domingo, 24 de outubro de 2021

Caretas

 

Caretas

 

Meu coco, não o meu mas o do Caetano, desanda a fazer festa com as minhas minhocas mais chegadas a um forrobodó.

Bateu uma inquietude, resolvo encará-la. Opto dar uma volta. Coisa rápida, só pra não ficar encafifado. Quando a ideia enrosca, fica dando volta sobre si, acabo perdido.

Pra não ficar perdido de vez, eu entro na briga. Quero vencer, tento. Para que a euforia não me derrube no primeiro assalto, topo a luta sem fazer cara feia, pois não estou a fim de me entregar mal tenha sentido a perdição da alegria.

Nada de unitê, que eu nem luto caratê?

Melhor seria se entrasse num ônibus. Nem me importaria qual, que me levasse por aí. Porque aprendi a gostar dessa química entre nós ꟷ da máquina aceleradora de paisagem com os olhos à procura de alívio.

Só que a janela mostraria o mundo, com pirações diferentes do que a minha. Então, sentindo o tapa, eu ficaria emburrado, franzindo a testa e, reduzido ao enfezado, acabaria ainda mais contrariado.

Se não é nada alegre um rosto triste com testa franzida, quem não tem nada com isso acha muito chato ficar ouvindo gente aborrecida.

Portanto, fique dispensada a aporrinhação.

Assim, eu largo de mim?

Um passarinho canta à beira da janela. Muito bom ouvir o bicho, ele tanto mexe comigo que até assovio. Parece que levo jeito, e assovio.

O meu coração pega o pulso. A mente ignora as tormentas e faz sol na alma desperta pelo mundo. A ansiedade vai pro fundo e, decantada, fica encoberta por alegrias, cantorias, maravilhamentos.

A música é mesmo um ótimo remédio pra uma cabeça precisando se desprender das âncoras do desgosto, do desespero, do luto.

Assobio com gosto. A selfie confirmará o charme do meu bico.

Por que, então, o cantador avoou assustado?

Deve ter sido pelo ruído do telefone ou por minha decepção ao dar com a foto tremida, que deleto relutantemente. Mas quero histórias pra contar que muito me envaideçam.

A vida tem dessas coisas, de forçar a gente a aceitá-la sem ensaiar, mas me rebelo e rebolo como posso. Pra não tomar na fuça o que não quero que me enfiem goela abaixo, bolero um dois pra lá, dois pra cá.

São bagatelas. Que bom. Tô desejando singelezas bacanas.

Opa! Opa! Será uma pegadinha?

Duas notas de cem estão dando sopa na calçada, justiça seja feita: na manha e sem sanha, vou salvá-las das pisadinhas. Porque tem hora pra tudo, até pra entrar no papel de mendigo beberrão vagabundo que não tem onde cair morto.

Diz o crápula que trago em mim que não preciso ter razão pra estar certo. Diz o rábula interior que não é dividindo o que mais tenho que o espírito me elevará das vilanias, é dividindo o que tenho menos.

A tentação do ordinário me quer maluco pelo fora do comum?

Chuchu beleza!

Meio gagá de tanto loló, meio lelé de tanto jiló, tiro o engasgo pelo gogó, entre a miséria e a mágica, a minha língua tão à míngua, mostro-a pros caretas picaretas sem graça.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de outubro de 2021.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O estado da arte

 

O estado da arte

 

Um homem caminha.

Esguio, esquálido, figura feita de farpas da existência, um esqueleto andante. Embora magoado por tristezas, suporta bem os espasmos de felicidade. Lírico, flui prazeres pelos pés. Lunático, pensa a gravidade pela espinha. Feito outro, e pedestre.

O homem que caminha poderia o sorriso do menino que ainda traz a cada passo, mas nem carece demonstrá-lo assim tão presente. Tem que ir aonde precisa. Com o fôlego curto das passadas, vai.

Engana-se o menino que caminha quando lhe ocorre a vontade de comer açaí. Sombreando o que acha que seja bom pra toda gente, tem certa a consciência iluminada, tanto que nem lambe a tigela.

Ao andar a esmo, vai sem saber o quanto quer e o quanto pode.

O homem que não para tem ossos andarilhos.

O homem que conserva vivo o menino que assume os trejeitos de bom filho, obediente na fila indiana, cabisbaixo nas repreensões, gentil nos salamaleques dos casórios familiares, estourado da breca quando obrigado às confissões tão pouco cristãs, deprimido pelas quireras no mercado, falador convicto na bobageira da cerveja emendada noutra, é aluno impertinente quanto aos saberes da vida.

Não pode ser, todavia: é gente que recusa tomar lições.

A primeira lição pela metade informa que fica ao piano somente por uns minutos. O aborrecimento de repetir as escalas do livro de estudos é só pra apuro técnico, tão-só.

O punho de empinar pipa pega bronca queixosa à professora, que, em vez de lamentos, segue ouvinte deslumbrada dos pianíssimos mais sensíveis daquela alma em crescimento. Que o maravilhoso da música aflore menos da mecânica e mais do improviso, isso escapa àqueles tímpanos pré-moldados.

Falta céu ao espírito.

Com suas camadas sobrepostas, a mente do homem que caminha é uma cebola. E fazem chorar os humores da transpiração.

E deseja livrar-se do tédio, o cansaço mental que o põe pra baixo, a espiral do remorso, na vergonha do vexame de afundar-se frustrado, mas o mal começado resulta em malogro, um concertista de fancaria, o derrotado no palco abandonado às pressas, o latente no fastio de ir.

Indo, também, por causa das tantas ignorâncias.

Tantas, tantas dores.

Conhecesse a palavra, saberia sentir-se perdulário. Mas não culpa os pais por querer o que não falta. É por isso que deseja.

A segunda lição, embora avaliada ao instante da experiência, é a que diz que o adolescente que esconde a criança sabe separar sílabas poéticas. Pra que o Camões valha a pena, tirar dez é o fim. Porém, até visto de fora, o remendo do soneto tá ardendo pra cacete.

Mas a vida anda.

Longe de cabeçudo a enlaçar o mundo, no homem que desengessa o adolescente que desnorteia a criança que acorda a infância vive uma pequinês chamada Suzy, tal qual aquela boneca.

Engraçado, só reparando de pertinho que dá pra sentir que naquele homem late uma boneca animal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de outubro de 2021.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Folias cabotinas

 

Folias cabotinas

 

Quando o assunto é sério, melhor não rir alto. Faça o esforço de ser pacato, e ria por dentro. Capriche no sorriso. E se possível, sorria como se no seu íntimo a timidez ostentasse um recato de pessoa realmente capaz de miudezas.

Tente uma criatividade que lhe sirva de subterfúgio, a mão na roda que ajude a sustentar a aparência de gente castrada: aponte o elefante que as nuvens formam de repente.

A formação no céu deve ter significado imprescindível. Quem sabe surja alguém que domine os mistérios pra traduzir a mensagem.

O que pode facilitar a compreensão do que está sendo estampado com vapor d’água naquelas condições de temperatura e pressão?

O vento, que não pode ser varrido pra debaixo do tapete.

Como o ar não tem modos, a presa fica difícil de ser vista a olho nu. Peça, então, se alguém tem luneta, não precisa ser um telescópio, que traga imediatamente. Insista, pegue o endereço de quem tem binóculo. Ou o elefante vai virar um chapéu, ou virar apenas outra nuvem.

Não se desvie do foco. Permaneça no encalço da explicação que a muitos pareça útil, pois o esclarecimento ofertado cheira à preguiça.

Respire fundo. Sinta o odor. Não tem massa cinzenta queimando.

Talvez seja pelo pescoço ensopado do almoço, mas os duendes da cachola se exercitam surrupiando os estímulos químicos da lucidez.

E tchauzinho, vigília.

Alegue que frango é o que há, e dê palmadinhas na pança.

O que tem influenciado o inconsciente coletivo altera primeiro quem se alimenta pouco, e muito mal.

Mantenha uma certa indiferença, os demais nem notarão que forças hipnotizantes da TV, tão poderosas quando o som está baixo, podem ter conseguido domesticar sua mente.

No fundo da zona enevoada os cochilos são irrecusáveis, portanto, fuja dos cicios imaginários.

Olhe ao redor, não invente de cantar.

Os giroscópios narcotizantes comem trechos da civilização; os civis têm que se ajustar aos transtornos da livre circulação.

Os cidadãos que telefonaram não têm medo de confirmar ligações, pois o dever é de todos. Sem exceção, é de todos.

E formulários são preenchidos? Depois da intervenção.

Essencial pro fluxo contínuo de pessoas na calçada, que as marcas não traumatizem as crianças. Pois vaias não algemam, mas acutilam, e mantêm o sangramento.

Com olhos tirados da letargia à força, motoristas podam do trânsito a vertigem. Assim, ninguém que sofre um bocado quando o mundo vai além de trinta por hora conhece o dramático do transe.

Sem que a identidade secreta seja negada a quem tira fotos, filma e narra tudo, celulares são usados contra quem está vulnerável.

Procure gritar enquanto pensa.

Querem debelado o espírito que vive embriagado?

Caramba, parta pra ignorância do riso solto.

Caraca, pés descalços, seja permitido entrada sem unhas feitas.

Tá na cara que o galo canta pra soltar a franga?

Solte-se.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de outubro de 2021.

domingo, 17 de outubro de 2021

O prodígio

 

O prodígio

 

À espera da consulta, o homem sentado na poltrona ao lado foi logo dizendo que hoje em dia todo mundo acha que pode sair dando opinião sobre qualquer coisa. Então, ninguém mais se poupa do ridículo de se expor uma besta quadrada com ares de gênio que entende de tudo.

Sem desviar os olhos da tela, rolando-a pra cima e pra baixo, disse que as postagens têm cada absurdo.

É irritante alguém dizer que paciência dá em árvore. Pra quem vive de quebra-galho, a ideia de cortar excessos é uma azucrinação. Óbvio que não é razoável sobreviver só de cerejinhas.

E o óbvio demais afeta-lhe os nervos, fazendo vingar a semente do desprezo. Ele sente um desdém ferrado de gente que vive pra passar pra frente disparates energúmenos, como se não existissem indivíduos com cérebro maior do que uma cabeça de repolho.

Mesmo quando o mundo parece exigir, não usa a alma como estufa pras plantas nefastas que sugam a bondade que traz no peito.

Estrila somente quando lhe ferve o sangue. Em geral, é calmo. Se sugerisse, os amigos poderiam pôr a mão no fogo pra provar que é um cara de excelentes virtudes.

Fosse o caso, no celular tem uma montanha de fotos dos gatos, dos cachorros, da calopsita que come na mão. Uma bela de uma arca pra Noé nenhum desfazer do seu apego à bicharada toda.

Outro dia, sua filha levou uma das suas mais queridas amiguinhas pra feira de ciências. Mesmo com o pessoal tendo medo da Cléo, ainda é uma beleza de jararacuçu criada desde o ovo.

O nome é por causa da Cleópatra, aquela que foi rainha do Egito. Mulher famosa pelas astúcias das suas artimanhas, a víbora dançava os véus pra endoidecer os poderosos que lhe caíam aos pés, matando-os com o fel da língua bem na boca mesmerizada.

Sua cobra, aliás, tem o porte imponente de uma deusa etrusca.

Isso se já soubesse que elas tinham espírito magnânimo na justiça e eram de tal amorosidade que todo mundo embasbacava e passava a adorá-las sem essas pirraças de ateus comunas das redes.

Ele não acredita, mas não vai na internet só pra viralizar ódio.

Se tem quem goste de ficar se gabando de entidades esquisitas, já que o seu dever é respeitar, não tem nada de ficar com gracinha.

Sem dúvida, esses adoradores de bizarrices haverão de se ver no Juízo. Resta-lhe amá-los com o coração leve, inteiramente justo, livre das impurezas questionáveis. Afinal, é devoto de outro amor, do amor verdadeiro.

Ainda bem que sua vida é uma maratona; se não fosse, teria horas de sobra pra ficar corrigindo tantas bobagens. No fim das contas, iria acabar sendo confundido com esse povo que fica fazendo dancinha só pra aparecer.

Longe de querer a multiplicação de joinhas, é do tipo que busca ter argumentos sérios com palavras diretas, porque age tendo em vista o instante certo pra compartilhar ideias.

E o milagre em cima da pinta?

O dentista fechou aquela matraca deixando-a de boca aberta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de outubro de 2021.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Alucinação

 

Alucinação

 

Cantam. E quem estaria cantando durante a chuva?

Como se não fosse possível a sintonia das nuvens com quem canta, insisto na intuição. Pode parecer ideia estrambótica, contudo o mundo tem mistérios que estimulam a ficar curioso e a curiosidade relativiza as verdades universais.

Mesmo estando tranquilinha, da minha cachola costumo tirar muitos coelhos de uma espantada só. E que alegria indescritível.

Sem euforia desperdiçada, aceito que este meu poder esteja ligado à genética ou venha o lado insondável da consciência à tona quando neurônios alvoroçados, antes que os miolos mergulhem em parafuso, dão-me aquele choque.

O pasmo é tanto que sussurram os botões que estou indo de bom pra melhor, pois estabelecer conexão entre fenômenos da atmosfera e a sensibilidade supõe que me comova com a situação.

Vou pro terraço e olho o mar, e o meu entusiasmo aumenta.

Gosto da mureta. Me dou bem com a chuva. Ajeito os cotovelos na mureta. Flexiono as pernas sem que as câimbras brotem. Gosto muito de ficar escorado na mureta. Me permito ter um tempo pra acompanhar o movimento das ondas.

Não acho nada estúpido olhar a espuma vindo e voltando. Curto à beça deixar que o mundo me encante. Tão sutil, e cósmico.

Se estou temeroso de que uma irritação me pegue pelas mãos?

A chuva vira um temporal medonho. Como não tenho cabelos, não saio correndo. Admiro o espetáculo que a tempestade desencadeia.

E a cantoria não para.

Maviosa e triste, a voz que canta destoa dos arroubos tonitruantes dos céus. Contrastando com o furor do firmamento, há serenidade na voz. Em meio à miríade de raios, a fonte faz florescer uma paz.

Rastaquera, este sujeitinho pede muita chuva na testa pra entender que relâmpagos e trovões respondem ao canto. Há simbiose.

Há mais que diálogo, há o surgimento de uma música única. Porque fora dos planos, é música de beleza incomparável. De beleza única, é irrepetível. Portanto, é um deslumbramento inesquecível.

O que estou sentindo, porém, ficará comigo? Sempre que houver o canto melancólico de uma alma dorida a cantar em pleno temporal, irei recordar-me emocionado? Haverá de novo esta emoção tamanha?

Quando vejo, estou longe do sério, assobiando a melodia. Nem dou pelota pro razoável que se espera, estou transbordando de felicidade.

Não se peça a uma mente em estado de graça que ignore a crença de que Gaia e homo sapiens mantêm um laço sensacional, mais que lógico; fora que, depois de adquirida tal sabedoria, dificilmente haverá retorno aos deuses tão naturais.

Se a vida segue sem teorias que unifiquem o universo, ouso o bom senso de falsear o que desconheço.

Não estou aturdido: porque a chuva existe, eu existo.

Mas o oba-oba de apaixonado ganha outra brisa na cara lavada, é que a chuva para, o canto some e a solidão é a lua no horizonte.

Que desencanto, acabo sozinho no meu canto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de outubro de 2021.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Tão danada paixão

 

Tão danada paixão

 

Vamos aos fatos!

Antes, ainda que pareça haver desrespeito aos princípios éticos das histórias reais mais exemplares, tendo que destacar bem assentado o pé no arroz com feijão de uma veracidade rigorosa, pedindo, portanto, licença à sensibilidade política de quem lê sem recusar contradições e contrariedades acaso fortuitas, com cara de blagues imprevistas uma vez mal postas, que fiquem estabelecidas como autênticas e legítimas as condições prévias aos eventos que irão sendo reconectados, cujos fios desencapados hão de possibilitar uma fruição estética de explosiva octanagem, por estilo sanguíneo com o seu tanto de saber etílico e seu tanto de sabor apolíneo, por despudores e incongruências.

A primeira condição a ser registrada como fundamental para o início de tudo, sem mais delongas: chovia, era um dia de chuva miúda caindo intermitente, estava mais para garoa do que um chuvisqueiro incômodo a quem armado de careca e coragem, somente.

A segunda circunstância, falemos às claras que estamos mais para medrosos do que imbuídos de coragem, sequer na emoção do súbito.

Terceira, já que admitimos esta nossa qualidade de gente honesta, a modo público, não o fazemos pela lisonja de sermos tomados como pretensamente corajosos, o que em realidade acabamos por fazê-lo já que reiteramos o que está dito, é pelo cálculo de agirmos lógicos.

Pelas ressalvas expostas, e coerentes mesmo conosco, é de nosso feitio adiantarmos que o nosso cerebralismo tão rico em preliminatórias pra boi dormir, isto é, nossa língua mental não lambe o leite derramado, não porque entenda funambulismo como andar na corda bamba, é por dizer gargantualista a pessoa mórbida em perna de pau.

Por conseguinte, conclui-se: equiparamo-nos a homens e mulheres no comum a ambos, na simplicidade.

Simples, e nunca vaidosos, por lavra de punho fidedigno, damos os acontecimentos, abaixo transcritos, como apropriados.

Neste tempo, quando o ódio combatido com o amor solta fogo pelas ventas, pegamos tal pícara paixão pouco corretiva por quem não ama que, nem mornos nem moucos, ouriçamo-nos tagarelas.

Mas, precisamente?

Em boteco de fina estampa de outra esquina insuspeita, de olho na enchova, diz o pinguim peripatético:

ꟷ Azeite?

De sorriso aberto, diz o pavão emperiquitado:

ꟷ Aceito.

Sem luva de pelica, diz o provedor desassombrado:

ꟷ Acinte?

Sem criptografia alguma, diz o servidor destemperado:

ꟷ Aceito.

Com integridade falsa, diz o sujeitinho espertalhão:

ꟷ O que mais a sua excelência dá por aceite?

Pondo as coisas em pratos limpos, diz o malandrão espertinho:

ꟷ Por acento obsceno, nada recuso que resulte bem pago assento.

Sendo assim, por sabemos que nada vezes nada dá em nada, nós juramos, de viva voz sem embargos, que o meio arremata nosso fim.

E era outra vez uma fábula das graúdas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de outubro de 2021.

domingo, 10 de outubro de 2021

Jogo de cintura

 

Jogo de cintura

 

Perfazendo um itinerário que não o usual, entrei pela travessa que liga a Rua Direita com a Rua da Bica; nos primeiros passos pelo trecho, fui alertado que desconhecia a orientação do tráfego.

Quando ia descendo do passeio para cruzar a rua fora da faixa, sem olhar às costas, escutei a buzina mais os ruídos do freio, tive que pedir, encabulado, desculpas à mão que me autorizava ir adiante.

Engraçada a distração que a gente põe na cabeça quando não está indo pagar conta atrasada nem tem filho pequeno pra pegar à saída da creche, normalmente se me vejo empenhado a realizar alguma tarefa incontornável, eis que não perco o olho do mundo ao meu redor.

Quando atarantado, não tenho tempo para perder à toa.

Todavia obrigado a parar, parei.

O carro que parou, o que vinha do lado que nem me ocorreu olhar, este mesmo carro teve sua passagem impedida por um automóvel que lhe cruzou a frente, subindo da Bica à Direita.

Enfim, eu parado; o carro parado; e o outro que foi forçado a parar mais acima: em resumo didático, o Brasil parou de vez.

Que conclusão mais besta, ora essa.

Nem o bairro onde moro está parado, nem a cidade onde vivo está paralisada, nem o estado em que tenho vivido desde que nasci tem a vida congelada; por conseguinte, o que resta estagnado é o país.

Claro, claríssimo, é parado na esquina que o rosto da felicidade se escancara a quem atraído pelas coisas da vida.

Sim, a banda toca, o bando passa, a bunda samba.

Porque o mundo que conta a sua história de horror canta que passe logo o infortúnio de retroceder dois passos a cada passada.

Porque a vida que canta a sobrevida da esperança conta que venha rápido a bonança do abraço afetuoso, seguro e confiável.

Portanto, é por outro presente possível que muito obro. Muito, mas não me dobro à raiva por não tirar férias em dobro.

No entanto, o suor desta pessoa agoniada não encontra guarida na gente inquieta, em sofrimento maior do que o meu.

Com quantos passivos faz-se um pobre-diabo?

Como não alimento o espírito com rancores e desesperos, reitero o meu apreço pela alegria, pela amizade, pela Baía de Todos os Santos.

Passei do ponto pra chegar a que ponto?

Vem outra farmácia na vizinhança pra juntar-se à dezena de outras nuns duzentos metros de caminhada.

Com mal-estares à farta, é saudável a disputa de mercado.

Afinal, com tantas opções, qualquer pessoa fica esbelta só de correr de uma porta à outra à cata do preço mais em conta ou acaba doente por torrar a gordurinha extra do mês exercitando-se preguiçosa.

Tem remédio amargo dia sim, outro também?

Pra aguentar o tranco, uma drágea ao acordar.

Pra não rodar na pista, um comprimido depois das refeições ou dois juntos se as correrias do dia deixam ter apenas a janta.

Pra capotar na cama, basta uma pílula.

Pra alegria geral, eu asseguro que nem sóbrio, nem bêbado, sequer sonâmbulo, não dirijo nunca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de outubro de 2021.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Charanga da simpatia

 

Charanga da simpatia

 

Tivesse o cuidado pra aprender com os erros, é bem provável que me tornasse mais bailarino. Capricharia sorrir lutando pra não franzir o canto esquerdo da boca, que é o meu tique incontrolável quando estou pretensamente no ritmo. Contraditório, confesso. Porém não sou você que talvez seja daquelas pessoas que sabem agir como se não fossem capazes de esconder o jogo, uma vez que entendo que ficar estudando sobrancelhas e coçadinhas de orelha é para quem tem muito a perder, eu só tenho esta cara de pau ao valsar atravessando o compasso.

Se estivesse pronto pra me encarar menos pilantra, trocaria o lenço no pescoço por alguns escrúpulos mais bem apurados, ludibriando-me como um mestre que não pisa na fulô nem quando chumbado.

Se sentisse de mim a dó que tenho dos outros, não pagaria o pato que pago feito mico, pois este traquina acha divertido gingar no poleiro que nem miquinho de realejo.

Se a sorte está lançada antes que seja lido o bilhete, canto a alegria de ficar atento a quem acredita nas minhas competências pra estudar, refletir e refazer meus passos. E ajo assim pra tornar-me sensível aos pedidos de mais paciência com quem se dá conta que precisa de ajuda quando os demônios noturnos vêm abraçar no instante em que se está roendo o osso que vai virar sabão.

Fatalmente, é soda!

Como vou pelo sol e pela chuva, dentro ou fora de casa, admito que prefiro cuidar de passarinhos. Mas, os dos outros.

Gosto de ser acordado de madrugada quando alguns engaiolados cantam que é uma maravilha. São esses cantos que põem em mim um apaziguamento, um entorpecimento, fico chapado que até me esqueço de que os bichinhos produzem a sua música mais encantatória a troco de frutas, sementes e água.

Uma beleza sem culpa, pois canários e curiós são apenas vítimas, seres naturais aos quais não me cabe atribuir o poder de escolha.

Posso escolher, e opino, quero-os voando pelo mundo.

Se fosse de ir a concursos de canto, iria só pra agourar os criadores dos campeões. Uma vez que a perversidade dos homens está sempre em querer mais e mais prêmios? Ou serão somente maus os que não têm nem um pingo de vergonha pelo que fazem nem sentem nenhuma compaixão pelos prisioneiros que mantêm?

Putisgrila, nunca fui de competir pra valer.

Caso soubesse sincronizar as pernas com o dançarino que perde o rebolado já sem fôlego, emendaria Mamãe eu quero, Fio Maravilha e Aquarela do Brasil como se no tobogã do Pacaembu a charanga que não toca mais seguisse pondo fogo no coreto.

Ora, ouvirei estrelas?

Fecho os olhos quando percebo que estou improvisando sol e lua na manhã que trago em mim.

Há tanto universo à solta.

Prendo a respiração. Desaprendo com a inspiração.

Não mais que num repente, piro de vez, vibro de prazer, e desando a aplaudir quem desafina quando bem quer.

Ave, Pixinguinha. Ave, Coltrane.

Salve, simpatia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de outubro de 2021.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Sui generis

 

Sui generis

 

Como me conciliar comigo? Compensando o cidadão complexo que me consome conscientemente crítico? Compenso, logo compro.

Nadir, pra começar, dê-me água pro pantoprazol sódico.

Quando rugem os cotovelos do Tigre encanado na parede, basta a Hydra abrir a boca pros dejetos subterrâneos correrem pro mundão.

Se grudam que não evaporam, pedem o furor verde do Diabo. Mas, se o ambiente fica carregado de carniça de urubu, a lavanda faz o Bom Ar respirável outra vez.

Folhas de Neve não desfazem as fezes, incorporam-nas, dou como inadiável a lavagem das pregas, dos orifícios, das pragas de ofício.

Num bailado morno, sintonizado à primavera que a Bella Ducha da Lorenzetti me fornece, ponho os dedos a perfumar minha pele com a espuma transpirando odor de rosas da Phebo.

Calmaria em cinco minutos, já súbito me seco na Santista.

Os cotonetes da Johnson & Johnson não aprimoram o modo como toco a realidade.

Com o creme 3D White da Oral B nas cerdas macias da clássica da Colgate brigo vencer o tártaro que contamina minha dentadura dorida de mágoas. Em dúvida, enxaguo a boca com o Cool Mint da Listerine.

Se não me livro das rusgas ancoradas no rosto deste marinheiro a ver navios, cubro meus fios grisalhos com o sensível creme refrescante da Bozzano e aparo-os com as lâminas confortáveis do Prestobarba 3, que a Gillette me ajude a ganhar outra cara linda por mais um dia.

Dois jatos do Peace da Axe em cada axila, visto a World vinho da Hering. Subo a boxer vermelha da Mash. Calço a Lupo esporte de cano alto. Ajusto-me à Torelli pelo furo certo do cinto da Cavalera.

Pra andar com as próprias pernas, amarro o Chuck Taylor branco, porque calçado nesta estrela da constelação All Star eu piso forte.

Agora posso ligar a câmera do notebook Dell, entrar no Zoom e ter uma reunião acalorada sobre Uma Cerveja no Inferno do Rimbaud, edição 2021 da Chão da Feira.

Fim de papo?

No fogo alto do GLP da Copagaz, por trinta minutos, o feijão carioca da Camil conhece a pressão da Rochedo.

Com um fiozinho do girassol Liza e uma pitadinha do Cisne iodado, por dez minutos em fogo baixo, deixo soltinho o Prato Fino integral.

Com meus pais aprendi a aferventar linguiça antes de fritá-la, tomo este cuidado com a toscana da Aurora.

Fingindo não me intoxicar com as fumaças da inflação, corto o pão francês com a Tramontina serrilhada. Nada de mostarda escura Heinz, nem uns pingos de Tabasco, mas lambo o ketchup Hemmer da faca.

Meus dragões dependentes de butilbrometo de escopolamina irão clamar por atenção? Antecipo-me.

E deito sobre as molas do meu Castor ideal. E o toque de seda do meu Altenburg faz fluir a borrasca craniana. E não sinto o frio do vento porque os 180 fios do meu Buddenmeyer de solteiro me aquecem.

Nada de novo?

Pela galáxia do Samsung J1 Mini, uma cachaça fina agita a massa:

ꟷ Como apóstolo da insurreição, Aldir Blanc.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de outubro de 2021.

domingo, 3 de outubro de 2021

Outra história

 

Outra história

 

Não reconheceu, mas foi reconhecido. A pessoa que o chamou pelo nome mereceu, abafados pela máscara, uns grunhidos.

Que sorte a dela, podia considerar positivos os meneios de cabeça, talvez pelo modo do nome pronunciado, o tom de voz a enunciá-lo aos quatro ventos e aqueles sons desprendidos do esquecimento.

Não se viu congelado ao concordar com aquele entusiasmo por ter sido dado como bem de saúde. Ao menos, sua fisionomia era de quem estava forte, sacudido, essas coisas que exames clínicos bisbilhoteiros pegavam afeição por desabrochá-las em regulares testes de sangue e avaliações de esteira.

Salutar é sentir-se provado por uma ligeira passada de olhos?

E do olhar desse mimoso misantropo não chispou nenhum fogacho de amor ao próximo, o que àquela meiga alma não desestimulou a dar felicitações pelo retorno à terra que a ambos era tão familiar.

A conterrânea, cuja identidade estava quase materializada naquele nomezinho, barata que lhe escapava pelos neurônios, não fazia ideia de que a tal da quarentena era fichinha pra quem não saiu tomar uma em alambique a légua e meia do coreto às moscas da matriz nem quis roer no pé cenoura, batata e rabanete, que isso era pra coelhinhos.

Quer tática mais tentadora que petrificar-se como gelo de estátua?

Por acintosa timidez, ele tinha tendência a deixar-se como estava a ver-se como ficava, uma vez que era capaz de moderações irredutíveis e reservas pétreas. Ou seja, era um cara despeitado.

Entretanto, permitia ser convidado a comentar efemérides literárias na rádio, nunca em jornal. E sentia um prazer obsceno escutar aquelas vozes falando das palavras-valise de Joyce ou dos fluxos de Clarice.

Se o soubessem comovido com a própria atuação naquelas horas tão próprias ao sono, ficariam admiradas as pessoas que o pegassem usando do copo d’água pra microfone ou do espelho do banheiro pra câmera. Fazendo-se de rogado por tamanha canastrice, nem dormia, tanto vibrava às fisgadas que lhe arrepiavam as penugens da nuca.

E tudo isso poderia ter-lhe escoado pelos pensamentos afora, mas fez compreender-se como bicho civil, um urso bípede de uma cortesia tal que poderia dar-se explicitamente gentil, humilde, e quiçá amoroso.

Como negar ao amor o amor em troca?

Com o amigo tão perto, ela não teve como resistir e derreteu a frieza dos formalismos com as formalidades do afeto: deu dois beijinhos, um em cada face, e aquele abração. Era, pois, escandalosamente folgazã.

E tinham esse escorpião na moita: a encarnação da adolescência.

Ela, portanto, tomou para si o dever de demonstrar-se sensibilizada. De fato, emocionou-se. Desejou-o enternecido: recordou-lhe o apelido, epíteto há muito não ouvido: Bento da Dita.

Todavia, fique registrado que era Pedro. Por causa do olho de vidro, era Zoio. E pros muito chegados, era Zoinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de outubro de 2021.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A aberração

 

A aberração

 

E não é que a aberração existe?

Vi a foto que me foi enviada, assim, não vou negar o que vi, já que, conscientemente, ainda que espantosamente, eu realmente vi.

E vi que não era uma imagem fabricada com o intento de convencer o incauto de que tudo é possível neste mundo.

Nela não percebi sinais de manipulação vulgar, canhestra, bastante comprometida com o que se esconde atrás do rostinho bonito.

Bonitinho, mas fingido.

Pois é, quando a vergonha é tanta, trocando os pés pelas mãos, é preciso dar um jeito de ser alterado o foco.

Já que a compulsão desprezível de certa realidade política a está contaminando com algo mais do que execrável, apresentando-a como fato inacreditável ou de dificílima constatação, o logro é desvalorizá-la, dando-a como inverídica de antemão, ou insólita.

Se a imagem tem cara de que é uma mentira deslavada, então, cai bem disparar a torto e a direito que se trata de conversa fiada.

Entendo, é prática diabólica: pro truque dar certo, convém anunciar, de modo franco e bem transparente, que é truque mesmo.

Então, a foto não me foi compartilhada por aplicativo de celular, veio diretamente a mim através de e-mail. Ou seja, a estratégia adotada me fez confiar na autoridade de quem deu fé pública na autenticidade do documento.

Como legitimidade é tudo a quem passa a sua verdade de gente do bem, e pela forma bastante confiável pela qual foi enviada, achei que a notícia merecia ser levada a sério, apesar de assombrosa.

Certo de que estava contribuindo pro devido desmascaramento de quem vive afrontando a opinião criticamente livre, repassei tal imagem a um pequeno grupo de pessoas amigas e, evidentemente, ajuizadas.

Gente séria, que não contemporiza nem azucrina de pronto, pois é preciso ouvir, sem espumar, quem dá palpite idiota feito coice imbecil; é preciso conviver, sem se infectar, com quem saliva fácil ao espalhar preconceitos infames de fontes insalubres; é saber que vida social não se resume a reproduzir o adequado como pólen em bico de colibri.

Lobo que vence lobo guia a matilha ─ diz o oráculo.

Pois bem, dito isso, descrevo o bizarro recebido: há um bebê fofo, rechonchudinho, com a boquinha entreaberta, de olhinhos puxadinhos, sentado ao sol, enquadrado por sombras junto a porta fechada.

Será representação recorrente do futuro?

No descobrimento do instante, conta-se que a criancinha cresceu, mas não ganhou altura atemorizante; dizem que não fez abominações apocalípticas, apenas destroçou carrinhos de plástico; comenta-se que rabiscou algumas paredes, mas nunca quis virar reizinho de mil anos.

O que jamais profetizaram os falsos guizos?

Que a miopia me torna cantor dessa rosa tantas vezes desabrida, desalentada, ressentida, ignominiosa, monstruosa.

Num gole sem açúcar, duro retrato da prosa da vida?

Vivo que é só amargo, é jururu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de setembro de 2021.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Riscos

 

Riscos

 

Tinha um cavalete na praça. Alguém estava pintando.

O sol surgia, ia subindo além das montanhas. Que belíssimo efeito, dos raios sobre quem pintava.

Na ida, passei às costas; na volta, pude conferir os traços.

Na manhã seguinte, a mesma cena.

Privilegiando o rosto da pessoa que pintava, fui e voltei. A absorta ignorou-me contente ao vê-la.

No outro dia, confirmei: não era diletante, sabia o que queria.

No dia seguinte, não saí pra caminhar.

Não fiquei triste, porque ela não passava a ideia de que fosse louca para querer pintar alguma coisa debaixo de chuva.

Todavia, a sexta-feira amanheceu ensolarada. Tão logo a vi:

ꟷ Bom-dia! Que dia lindo!

Foi o que consegui dizer no limite do que a timidez permitiu.

Com sorriso aberto e nada sardônico, asseverou:

ꟷ Caminhada faz bem pra gente.

De perto, as cores não batiam com a realidade do momento.

ꟷ Não se ofenda, mas este sombrio lembra o de Goeldi.

ꟷ A comparação não me ofende. Fiz de propósito.

Por certo, a minha cara de aliviado teria sido indisfarçável.

ꟷ Amanhã a gente almoça, que tal?

Na feijoada, falando sobre a representação da luz, contrapunha-se ao Monet que pintou uns trinta quadros da Catedral de Rouen.

ꟷ Só que ele ficava pintando em lugares fechados.

Já na praça, tomando sorvete, disse que na rua se sentia em casa.

ꟷ Mas as pessoas não tiram a concentração?

Não se incomodava que viessem observá-la trabalhando.

ꟷ O isolamento tem as suas graças.

Dava condições ao apuro técnico, à firmeza da mão rigorosa e ao sutil do pincel que finaliza. Raro era ficar distante das pessoas com as suas mil perguntas sobre o que fazia.

ꟷ Tem gente que pergunta onde estudei. Tem quem que me peça pra opinar sobre o que anda produzindo a filha de uma vizinha que tem muito talento. Contatos assim não me aborrecem.

Um ou outro confundiam simpatia com propensão à libertinagem. E ela não perderia os prazeres da vida por causa dos boçais.

ꟷ Vou contar como foi que me decidi a nunca frequentar uma escola de arte. É uma história triste. Por também ser vergonhosa, não direi o santo nome que me fez tomar horror pelas academias e suas regras.

Sem vocação alguma para agir como noviça, ela foi matriculada em colégio confessional, franqueado às famílias abastadas da cidade e de seletas casas-grandes de fora.

Em uma tarde qualquer, à saída de alguma missa, uma das mestras encontrou-a na escadaria da Sé.

Com medo dos mendigos tisnados à porta da catedral, a professora acenou que se aproximassem os praças que faziam ronda ostensiva.

ꟷ E prontamente atenderam. E ouviram a freira atentamente.

Uma vez arrolada a sua identidade oficial com a foto do documento, não hesitaram em admoestá-la pelo comportamento leviano e trataram de conduzi-la de volta ao educandário.

ꟷ Ninguém foi capaz de devolver o bloquinho de desenhos. E o que ele tinha eram esboços, só esboços à mão livre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de setembro de 2021.