? Tanta gente passando e você olhando, besta, aquele zé mané a atiçar o coitado do cachorro atrás do portão. Fosse esperto o bastante teria tirado proveito e pedido dois reais até pro bocó de celular no ouvido. Inteligente seria pedir ao zé ruela que enfiasse a mão no bolso, que desse o suficiente pra outra garrafa. Quem vive de ilusão, vive de autoengano. Não seja outro zé mané com inveja de quem exibe celular na praça. Quem tem memória curta não muda o rumo da prosa. Memorizar não é aprender. Saber de cor a tabuada e conjugar direitinho os verbos, pra quê? Você se perde pelos caminhos, mas a praça volta e meia reaparece no lugar. Faça sol ou chova, você não liga pro mundo.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de março de 2023.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Mão aberta

 

Mão aberta

 

Quando a campainha soou, por medo de permanecer insensível ao mundo, à mulher agachada bastou aquele único toque para abandonar a caixa de sapatos, cujo ventre aberto expunha fotos e docs.

Antes de entrarem, nomeando folhagens e flores, ela foi específica em suas observações. Vergonhoso é revelar-se relapso, porque jardins são cartões de visita. Diante de canteiros sujos e selvagens, só gentes sujas e selvagens vão querer botar as patas dentro de casa. Nada mais distante da verdade que imaginá-la um antro para bestas indômitas, o que, de maneira alguma, a sua residência era.

“Não semeie sem a necessária preparação da terra, primeiro afofe-a. Não a irrigue em demasia, pois água em abundância mata as raízes. Corrija displicência com intransigência, arrebanhe, um a um, assim que identificá-los, todos os tufos de erva daninha.”

Como os gatos exalam o nonchalance dos charmosos, ela sabia ser agressivamente ordinária com suas unhas elegantes.

Convicta de que é pelo exemplo que se educa, “deixe de nove horas com estas pragas que infestam tudo quanto é cantinho; elas sabem ser bonitinhas apenas para encobrir a desgrama que produzem”, a mulher arrebatou um brotinho de beldroega.

Exaltada como um cão que fareja perigo no cheiro que desconhece, nela latiu forte a compaixão, uma abrupta afeição pelo cuidado com os canteirinhos do seu jardim.

“Roseiras são um tipo de bicho bem traiçoeiro, como o bugio.”

Sem medir a obscuridade do que disse, a mulher largou a plantinha arrancada, que foi acabar aos pés da roseira.

“Meu avô vivia falando que a minha mãe foi moça imprudente, que não punha fé no seu conhecimento de homem do campo. A minha mãe tinha razão, bugio é bicho do mato que não vandaliza penteadeira atrás de vidro de laquê. No calorão da madrugada, era ridículo querer dormir com a janela do quarto fechada.”

Batendo as mãos para limpá-las da terra, a mulher verificou melhor as unhas. Havia terra, e um galhinho fino foi-lhe útil na limpeza.

“Na verdade, quem se parecia muito com bugio era o meu avô.”

Para arrebatar um tufo de capim, ela voltou a ajoelhar-se.

“Com mamãe fazendo as vezes de enfermeira, tive de conviver com ele em nossa casa. Sem receber um real, ela dormia de porta aberta e se levantava para ir acudi-lo ao menor ruído no meio da noite.

Fosse por uma tosse esporádica, ajeitava suas cobertas. Por uma respiração murmurante, tinha um chá quentinho. Quando chamada, ela não tropeçava na angústia de socorrê-lo no que lhe fosse urgente.

O fato é que o meu avô não precisava bater no peito ou escancarar os dentes, suspiros e gemidos já demarcavam a influência.”

A mulher pôs um punhado na mão, friccionou a terra com o polegar.

“O solo anda pobre. Até o cheiro já não é o mesmo.”

Tão logo a senhora ofereceu-lhe um salário e meio:

ꟷ Não sou jardineiro, dona, eu vim pra acertar a internet.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de março de 2023.

terça-feira, 14 de março de 2023

Canção noturna

 

Canção noturna

 

Se é pra se sentir só, melhor acompanhado.

Quando a janela tem cortinas bonitas, a paisagem não fica reduzida ao exterior da casa, ela adentra o cômodo de modo suave. A transição do exterior pro interior se dá de forma emocional, não sentimental.

O formato da janela enquadra, mas o vão é vereda pro que entra e pro que sai. Como membrana de célula, a porosidade torna possível o fluxo. Fluindo, a beleza de perceber-se vivo produz encantamento.

O cotidiano acorda o pensamento, faz com que a mente se debruce sobre a percepção deste estado do espírito. Ou seja, a pessoa que se sente encantada, procura entender-se. A consciência racionaliza, quer compreensível o sentido. Porque pensa, desencanta-se.

A realidade se enreda nas explicações, pois, na mente, elas vão se engatando umas nas outras como se a trama criasse vida. Anestesiada pela razão, a pessoa age como se estivesse tramando melhor. O tecido do que se apresenta como resposta nem aponta pra pergunta.

Que encanto de pessoa vai pra rua enquanto chove?

A lógica do ciclo da água institui que há evaporação, condensação e chuva, mas este mecanismo natural acarreta o incômodo da pessoa que lê por horas, tem a bunda achatada e raciocina: sem almofada no assento da cadeira, o jeito é dar uma volta.

Se isso explica o homem parado debaixo de chuva, é discussão pra quem estuda comportamento humano. Com permanência prolongada, é isso que permite observá-lo sem induções levianas.

Descalço, de óculos e de pijama, eis um homem resignado: há mais de um minuto, está na chuva.

O pijama azul bebê é conhecido. Aquela careca circula pelo bairro faz pouco tempo, há uns seis ou sete anos. O careca de pijama gosta mais da chuva que dos remédios manipulados sob medida.

O camarada azul bebê é criança coberta por rugas. Ele se comporta como fossem justos os oito anos que julga ter. A vizinhança conhece a história da primeira vez. Tocavam dobrado pela Padroeira Aparecida, foi um escândalo. Basta vir um temporal, ele nem sente que se apagam novamente os setenta e nove.

O que emociona é vê-lo tão tranquilo. Por certo, se os especialistas aceitarem o diagnóstico vulgar, a luta é pela impassibilidade por atos e palavras, em pijaminha quarenta e oito.

Há quem surte como diabo pondo abaixo o que encontra pela fuça; esse carequinha, no aguaceiro, ousa ficar parado.

Quem entende de estruturas psíquicas pode dizer o quão vibrante é uma cachola ao querer saber dos efeitos enquanto os produz.

Se crianças brincam em enxurrada, esse careca limpa os óculos.

Tal figura é inconfundível.

O luminoso da farmácia apresenta defeito. Tanto pisca que mexe com o quarteirão. O luminoso da lotérica também pisca. Piscam um e outro, como velhos conhecidos papeando.

O bebê carequinha escuta aquela canção iluminada, tanto gosta de escutá-la que sua alma canta em silêncio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de março de 2023.

domingo, 12 de março de 2023

A ilha amarela

 

A ilha amarela

 

Lá no fim do infinito, onde o olho suspeita que o silêncio exista como coisa mental, feito alucinação, onde céu e terra se fazem de dupla, com rosto no rosto, desse bolero mudo vem a figura caminhando pra cá.

Bem como o sol da manhã busca o zênite, pra tirar à sombra o que muito diz da seriedade da hora, a mancha enegrecida avança.

A quem lhe marcasse o passo, um taque-taque sem descompasso, esse quem perceberia naquele corpo a firmeza moral da pessoa.

A quem transubstancia distância em massa muscular, essa nuvem materializada gente nem percebe, mas sua cabeça carrega no gris do pensamento: com trabalho a ser feito, mãos e braços trabalharão.

Se pinceladas materialistas retocassem a paisagem, fale-se no sol que ilumina o chão que se move: além do homem, há uma rã.

Dos dois lados da estrada, é brejo.

Não um brejo pantanoso, um recanto. Sem antas, jacarés e sucuris, é brejinho cuja singeleza dispensa panorâmicas de drone. Tão singelo, radiante de vida, com passarinhos, borboletas e joaninhas.

Sem diminuir o passo, o homem vê a tal rã cruzando a estradinha. Antes da ponte, de uma margem à outra, ela passa devagar.

Aceitando a tentação de ignorar as capivaras do banhado, porque o brejo é várzea inundada por chuvas de verão, o observador pode ver que, às costas, o homem leva a sua mochila.

Quem é de hipóteses socioeconômicas diz que o trabalhador, pela necessária preservação da energia, leva somente o essencial, que é a marmita de arroz com feijão.

Por arrazoados ludo-políticos, quem é de sondar o inefável diz que homem algum vive só de arroz e feijão, daí a bola murcha.

Para quem tem outras presunções, o homem que caminha, a rã que salta e a bola murcha não apagam o vasto absurdo do mundo.

Por requisito realista, na fábula os animais humoristas são retirados para que os pensamentos da rã parada à beira do caminho ganhem as devidas aspas.

“Afora marmita e bola murcha, o sujeito dispõe de duas colheres, a de sopa pra comida fria e a outra pro assentamento dos tijolos.”

Embora a poeira colada na pele não produza paradoxos, é razoável que a rã pense que sua opinião tem fundamentações inevitáveis.

“As engrenagens do universo funcionam maravilhosamente porque nem duvidam que são mecanismos perfeitamente funcionais.”

Sentada no banco da pracinha, a uns sete metros do encontro sem estrondo da terra com o asfalto, a pessoa que observa não vê que uma tartaruga entra na cena em construção.

“A bola rolará depois do almoço. Os homens jogarão. Das operárias da obra, nenhuma jogará. Sem árbitro que dê palpites, haverá xingos. Pelo fuzuê do empurra-empurra, a pelada findará.”

O que a tartaruga não conjectura é que à engenheira, sem engasgar com o bife a cavalo, chegam as terríveis notícias de Gaziantepe.

Mais ao fundo, quase à cabeceira da ponte, em meio ao banhado, a frondosa ilha amarela é um ipê.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de março de 2023.