E aí, Mané, conhece palavra com 27
letras?
Defenda-se, pois a pessoa não precisa responder
mesmo que saiba a resposta; pode preferir ir ao banco pagar os seus boletos porque
isso é demonstração de lhe ser providencial bater-se pelo controle.
Responsável pelo que pensa de si, ainda
que escolha não dizer que palavra é constituída por 27 letras, seu ensimesmamento
acarreta que censura gente folgada, mesmo que isso implique que o silêncio é mais
que uma máscara de proteção.
Sentir-se controlado deixa-o em paz com
sua agressividade latente, embora o acusem nervosinho, achem-no bem desaforado,
julguem-no mui deselegante, pois, justamente pelo rancor, não faz graça.
Poder-se-ia induzir que essa paz marca-lhe
a soberba, embora seja crível o oposto, que o silêncio funcione como sintoma da
vaidade.
A pessoa quer preservada a intimidade,
quer-se protegida, portanto trata de cuidar do que lhe seja importante; e fá-lo
precisamente porque isso, ficar em silêncio, indica que nem tudo merece
atenção.
Ô neura! A carência alheia que lhe
continue alheia.
Pelas veredas da paranoia, adeus
mistério, porque quem fala à toa é gente vil, a querer desviar o foco, disposta
a fazer a gente de trouxa, portanto, pergunte-se, que prêmio advirá das 27
letras?
Inconstitucionalissimamente e
electrofototermoterapêutico, as duas têm vinte e sete letras, mas a segunda é
uma segunda fria.
Segunda-feira, aliás, é palavra com treze
caracteres.
Passando à má sorte: quem nunca passa
debaixo de escada conta com que o pintor não controle totalmente o pincel,
tanto que é possível ser mensurada a chance de os respingos caírem no boné de
quem se descuidou, ainda que o letreiro receba os últimos retoques:
MORANGO DO AMOR POR VINTE MANGOS.
Mané, este letreiro tem vinte e sete letras!
É burrice não anotar as informações que
o mundo oferece sem lhe cobrar uma pila, pois toda informação tem valor, seja
pela utilidade no momento certo, que isso revela conhecimento, seja pela
monetização, que isso qualifica o trabalho, provando por a mais b que gente
esperta não é burra, pois a pessoa passa a ter conhecimento de si.
A pessoa sabe quem é, sabendo-se pela
malícia, pela esperteza do cálculo, por ganhar a vida fazendo o que gosta. E tal
pessoa dará valor ao que gosta quando topar fazê-lo por amar-se.
Porque a pessoa ama, ela pira quando a
perda é impossível de ser reparada. Ela se remorde como o diabo se a fortuna calha
de parar nas mãos de quem não aproveita a situação.
Por valorar o que carece da estima que ainda
não sente, memorize que a segunda mimoseia-o com esta palavra da língua
portuguesa com 46 letras: pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico.
É para isso que existe o Google?
Ora, Mané, é pra que este escriba
lambuze o teclado com morango do amor, pois ele ama essa trabalheira que é dar
água na boca.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de julho de 2025.