Acorde
desafinado
Quinta
passada, na biblioteca Porto do Saber, foi realizada mais uma edição, a sétima,
do Concurso de Poesia Falada Leni Morato.
Fui pra
lá atento a todo canto, já que há ruas do Boqueirão que estão passando por
obras da Sabesp. Se as sereias do progresso orquestram-se em andante com brio, toquei-me
adágio pro caos da poesia.
A
caminho, veio um duo singular, de homem pedalando com um meninão ofegante a
acompanhá-lo. Aparentemente, e uso o advérbio pra não especular sobre a
impressão, o rapaz precisa trabalhar a musculatura.
Fui ter
com a arte de corpo inteiro dos concorrentes. Aplaudi com gosto e bati palma
por respeito. É da vida cada qual gostar mais disso do que daquilo. Mas a intensidade
e a duração não soaram como manifestação de voto, porque não me postei na banca
dos jurados.
Fui, vi
e voltei.
Às
costas, ouvi uma pisada fora do compasso enquanto uma criança falava sem parar.
Passaram por mim, ia o homem ao lado de uma meninazinha que pedalava com gosto,
vestida numa roupa, nem sei se digo uniforme, de quem pratica arte marcial.
Arte ou luta?
Como um
fio que se enrola em outro... Seu Rodrigues, fazer questão de dizer oito da
noite ou vinte horas?
Arte ou
luta. Faço questão, sim. E faço porque tenho meus motivos para levantar a
lebre, que o coelho virou Wally no meio da selva de nossos dias. É que dá pra
descobrir onde o danado cisma de querer ficar escondido bem na nossa cara.
Digo, na
selvageria oceânica de tanta notícia, num tsunami mascarado de maré, a onda vai
nos levando pelo óbvio que aparece pela frente. Só que a frente é nossa e nem
percebemos que, em nosso afogamento, vamos debatendo se a lama é mais ou menos
tóxica. Ela devora a civilização, digere a urbanidade das nossas tradições e nos
arrota uma modernidade que nos liquida.
Sem
mal-estar? Escrevo,
logo leio.
E leio
no Estadão de sexta-feira que a Andrade Gutierrez “conquista 20 obras e volta a
empregar”.
Que
notícia alvissareira. Fico feliz de seguir o bicho aonde quer que me leve. Cresce
R$ 8,2 bilhões a carteira de projetos; de 96% do setor público para 70% de
obras privadas; o fluxo operacional do caixa positivo é resultado do mix de
obras; e o vento a favor, por conta do cenário macroeconômico e o crescimento
dos investimentos em infraestrutura, indica que o futuro é igual a R$ 19
bilhões.
Tudo
bem um texto sem Greta Thunberg, Jamie Margolin e Odenilze Ramos? Mas não é matéria de Economia?
Nada
disso. O mundo mudou. Direitos e deveres agora são propostos, tuítados,
retuítados, debatidos e reclamados no mundo todo. Sendo a Terra uma só, o clima
é outro, bicho.
Que fim
levou o meu cavaquinho?
Parágrafo
a parágrafo, fui lendo de novo. Cadê o número de vagas oferecidas? Cadê o
número de mulheres e de homens que foram contratados?
Todavia,
e não digo isso pelo tombo que levei, quem não tem lebre enfia o gato na tuba.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 22 de setembro de
2019.