terça-feira, 12 de novembro de 2019

Guarinim


Guarinim

Sentado no chão da sala, sem pijama, descalço, no escuro. O que menos quero agora? Obrigado, o meu muito obrigado. A quem hei de agradecer? Ao anjinho sapeca que mora na minha falta de esperança é que não. Assim, faço a mim mesmo em duplicata. O de bem com a noite, esse não interrompe a audição da sétima sinfonia de Mahler. O outro, o que volta e meia dá com uma pedra nos dentes, esse me tira do lugar, calça os chinelos, veste a camiseta, acende a luz, e procura e procura, até que olha pra mim. Sim, há ratos na sala.
Como sói a este girassol destrambelhado, bato com o artelho do mindinho do pé, que tanto gosta de beijar os pés do sofá. Zanzeio no ar pra ir ao tombo. Embora a coreografia bem me projete estatelado, me seguro a tempo em uns cabeludos do calão, que cabem aqui pela imaginação da leitora e do leitor, a rirmos da parvoíce.
Queria os ratos voltassem para o lugar de onde saíram? A voz me escapa. Ao menor gesto de ar rasgando garganta afora? Há o queijo carnoso na boca; gesta-me em escândalo, no rastro do muito pouco.
Daí por quê?
Os ratos, ô sina, comem que comem páginas aqui e ali. Famintos de novas, e encaram com paixão redobrada as notícias fraudulentas. Olho, somem com o sapo. Reparo bem, somem com o imberbe. É, os dois têm roupa preta, ambos a saciarem os ratos. Ainda há terceiros, estes correm com formigas e baratas acolá.
Os roedores, com os óculos, vejo-os melhor ainda. Os amiguinhos me ignoram. Estão no mundo ao sabor da fome. Como se estivessem na razão, devoram sem parar. Então, dou com o azul na boca destes ferozes. Que foto revela que tenho estômago e fura a minha mente?
São araras no topo de uma árvore.
Que história é esta na qual desempenho papel de bicho na muda?
E fuço. Com 14 anos de atraso, tomo ciência. Em defesa da vida, ambientalista toca fogo em si. No Mato Grosso, dia 12 de novembro.
Caramba, preciso mudar mais do que mudo.
Os ratos não entendem o tempo. Nem da chuva. A chuva desaba nos caminhos do mundo. Os ratos não me ouvem.
A chuva em mim segue pegajosa. Entro nisso de ir tirá-la.
Um rato vem atrás. Não consigo convencê-lo a sair. Um rato morto comigo no box? Vá, criatura, vá roer a pá ao lado do botijão. Vá, seu rato, vá iluminar-se com a piauí ou com o louco do cati. Vá lá, vá.
Corro ao teclado, as palavras correm. As ideias pululam. As patas entram pela garganta, escoram suas cavernas. Com mil dedos, sigo e jorro. Se as araras abrigam o filhote com sua desproteção animal, por que o cinismo fica me dizendo que estou morto? Como os ratos vivem carcomendo os lóbulos, trato de ir teclando. Sem biscoito? Gelado ou requentado, posso jantar a sobra da janta de ontem. E as flores de plástico? Enveredadas no verde, enervadas no vermelho. Contudo?
Todavia, apago o texto. Tá de brincadeira?
Já a rataria, essa está por aí. Como pode isso?
E vêm e vão. Ninguém dá conta disso?
Nem mesmo eu.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de novembro de 2019.

domingo, 10 de novembro de 2019

Amor de valsa


Amor de valsa

A rua tem calçada dos dois lados, mas o sol tem feito mais sombra em só um deles. Aliás, não é de hoje que nossas ruas andam cheias de buracos negros. E como tem cometas desorbitados no lusco-fusco das peregrinações, movidos pelas pernas curtas que, de pés juntos, juram se livrar dos eclipses tão logo a cabeça ajude com o andor.
Mas os personagens prediletos, eleitos por mim pela incapacidade de compreensão do humano “apoquentar-se”, vão respondendo como podem aos atropelamentos do mundo. Uns não conseguem escapar, pegos por caminhões de mudança que vivem a se replicar. Como os cães, temendo a gravidade da realidade paralela, roço as elipses de carrinhos de bebê, bicicletas, skates, patins e patinetes.
Tal repulsa a translações não faz cócegas no caos do mundo, mas me põe borocoxô. Aos livros, então. Abro o volume que trouxe para o calçadão. Como o selecionei? No escuro de pegar o que minha mão topasse primeiro, sem saber de capa, autor e assunto.
Leio que ler é traduzir. Leio ainda que leitura é experiência própria de quem lê. Penso, tenho feito inédita a tradução do mundo? Reflito, estarei julgando com justiça o texto que produzo ao escrevê-lo passo a passo? Conjecturo, posso o inconforme ao espelhar-me?
Eis o oceano.
Vou lá pôr os pés na água; entro até os joelhos; e quando subo as espumas da maré pelo peito, recuo. O pânico sopra sua disritmia? O afobamento que me afoga no raso contamina na minha boca a língua que é de mais ninguém. Ô egoísta inesgotável.
Com sua marulhada diuturna, o mar não dá trégua. Contudo, com evidente empenho, a preguiça vai enchendo a praia. Ranheta, o tédio irremediável de quem pouco se apraz com aquilo tudo, toma de mim a minha paciência. Irrequieto, vou-me embora pro apê.
Vejo o isopor dos bons-bocados, e faço votos que haja proventos aproveitáveis. Ouço na esteira toda uma tarde única, e quero crer no sol como contraditório às previsões de chuva. E toco em mim o suor das minhas esperanças descalças, que não me alegra a cantiga triste dessa ronda.
Nem na cama nem no sofá. Talvez o café? Quem sabe a TV? Por certo, a navegação? Ô bagaça que não passa. Farol do medo que tira a luz. Ampulheta que não mede tempo perdido. Areia, areia, areia. No ventre do lento, tudo é areia. E essa lágrima que amargo no seco da face? E esse drama que não brota à flor da página? O mesmo que o mesmo, ô mesmice.
Será marasmo abraçar por dentro a calmaria?
O cochilo me cochicha um sonho real. Sim, tem esse pai com suas duas meninas que, bailando na Bahia, afinam as minhas retinas para um amor raramente à venda nas feiras. Miro-me nesse maestro que acena pra renda dos afetos.
Assim, refeito, acordo ao despertar pras aporias do mundo, mundo este que não para de me desafiar. Imperfeito, canto e danço à beira do poço? Pelo que me provoca, é nisso que me fio: pra cada sábado, um domingo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de novembro de 2019.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A mão do artista


A mão do artista

Entregue às moscas por uns bons minutos, pela queda da energia elétrica, fiquei catando ciscos de ideias. Pensando a vida, a morte, e no almoço a que ia já se destinando a manhã.
Não me preocupo quando me ocupo comigo mesmo. Todavia, os negócios do mundo têm as suas artes.
Para alívio de quem lê, cortando as asas dalguma mosca azul, às vezes um assunto toma a iniciativa de entrar voando pela janela.
E um bicho entrou, passou por sobre mim e pousou na estante.
Na maior calma, larguei do celular, levantei-me do sofá, fui pegar a escada na cozinha e voltei. Demonstrando a serenidade de um quase sábio, bem capaz de falar com passarinho.
Nada de nada.
O bichinho voou pela sala, piando, até pousar à saída pra sacada.
Mantive o foco. Mantive-me fleumático.
Calcei uma sacolinha de supermercado na destra dos afazeres, e me aproximei. Ainda sorrindo, ainda devagar, ainda inutilmente. Uma vez que a fingida duma figa não me deixou pegá-la, insistindo em dar com o bico no vidro da porta. Mas a derrotei.
Soltei-a, revestido daquela satisfação de devolvê-la à liberdade, de deixá-la voar por aí atrás de comida, de poder ouvi-la cantar com sua beleza natural. Que maravilha ecologicamente correta, a minha.
Problema resolvido? Fui cuidar da vida.
Varri o chão do quarto; recolhi a roupa do varal. Vai daí, quando ia pro banheiro, escutei o piadinho outra vez.
De longe, vi o chão emporcalhado e uma almofada também.
Procurei-o. Voltou ao lugar onde estivera. Encolhido, ofegante. Os olhinhos, em mim, nada me diziam. Não o deixaria ficar, pois não iria criar passarinho, menos ainda em uma gaiola.
Novamente...
Dessa vez, contudo, vi que havia outros passarinhos esperando o meu visitante. E deu-se uma briga aérea, de bicadas e rasantes junto aos edifícios da vizinhança.
Fiquei estupefato com a violência. Por isso, não saí do lugar.
E eram três, quatro, cinco contra um. Cinco, sim. Pois do ninho do joão-de-barro veio dona pássara juntar-se aos agressores do coitado que buscara refúgio no meu apartamento.
Estou inventando.
Só sei que era joão-de-barro porque vi a casinha típica no topo do poste, porém precisei de umas fotos que confirmassem. Agora, quem era fêmea e quem era macho, nem faço conta de saber.
O resultado da refrega?
Furtiva, passa ao fundo a ave que vai ao ninho do joão-de-barro.
Fazer perguntas é da minha natureza; respondê-las, nem sempre.
O joão-de-barro não vê que tem ovo a mais? E vai chocá-lo? Vai dar de comer a filhote que nem é da fornada?
Que o alvoroço acossa, não duvido. Ações há, entretanto, que dão sabor à vida: nem longas, por maçantes; nem breves, por aprazíveis; pelo bem que causam, boas.
Não descia o leite da caixinha? Do feijão com arroz, lambo o prato.
E o danadinho vir cravar suas garras n’ A mão do artista, sobre o qual li umas linhas do Harold Bloom anteontem...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de novembro de 2019.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Café com pão


Café com pão

Com o mundo às costas, estou à mesa para escrever. Como faz o jogador, vejo as palavras no campo, espalho as ideias, vou pensando em função do time. Tenho estratégias, de ataque e defesa. A favor ou contra, leitura é gol.
Tsc. Tsc. Pra usar o lápis, chuteira não atrapalha?
Sei...
Que fome é essa que me deu? Está quase na hora do café, é isso. O que gostaria de comer? Penso no pão que a minha mãe fazia; sem que os vizinhos pusessem os olhos, e soubessem dele só pelo cheiro.
O segredo estaria nos ingredientes? Na mistura? Na temperatura do forno? No tempo de assar?
Tenho comigo um caderno de receitas, com a letra dela. Pego-o.
Não é possível. Como isso está assim? As suas folhas não tomam sol nem chuva, pois ele fica todo o tempo na estante. E laiá... Como ler se ficou ilegível? Como, se está visivelmente incompreensível?
Acho a página ou a que acho que seja. Ô cabeça. Pego a receita; tiro os óculos, coloco os óculos, e nada. Não consigo ler. Minha letra é de lascar. Sim, a letra é minha. Agora está explicado por que não consigo entender o que está escrito.
Desisto de ler o que não dá pra ler.
Melhor é puxar pela memória. Não deve ser difícil juntar os ovos, a farinha de trigo, o fermento, a água, o sal, essas coisas que fazem do pão o que o pão vem a ser.
Que coisa! Parece que minha mãe está ditando pra mim agorinha mesmo aquela sua receita. Como quero porque quero comer daquele pão, ponho a mão na massa e, alegre que só vendo, fabrico e asso e corto o pão quentinho.
Uai, que sola de sapato é essa? Eita, e o sal que sumiu?
De mim para comigo, aceito: “em tanta estreiteza de tempo não o tenho para disputar”. Visto-me rápido, e toco ir comprar o pão integral de sempre.
Espero na fila. Tentar eu tentei, ninguém há de negar. Nada mais mentiroso do que contar meia verdade? A fila vai ligeira; confesso que errei a mão. Mas estarei lavando a roupa suja com águas passadas? Pago, sorrindo. Não estou escondendo nada de ninguém. A moça do caixa estaria sorrindo se soubesse que a minha incompetência é que me trouxe até aqui? Nem um pouco suspeito. Agradeço; por nada.
Como ignoro o que não sei, não vou ficar especulando. E o que aqui respira; espirra ali; acolá ecoa, o quê? Vida, que se faz crônica; crônica, que há olhos pra comê-la; o que nessa fome salta aos dentes e sobra à língua, a vida mesmo.
Já que não sou besta, tomei a solução do óbvio. Não queria comer pão? Se não dou conta de fazer, compro feito. E vou comer, não vou? Escolhi o mais cômodo, mas saciarei a vontade. É do jogo.
Olha que legal. Sem dar bandeira de nada, fui, vi e ouvi. Volto com o bornal carregado de histórias. Depois, sento escrevê-las.
Agora, já com o pó no coador, passo a água e posso tomar sem açúcar o café. Ô coisa boa.
Sei, sei...
Frugal, ponho gosto que é; de fato e a contento, uma maravilha.
Porque muito amo o que faço, aceita outra crônica?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de novembro de 2019.

domingo, 3 de novembro de 2019

Gente brilhante


Gente brilhante

Na época em que fazia versos, certo de que fazer versos me fazia poeta, escrevi isso: há mortos em mim que não param de falar. Nem lembro se isso aí foi escrito assim mesmo, ipsis litteris. Mas “quem faz a língua é quem a usa”, dizem-no instituições que estão funcionando, tais como a Academia Brasileira de Letras, a Associação Brasileira de Imprensa, as faculdades de Educação, Letras e Pedagogia; todas de portas abertas, a mostrar quão importante é ter pesos e contrapesos quando o assunto é falar corretamente e escrever bem. Embora haja quem diga que oratória e caligrafia pouco falem a quem abra a boca como quem posta um comentário.
Gente, devagar com o horror que o monstro passa a andar quando o comando é inteligível. Quero dizer, meu ponto fraco é o pulso forte em matéria de língua.
O rigor do castiço? O castigo do lasso?
O termo me escapa.
Como nem em ladeira abaixo haja santo que acuda, melhor contar só com a gente. E tem gente pra cada coisa neste mundo.
Tem gente que nunca se enxerga. Tem gente que faz de tudo para aparecer. Tem gente que corre da própria sombra. Tem gente que ri de qualquer desgraça. Tem gente que quer o circo em fogo vivo. Tem gente que faz outra de palhaça. Tem gente mangando do cão.
Seu Rodrigues, que palhaçada é essa?
Sim, o negócio é escrever a crônica, que hoje pareço um cachorro correndo atrás do rabo, e com tal naturalidade...
Caramba!
Calma.
Chegando ao prédio onde moro, vejo uma movimentação. Normal, deve ser a equipe de técnicos que faz periodicamente a manutenção do elevador. Não era. Tratava-se de outro grupo, o da manutenção da antena coletiva e das câmeras de segurança.
Tudo pra segurança e proteção.
Sem querer ferir suscetibilidades, mas as câmeras protegem por que vigiam? Ou vigiam por que protegem?
Caso tenha ferido, minhas desculpas.
Interessante.
Um dos mortos que não param de falar em mim é o leitor de Não perdoe! se não souber o que é perdão. Como li o livro, não farei um resumo, e direi apenas o que apreendi.
Perdoar não é livrar-se da culpa, mas assumi-la. Assumir a culpa de pensar ou agir na medida do seu pensamento ou da sua ação, ou seja, medindo o que atravanca o caminho, em vez de permitir que a vida vá em frente. A mágoa é funda; pesa; se alimenta de si mesma, como ressentimento. Se tem cura? Sim, tem. Todavia, perdoar é mais do que dar copo d’água a pessoa que tanto se odeia. Perdoar é difícil, problemático, perturbador, uma vez que é fundamental calcular a dor, o sofrimento, a angústia que configuram o imperdoável. Então, o que é que me impede de aceitar o que vai além da tolerância? Eu próprio. Perdoar é... perdoar-se. Daí, o perdão vem.
Quanta ajuda. Até parece que levei um tapa. Tapa... Oxe! Preciso pegar no manual, que nem sei direito operar a língua. Seu Rodrigues, é vapt-vupt! Shibatada é com xis ou ceagá?
Eu que o diga: oxe!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de novembro de 2019.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A dor e o gozo


A dor e o gozo

Urgente! Muro de Berlim vira remédio, o Murus berlinensis.
Minha mente me põe aperreado, já de posse da notícia dada pela Folha de São Paulo na edição do último domingo de outubro. Marcelo Leite, o jornalista que assina coluna no referido jornal, comenta ainda que a homeopatia reza: semelhante cura semelhante.
A chave dos meus problemas aí está. Como pessoa que se ocupa com o equilíbrio alheio, busco um elixir que nos desopile.
Onde posso encontrar?
Me vem primeiro um cão. Mas darei a animais a condição de meus semelhantes? Passa e vai, movido por premências que só um poste pode aliviar. Guardo a distância, decide-se por outro poste. Que plano tem o cão da rua pros postes da cidade? E por que não cobre o que vai alastrando a céu aberto? Estará instruído por globalistas?
Com patente autocontrole, vai resoluto, obedecendo a uma lógica idiossincrática: um poste depois de outro, em linha reta, do lado ímpar da avenida. Chega à praia, para. Olha a base móvel da PM; afasta-se de uns turistas; lambe umas casquinhas caídas na calçada; depois, todo serelepe, vai pro calçadão.
Daí é que penso. O pensamento me concentra no que o cão faz. A ideia focada na ação me põe longe das alegorias metafóricas. Nada mais esdrúxulo do que imaginar a vida de um cão como um abismo, e que, durante a queda, mãos invisíveis vão retirando travesseiros, já que as penas não tornam leve nem amortecem nada.
Segundo a homeopatia, veneno é a desmedida.
E a arma contra a desmedida? Então, que arma nutrirá em mim a defesa que tanto preciso? Não sou o meu semelhante mais íntimo? Armar a mim mesmo? Armar a mim sobre todas as coisas? Armar a família, por que somos bem-aventurados? Armar amigos como quem arma a nação? Armar a terra onde nasci? Armar é fogo que se vê? Armar, não parece armação?
Há esse cão que está parado, a olhar-me. Seus olhos não revelam desdém; a mágoa que expressa não ficará menor nem mais rasa ao chamá-la melancolia. Mas pouco sei do olhar do cão.
Abana-se, cheira-se, lambe-se. O que não quer dizer que aja feito rei, solto na vida, a fazer e a desfazer o que lhe dá na telha. Na cara de todo mundo, o cão cumpre a sua jornada com entrega.
Mas desgarrado?
Se Argos abanou a cauda, Baleia sonhava com preás. Em outras palavras, nem todo cão tem a mesma raça.
Se aquele apaleado de caninos cariados já se ria com os bípedes, implumes, que nem viviam num barril? Sem tosa e sem perfumes, só o sol me banha além da conta? Nem por isso reclamo menos sol.
Sim...
Desarmar os pobres por que deles é o reino dos céus? Desarmar mendigos com alguns trocados? Desarmar o caixa do mercado com um sorriso? Desarmar o ódio com um abraço? Desarmar-se pra ouvir o próximo? Desarmar-se com a palavra?
De poste em poste, fazendo-se livre ao viver ― por amar-se.
Ô amor danado, que faz o osso da crônica entranhar o coração das ruas neste cão vagabundo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de outubro de 2019.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

No circo


No circo

Ia a manhã breve, na minha caminhada pelo calçadão da praia. E o que Budu, o Christian do piano, disse a um jornal me comia pela cabeça. Então, “é preciso deixar fluir a fantasia, deixar a imaginação participar do processo”, com o mar ali, a palmos? Como não preciso ver pra enxergar, o cego em mim não quer ver onde enfio o nariz.
Assim na caminhada, que me ajuda a dar água aos meus burros, ia intoxicado pela miséria de submerso na quietude do mundo. Ia pela vida, com joões-de-barro e amendoeiras-da-praia a ter natal e finados ao léu. E a indiferença vai de porte airoso, sem mascarar a crueldade que, desde a eclosão do ovo cósmico, não faz eco ao universo.
E por caminhos tortuosos, e enervantes até, a vida dá tratos à bola feito o Flamengo diante dos antagonistas, sob os auspícios de Jesus. Vai daí que, sem o rococó das firulas e recursos a VAR algum, com as explícitas segundas intenções de celulares a postos, tramando as veredas que levariam à foto, umas transeuntes me põem na roda.
Se sou aquele cara da TV? E essa barba rala, grisalha e cheia na barbicha? Um carequinha com estes óculos de intelectual? Sério que o senhor não é mesmo aquele cara do jornal?
Com tanta vida a desnortear, calçadão, preciso parar de me ouvir, pra talvez conseguir pôr mais serena a mente, esta arteira.
Até parece sonho, mas do jeito que a vida está sendo montada, é teatro que não me encanta. Aquelas e aqueles comediantes de quinta que emendam segunda e sexta? Pessoas que mais improvisam do que ensaiam? Heróis do Face e vilões do Instagram, assim querem que a gente as veja. Ô tristeza.
E o espetáculo? Se não sair das coxias, a Coorte Real de Brasília vai ficar como? Vai ter circo? Dizem que esse promete ser diferente, com artistas de lá e de cá. Oba! Quem está vendendo os ingressos?
Amo circo de paixão, vou já comprar pipoca.
Terá atirador de faca? É certo que leão, macaco, elefante e outros bichos têm entrada proibida. É barbada que a mulher de sombrinha não vai pôr os pezinhos na corda bamba porque milicianos tomaram pra si a rede de proteção. Nem falo nas coristas que somem ao ter o perfil na Interpol. Quê? É mágica tirar da cartola o Queiroz? Deviam devolver o dinheiro de quem vive pra pagar tanta piada sem graça.
Quando a dor dilacera, o calçadão vai apertando de estreito com cães que rosnam quando ladram. Putz! É fatal ter a espinha ereta.
Veio-me a foto das palmeiras lá do Rio. Pena que tamanha beleza esteja distante deste babão de fôlego contraído. E tão maravilhado, esqueço que, como aponta o lápis dos calculistas, a produtividade na garganta do patrão segue afiada, porque se felicita pelas R$ 2.100,00 razões pra cada R$ 1.040,00, no mínimo.
A canalha que come a minha pipoca no meio da trama me quer no papel de bobo? Dou o melhor de mim na função, daí bato palma que nem louco quando me confundem com o Pondé.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de outubro de 2019.

domingo, 27 de outubro de 2019

Dando sopa


Dando sopa

Não tinha pressa, e precisavam testar minha disposição. A senha na mão pedia o micro-ondas do cartório cheio. A barriga canta onze horas. Perdido no trem, faço boca de siri. O senhor ao lado não tem de saber que acerto o humor pela fome. Além das orelhas, resta um buraco donde a coruja bateu asas. E a minha segunda falha do dia? Passar esta impressão de ter ouvidos.
― Cometi muitos erros na vida, mas não peço perdão algum.
Porque é fácil julgar terceiros, amarguei. Que ralem o coco.
― Ninguém me convence que não tenho culpa de ter nascido.
O homem tinha que desembuchar a média dormida azedando nas entranhas. Zombeteiro, o painel não grita o número da sorte. E o bom homem destilava as gorduras saturadas, era sua a necessidade de compartilhar o que lhe entupia alguma coronária.
― Não é questão de orgulho nem é por vaidade que falo assim.
Entro a viajar pela maionese e desando entre o quindim da vovó e a vizinha da polenta. A primeira; a segunda; entre ambas, a falta que me faz o nada. Se posso pagar pelo carimbo, então a demora? Alho com bugalho, ponho na conta o que emperra, a ladainha do atraso.
― Como ter a cabeça no lugar, se não deixam a pessoa em paz?
O livro da vida não repete o número da página, e nenhum livro é igual a outro, porque cada pessoa é única, o que nos torna comum a todas as demais. Mas será analfabeto o funcionário?
Então, é isso. Permitir-se repassar o lido, o visto e o escutado.
― Tenho pra mim que é praga de gente faladeira.
Há quem o leia de trás pra frente, partindo do fim pro começo. É melhor conhecer o fim pra saber se a história é boa o bastante pra merecer a atenção devida? Nunca tentei, venho sempre da infância. No que faço, entra uma pitada de pimenta. Se espio atrás da cortina? A vizinhança segue na labuta de dispor de seus cães, que é preciso regar as mudas. Será útil condenar o pacote pela última bolacha?
Raios de fila, parada nesse 69.
O drama, ou a comédia? Só depois de morto é que se tem a obra feita, fechada, acabada. Com capa, orelhas, contracapa. Mas a vida não é obra pra edição única. Querem editar o material? Daí alguém aponta a glória onde outros dão com a vergonha; há quem suprima uma passagem ou outra, uma vez que a ninguém cabe saber do gato morto a pauladas; há quem acrescente um detalhezinho bobo que a gente nem percebe a diferença, e daí que a pessoa entrou na loja de brinquedos pra sair pela pastelaria?
A matriz de todos os males produz apenas as boas intenções. E quando a perfeição apaga os defeitos, melhor cuspir no prato.
Se não vejo, não existe. Se não existe, invento. Digo que sinto que percebo o mundo. E vejo o que não vejo. Até parece teatro. Diz Peter Brook, “sabendo o que estou olhando, eu posso ver”.
Como borboleta, a vida pousa no frágil, no efêmero, no aroma do sutil. E nem todo triste há de negar que flor não voa.
― Senhor? Não será a sua vez, senhor?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de outubro de 2019.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Boi na linha


Boi na linha

Assim que ouço a notícia em primeira pessoa, por uma estudante do ensino médio, cujo relato centra-se no roubo de seu telefone, que tem prestações de setenta e uns quebrados até meados do segundo semestre de 2020, desligo o rádio.
Rabugento, sento-me à mesa. Tenho este Orwell para terminar de ler, “é uma crueldade estúpida confinar um homem ignorante o dia inteiro sem nada para fazer; é como prender um cão num barril”, a leitura me embota os pensamentos. Haja indignação, mas as paredes têm a solidez projetada.
Costumo jogar xadrez; e uma vez que as suas peças ficam na tela do computador, não corro o risco de deixar sobrando uma ou outra, o que volta e meia me acontece quando monto um quebra-cabeça.
Não que isso me livre de ter alguma coisa pelos cantos da casa. E agora, num bando enorme, as formiguinhas velhas conhecidas estão indo pra trás do fogão. E o que será que tem ali para as bichinhas estarem em polvorosa?
Como não como barata, pode ser uma.
Entendo a cara feia, mas ninguém precisa gostar de barata ou de grilo ou de sei lá que tipo de animal com os quais os asiáticos põem gosto de abarrotar a barriguinha. Mesmo ricos em nutrientes, fibras, vitaminas, sais minerais, todos indispensáveis ao organismo humano, também vou ali chamar o hugo.
O indivíduo ficaria morto atrás do fogão, caso minhas confidentes não provocassem esse alvoroço todo. E se rapidinho dão um jeito nas sobras da mesa, tadinha da barata. E neste caso, o citado indivíduo é uma barata, mesmo morta.
E a mim me apetece, de vez em quando, polvilhar o que escrevo com o jargão da ciência, daí a presença de indivíduo. Por favor, não encafife com o meu vocabulário diferente, que o exotismo lexical tem fundamento.
Falando de escrita, já que vivo escrevendo, procuro o manjar que resulte num quitute dos bons, de dar água na boca, de fazer a gente comer com os olhos, pra lamber o dedo e virar a página.
Assim, ponho a mão na massa, digo, no texto, tentando bolar uma receita própria, a partir do que outras pessoas já fizeram. Por conta e risco, trago pro escrito as falas de gentes ricas e pobres, guerreiras e pacíficas, bebês e vovós, daqui e dali, mas de tudo um pouco, que é pra não entornar o guisado.
Se me faz bem? Bem, bem não sei se faz. Mas que bem é esse tão hipnótico? Perplexo, dou com uma boiada desembestada. Estar bem. Passar bem. Ganhar bem. Vencer bem. Perder bem. Sair bem. Fazer bem. Xi! Se bem, bem não está indo, melhor não me deixar ir. E tudo bem?
Apresentando dados de 2018 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, o jornal informa que mais de 100 milhões de brasileiras e brasileiros vivem com R$ 413,00 por mês. E vivem.
Disse Beethoven numa carta de 1802, “o infeliz consola-se quando encontra uma desgraça igual à sua”.
Mesmo que as formigas não me escutem:
― Não mato baratas nem as como, ouviram bem?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de outubro de 2019.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Formigamento


Formigamento

Indo direto ao que interessa.
Opa! Indo ao que me interessa neste momento...
Não vou jurar que entendo o mundo. Porque não sou de jurar nem tenho cabeça pra entender o mundo. E globalmente, piorou. Tenho cá umas fumaças de querer explicações pro que faço ou deixo de fazer, se não quero ou não dá. É coisa minha, não é do mundo, da vida ou do Chico Barrigudo.
A formiga não deu bola, virou-se e foi-se num pé.
Mais um dia daqueles. E venha com contratempos e contrapontos, que o meu fel preparo é pra já, ao desjejum. Peraí. Passei o café que estou tomando? Estou mastigando o pão de ontem? Não está pronta a revisão do livro de outrem? Menos, por favor.
Trazendo sua turma, voltou a formiga.
Minha cabeça ignora as tentações do abrangente e do definitivo. O absoluto não me seduz. Busco relativizar, e troco de posição para me permitir outras visões. Nem acabo de publicar uma crônica e já estou lendo, talvez possa alterar algo. Se faço mudanças, faço-as pra não enxotar quem lê. E não troco uma palavra por outra pro texto ganhar em poesia. Mudar palavras; a ordem na frase; as frases no parágrafo; e a ordem dos parágrafos ― isso é pra dar maior nitidez ao texto.
As formigas já não andam a mesa toda.
Sejamos justos. Pra maioria, a situação anda bem complicada.
Penso naquela pessoa, homem ou mulher, que luta pra realizar o sonho que a consome. Como exemplo, digamos que a tal pessoa tem que juntar dinheiro por dez meses pra dar cabo do negócio. E trampa horas a mais e corta gostosuras e entra nos eixos, rala pra dedéu.
A formigaiada vai se juntando num ponto da mesa, por causa das migalhas das refeições passadas. E que banquete.
Dez parcelas de R$ 300,00, pagamento do dentista que colocou o aparelho corretivo na boca da filha, que merece os dentes alinhados, pra mastigação correta e pra ressaltar sua beleza. É aperto que vale a pena, pois é pra dar qualidade de vida à garota.
O que um pai não faz por um filho? Faz diferença, como exemplo.
Dez parcelas de R$ 30.000,00 pra comprar o apartamento pro filho caçula, o único dos três que ainda não ganhou o mimo. É justo deixar de ir passar férias em Paris, afinal um ano voa rápido.
O que um pai não faz por um filho? Faz diferença, como exemplo.
Dez parcelas de R$ 30.000.000,00 pra trocar de jatinho, o atual já tem três anos. Fora rapidez e autonomia de voo, nada se compara ao conforto do Global 7500.
O que um pai não faz por um filho? Não faz nada, porque dinheiro não cai do céu.
Em fila, num vai e vem, as formigas têm norte.
Assim como água e óleo são imiscíveis... Mas arroz com feijão...
A crônica tira da manga um Paulo Mendes Campos: “Todo homem deve libertar-se; todo homem deve realizar um grande gesto; todo homem deve conhecer a profundidade e amargura de seu limite”.
E essas formigas que não param nem por um segundo?
Chega! É muita coisa pro meu cérebro processar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de outubro de 2019.

domingo, 20 de outubro de 2019

Furo n'água


Furo n’água

Ir com muita sede ao pote? Num gole, sair escrevendo o que brota nas ideias sem pesar a areia, o caminhãozinho fica atolado na praia. Não dá pra respirar com a cabeça enfiada na areia, mas tentar sair só faz água, que, insalubre de tão choca, contamina o texto que ia leve, transbordando aos quatro ventos a mágica da palavra bem posta. E o guincho que não chega?
Amiga minha anda com uma dor de cabeça que não passa e, pelo jeito, não passará fácil. Essa mancha borrando a mente impede-a de matar a sede de escrita. Como se uma mão invisível a estagnasse, a água parada contaminasse o que tenta escrever. E aborrecimento de tal bojo, logo com o que mais a apraz?
Quem escreve já pode ter enfrentado algo parecido. Há momentos nos quais o suor empapa a folha em branco, e nada de vir a palavra pra encaixar na frase. Há ocasiões em que a palavra até quer puxar outra, mas a mão fica no ar. Há desses dias que pedem o que não se tem, e talvez o texto rendesse mais com correções.
Juro que avalio meus limites. E reconheço, sou escritor pro gasto. Sim. Gasto meu tempo correndo atrás da origem das palavras. Gasto a sola do tênis pra ir pegar livro no sebo. Gasto o que não tenho, pois o bem feito resultará no prazer da leitura, que é uma resposta e tanto.
Tomo a liberdade de ir escrevendo com a maior responsabilidade possível. Em busca dos rastros semânticos, consulto dicionários. E os escorregões acontecem quando mais tenho pressa de ter em mãos as fontes que decido examinar. De tombo em tombo, quem sabe um dia aprenda que preciso calçar um tênis adequado pra ficar de pé nas próprias pernas; nuvens, afinal, não têm rampas, buracos e fezes. Só que os buracos dão a oportunidade pra ir corrigindo a passada.
Então, quando escrevo? Venço a parada ou as palavras vencem.
Vencedoras, acolho o sentido que sugerem. Então, ficando legível, pago o que o texto pede? Tento não me prender a frustrações.
Olha, vim disposto a dar vazão ao que tenho pra dizer. Está nítida a mensagem que desejo no texto. Cada palavra no seu devido lugar. Do começo ao fim, com a coerência do que penso. E calha um treco assim? Do nada, um trecho trava e a cabeça fica em silêncio. Aponto o lápis; bebo café; vejo TV.
As manchas de óleo nas praias do Nordeste são para punir aquele povo comunista que não sabe votar? A banda podre dos verdes quer grana pra suas ações no Brasil? O DNA deste óleo é igual ao material coletado nas águas oceânicas da Malásia?
Eureca! A fonte está seca aqui, posso cavar ali.
Assim como troco as palavras, estudo os significados, esmiúço as raízes etimológicas porque o texto pede o que nem tinha em mente quando sentei pra escrever, assim há recursos pra me levar ao que tomo como o mais próximo do que almejo expressar.
Amiga, espero ter passado o plá de hoje. E se o mar não está pra peixe, cá entre nós, cadê o Tiamat pruma ceva tão rica em carbono?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de outubro de 2019.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

À doida


À doida

Nada como um mestre depois do outro pra nos permitir ver que a vida é sonho. Sim, a maestria nos acolhe na caverna que nem se via. Quando lá fora a chuva aperta ou o sol está de lascar, é mão na roda. Façamos o fogo pra que, ao pé de tanto esplendor, até os monstros queiram chegar, pra curtir a prosa mansa.
Mansos, mas de garras afiadas na lida contra os muros por beijar com todas as cores, que beija-flores têm bico doce. E a modéstia nos perdoe, movemos as estrelas com um beijo.
E ao nos afirmarmos com um sim, escorre-nos a névoa pela face. Que é sim pra enfatizar que entendemos o que, líquido e certo, este nosso sim quer dizer: amor.
Amor, de todas as letras e todos os sons. Amor, que chamamos à roda, que a ciranda roda e gira.
E faz dia, a seu tempo, porque as abelhas acordam os ursos pro mel, só não se abuse da doçura, que isso põe mal a quem sem limite. E faz noite, a seu tempo, pra que se recolha as juntas do varal, antes que o sereno force as costas e desabe tudo, feito areia.
Lá vem o vento soprar o quanto pesa no coração a veia entupida, petrificada, carcomida por tanta discórdia.
Jocasta, a aziaga. Medeia, a desarvorada. Cordélia, a destronada. Será calão não calarmos? Édipo custa a enxergar, falamos. Jasão de mãos abanando, falhamos. Lear tem braços, falhamos melhor.
Daí os ares ventarem o bastante pra gerar tempestades, que vêm com a feracidade de quem tem fome. A fome da saciedade veraz do pão e da crônica alegria dos palhaços. É tal a fome que se faz preciso empurrar com a barriga o encosto que não dá espaço, já passado da hora, já passado o rio.
As águas não param.
E dedos róseos apontam no peito, onde o aplauso vira vaia, a virar o que a gente bem quer que brote, no momento em que se semeie, no chão em que se colha.
Se cheguei a tempo, posso?
Como professor, falando a distintos públicos, estive no palco do Auditório Roberto Marinho, na Praia Grande. Do palco, a visão muda de figura. Com as luzes da ribalta iluminando o proscênio, não se vê a plateia. O público está lá, dá pra ouvir o burburinho, comunicam-se a audiência e o palco através da cortina inconsútil, delgada, delirante.
O riso e o pranto tornam-se pontuais, o embargo da voz ecoa no suspenso da respiração, o compromisso irrompe como resposta.
Já na sala de aula, diante de alunas e alunos, lá estava disponível às interações de cada gesto. Feliz da vida por aninhar um coração de mão dupla, atento ao pedestre, agreste, rupestre em cada lição.
Agora, em qualquer lugar, posso ver que a realidade é caverna a acolher, abrigar e envolver. Entre a porta da rua e a porta de casa, a folha se abre aos dois mundos; e foi do palco da SEDUC que passei a ver que o mundo é um só.
Com o fogo que nos aviva a todas, todes e todos, sopro as brasas desta gratidão a quem escolhe por vida a inteligência ousada de catar feijão como quem conhece o joio pelo trigo.
Doida... Meeerda!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de outubro de 2019.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

Lição do dia


Lição do dia

Puxo pra cá, do ontem da memória, o dia em que tomara o valente de um tombo, conforme já pude absorvê-lo. Se parasse aqui, como parei lá, ficaria no anedótico. Nem daria pra afirmar se foi efeito do pé que se perdeu da segurança do passo, se o escorregão ocorreu pela calçada molhada de chuva ou se estavam lavando o passeio.
Então, ao lapso, digo, aos fatos.
Houve testemunhas. Dentre elas, porém, exclua-se o cão que nem aí pro cara caído. Também tiremos da história o guarda-chuva, que, se a ele fosse dado ter voz, tomaria por mentecapto o escrevinhador, em singelo troco pelo estrago da queda.
Fixemos a nossa atenção, portanto, nas gentes às quais passo a dar evidência, que as suas ações, espera-se, possam vir a colaborar prum final de elevado tom, e exemplar, inclusive.
Acudindo-me a mim mesmo para levantar, escutei o homem a se dividir: se tudo não passava de cena ridícula ou se havia necessidade duma expressão simpática. Quem ri por dentro, nem se segura diante de cidadão estatelado. Porque fiz tal leitura pelo som da voz, tratei de acusar o vento.
Embora controlasse os gestos, enrolando o pano com a forçadinha básica nas varetas entortadas, escorei no poste mais próximo o inútil, que servisse a outrem pra alguma coisa.
Um passo além, e colhi um passa pra dentro, com a garotinha de patins informando a mãe que o rapaz caiu feio.
Que rua em flor!
Normalmente deserta, mas o alinhamento dos planetas, por certo, calhou de pô-la viva de olhares a me julgar um idoso trôpego, talvez pelo tênis azul de cadarço rosa-shocking, ou pelo bermudão xadrez.
Sei lá.
Só sei que a mulher descendo do carro me pareceu uma bruta de uma antipática, nem perguntou nada.
Fosse outro dia, outra hora, outro momento?
Tem dia que a vida manda a gente tomar no SUS. E fui, pois não tenho plano de saúde nem pretendo ter um, por falta de grana. Com o nariz escorrendo, melhor um livro. Com os brócolis na promoção, não posso perder a frase do filme que acabei de lembrar. Com o boleto gritando da gaveta, nada melhor do que o melhor pra gente, mesmo. Afinal de contas, a vida não pensa duas vezes pra mandar a gente ir tomar no SUS.
Já no Irmã Dulce: a senha; a triagem; as notícias no celular; e a tal médica: depois de cinco caixas de anti-inflamatório, o senhor perdeu o juízo!
Pra não cair naquela rua de novo, subo outra.
Brota este texto. Com os catadores de letras trançando as minhas impressões, sinto-o encaminhado pro fim. Nada estrambótico, capaz de nem despertar a atenção em quem já nem anda bem, com olhos de preguiça, cansaço ou tédio.
Por causa do tédio, irei bater a janela do programa? Tenho modos. Mesmo que nem se perceba o dedo da angústia ou tenha de soletrar S.U.S. de trás pra frente? Sou educado.
Hoje como ontem... Ontem como sempre... Sempre como hoje...
Como nenhum tombo não é metáfora, caí direitinho.
Ê bexiga.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de outubro de 2019.

domingo, 13 de outubro de 2019

A capa do cão


A capa do cão

Como parece que todos os voos partem pra Roma, pra já, e pro dia a dia de todo dia, quedo-me pedra no caminho, digo, no sofá, que aceita o mar, o cais, a estação, a estrada que invento, sonho e passo a viver. Arrisco a querer ir por aí, e vou.
É música pros meus ouvidos.
E a música mexe comigo. De modo que preciso me escutar no que sinto. Tem música pra dançar junto, tem música pra cantar junto, tem música pra assobiar junto, tem música pra prestar atenção, tem música que faz gato e sapato de rimas e compassos, tem música que nem reparo e já estou ouvindo mais uma vez, que na terceira vem aquele trecho que faz a gente querer ouvir de novo.
Como gosto de esticar as pernas no sofá pra escutar música numa boa, depois das refeições. Boto o fone, ponho pra tocar o balaio com faixas de artistas de todo naipe. Sem me prender a um disco só, sem ficar com um nome só, sem me acomodar em um ritmo só.
Misturo e mando ver.
Sim, sou desses melófilos que deitam no sofá depois do almoço. Pra digerir o frango com batata? Cai bem o sonzinho dos bytes.
Sim, computador também serve pra isso. Não é só pra jogar xadrez, que jogo todo dia. Porque gosto muito, aliás, configuro pro nível de iniciante, que é pra ter a satisfação de derrotar o cérebro eletrônico, é óbvio.
Mas isso é estrada que não vou pegar agora.
Pois preciso dizer que a lista tem forró, baião, pop, rock; tem canções antigas e recentes; é uma miscelânea de cantoras e cantores.
E lá vai o trem pelas nuvens. Trato de ir, pois a minha vida é andar o meu país. Sei que a estrada não é só minha. E vou pela serra do luar, o sol na cabeça. Sigo em frente, quero ver quem me tira desse viajar. Mesmo que morra o meu tatu-bola. São muitos os lados da viagem.
Sim, estou viajando.
Já vejo a capa do livro. Com foto em branco e preto e o título em vermelho, VAMOS SALVAR OS BÚFALOS, assim mesmo, soando capitulares. Vermelho, sim. O urucum de quem ama bichos, plantas, pedras. Cor da paixão de quem se mexe pra defender búfalos e jabutis.
Daí que na capa tem crianças. Sim, tem meninas e meninos de uns dois ou três anos. Tem pretas, brancas, amarelas; as gordinhas e as magricelinhas; as mais baixinhas e as mais altinhas. Todas exibindo a imagem de um búfalo que a leitora e o leitor vão ter que encarar.
Com imagem impactante, nem se vê que a criançada desce em diagonal, do canto superior direito pro canto inferior esquerdo, dividindo a capa em dois triângulos iguais.
E tem esse detalhe que não posso deixar escapar.
No triângulo complementar, ao lado daquele da gurizada, está um cachorrinho. Desses de rua; sem dono; que se vira pra comer, dormir e fazer das suas com o que lhe cruze o caminho. E ele ali, sentado ao largo, só de olho na movimentação.
É como?
Assim é: levanta-se do nada pra ir latir noutra freguesia?
Ô cabotino, a meninada desviou o caminho pra você tocar viola com suas pulgas.
Rex!
Rex...
Rex?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 13 de outubro de 2019.