terça-feira, 22 de julho de 2025

A aparição

 

A aparição

 

Eu começara a comer uma maçã quando a campainha soou. Como não sou antissocial nem mão de vaca, passei a mastigar com todos os dentes, saboreando de tal modo a minha sobremesa que a pessoa que chegou sem aviso prévio constatasse o quanto me era agradável a sua chegada.

Fui gentil, indiquei a casa de fulano. Falei de boca cheia; entretanto, para não desperdiçar um teco mínimo da fruta, coloquei a mão livre na frente da boca. Fui educado, pois é de bom-tom não realçar qualidades incertas, pois o endereço procurado fala que tipo de negócio o sicrano almeja empreender.

Se eu acentuasse o quão deletério é o comportamento dos vizinhos da frente, isso diria de mim que sou um cidadão atento, mas o tocador de campainha em hora imprópria simplesmente provou-me que estava certo sobre mim, pois o meu silêncio atestou o quanto é exitoso o culto aos bons modos que aprendi.

Educaram-me: a castigo merecido, recompensa admoestatória.

Ensinaram-me: a correções compulsórias, prazeres reprimidos.

Se a mim bem me compreendo pelas minhas ações, sou o beltrano que os meus pais prepararam-me a sê-lo, sem que me dobre o instinto, posto que não me gabo da boa educação que mereço socializar.

Fui útil a quem me procurou e fui sensato ao avaliar-me, que a tarde siga indiferente a regozijos que sequer poderia esboçar ao sorrir.

Voltando à louça por lavar, só a mim o sorriso diz respeito, pois vou trabalhar em prol da minha autoestima, porquanto vivo domiciliado num lar onde os talheres, os pratos e o copo repousarão, lavados e limpos, no escorredor.

Mal eu sentara para assistir ao noticiário da tevê quando o telefone tocou. Como bom-moço que pretendo ser, atendi ao terceiro toque.

Perguntaram se havia um automóvel cor de gelo parado à porta da minha residência, impossibilitado de responder com responsabilidade, pedi que esperassem.

Fui checar e fiz a seguinte descoberta: no lugar do carro cor de gelo, estacionaram uma carrinha de mudanças.

Tornaram a perguntar se havia um funcionário de cabeleira ruiva, e isso me fez pedir novamente que aguardassem.

Fui e constatei que não havia um ruivo entre os funcionários, e isso bastou para afirmarem que o dito cujo de cabeleira rubra virara cinzas, por combustão espontânea.

Educado, não ri daquela bobagem supostamente humorística.

Entretanto gentil, desliguei desejoso que a tarde fosse benfazeja ao interlocutor, embora, para meu desconsolo, o telefonema dificultou-me de compreender a notícia sobre esse político que, por hora, está a levar uma tornozeleira eletrônica.

De longe, a tevê mostrou o que me pareceu uma pantomima, e isso me fez engulhar, pois palhaços revelam o ser humano pusilânime que não há de se vangloriar deste atavismo.

Regurgitei, assim me vi forçado a bochechar com o antisséptico ao qual recorro quando tenho rebeladas as entranhas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de julho de 2025.

domingo, 20 de julho de 2025

Aniquilamento

 

Aniquilamento

 

Segundo o que registra o trambolho na praça, a prova da existência do inverno são os dez graus. Já as blusas comprovam que o meu corpo sente que, nesta quadra do ano, a Terra roda mais longe do Sol. Agora, ao juntarmos a temperatura baixa e a impotência pra ocultar o desastre que é a minha tentativa de ligação à moda, leitor, sem redobrar esforço, você há de reparar o quanto estou cosmicamente ridículo.

De pouco vale que não tolere as minhas parcimônias: se meia de lã e tênis dão proteção ao pé direito, a unha encravada do dedão do outro pé sabe como me constranger, porque, sem sequer uma meiazinha de algodão, calço um chinelo de dedo.

Não me dói o dedão, doo-me à altivez, pois olhares certeiros dão no pé exposto ao universo. Todavia, não bato em retirada, uma vez que eu a compreendo, máquina implacável, percebo o seu jogo, topo jogá-lo, eu anseio pelo próximo lance.

Não me desespera não ter esperança, que a sua realidade é a mais pura demonstração: cosmo, você é perfeito, logo não há motivos para que me disponha a mudá-lo, aprimorá-lo, redesenhá-lo evoluído.

Resfriado, eu é que preciso de cama, sopa e remedinhos.

Porque o peito carregado precisa de xarope e a minha sinusite será curada com anti-inflamatório, e, não tendo tais farmácias em casa, eis-me na praça às dez da manhã.

Se eu estivesse equilibrado, o meu cérebro não estaria funcionando contra mim: estou parado na praça, o pé esquerdo enregelado pelo frio da manhã, os olhos cravados nos anúncios que se revezam, a cachola me dizendo que estou sendo ludibriado, pois são dez os graus Celsius que o termômetro aponta, sendo que os estou sentindo menores, uns seis graus, quiçá, com benevolência, uns oito.

O inverno é real; o frio é real ― logo, não estou caduco.

Mesmo que me ache um fantasma na máquina, não emperro eixos, polias ou a gravitação universal. Ao fim e ao cabo, posso tossir, posso expelir catarro, posso xingar a mãe de todos os vírus, posso isso e algo mais, só que isso, que posso e faço, é em vão.

Pessoa que me lê, leitor ou leitora, estamos de acordo quando digo que o corpo humano não possui a constituição técnica para entender o mundo com isenção?

Mesmo que eu esteja com unha encravada, falto ao bom senso que leva as pessoas a rirem à socapa pela estupidez de eu exibir na praça um pé inapropriado pra ocasião.

Pessoa amiga, não fico pê da vida nem pelos dez graus apontados no painel nem por ele não parar de oferecer um SUV, um duplex com quatro suítes, um cruzeiro all-in para Búzios.

Proliferam os gérmens da incivilidade, uma vez que tenho apenas um galo pro xarope mucolítico, broncodilatador e barato o bastante pra não faltarem quireras pro paracetamol com pseudoefedrina.

Detonados os inimigos do bem-estar, acho a resposta: não votei em quem deu por bem instalar o trambolho que toma o lugar do banco que havia debaixo do ipê amarelo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de julho de 2025.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Lógica impecável

 

Lógica impecável

 

Dos meus irmãos, o Adamastor é quem mais me dá motivos para admirá-lo. E minha admiração por ele chega a me pasmar quando vejo que ele faz o que faz sem se esforçar em parecer espontâneo.

Até quando faz careta ao tomar laranjada, porque nem nota que faz o que faz por ser uma pessoa verdadeiramente boa, o Adamastor é um sujeito que precisa de açúcar, mesmo que a laranjada esteja adoçada, ele põe mais uma colher.

Seria óbvia minha confissão, que eu invejo a honestidade com que o Adamastor encara a vida, pois ele é mesmo um sujeito cujas atitudes mostram o quanto põe cuidado ao falar, até porque, se não relutasse, me enrascaria com o que eu falo; se deveria ser responsabilizado pelas pequenas loucuras, sim é claro que eu devia.

Confesso que não me agrada ser responsabilizado por deslizes que me tornam um pequeno bobo, ainda que eu lhe tenha dado de presente de aniversário uma camisa havaiana, com tucanos e flores, muitíssimo colorida, como se houvesse inveja nisso de querê-lo cafona.

Teve o Natal quando quiseram socar minha cara porque lhe dei um doberman, mas só as minhas irmãs gritaram, deram fim no cachorro e pediram, com empurrões, que eu sumisse.

Segundo elas, eu deveria ter previsto que um doberman provocaria pânico, mas, caramba, já se passaram décadas desde o ataque. Com as suas mais profundas cicatrizes disfarçadas pela barba, ele é homem maduro, é pessoa controlada, que toma seus ansiolíticos.

Ele sabe que faço o que faço porque não faço por mal, mesmo que lhe dê camisas havaianas que eu acho horrorosas.

Por amar as filhas, ele não mistura vinho com o passado.

Adamastor é prudente; quando o mundo segue como pode, não se lamenta, faz o que faz para se arrepender o menos que possa.

Ele percebe o que vê, parece que sabe quando vou desabar; então, o verdadeiro Adamastor conta com que me encharque de cachaça, que eu brinque com fogo e prove para todo mundo que sou um estabanado, um desastrado, um celerado que precisa de gente como ele, gente que pede prudência, sendo o irmão amoroso que acode, alivia dores, cura minhas gasturas, fazendo com que me sinta invejoso, me sinta o verme que se recusa a desabrochar, me transformar em libélula.

Sou um camarada no escuro, mas basta uma vela pra iluminar.

Todo mundo diz o que o Adamastor não diz, que a minha desgraça é eu próprio me prejudicar como se fosse meu destino ficar reclamando que o mundo me impede de ganhar dinheiro, que eu deveria confessar que ter estabilidade é que me fará bem menos ranzinza.

O Adamastor faz com que as pessoas acreditem que o trabalho de cada um é achar aquela alma que o complete, porque a verdade é que almas gêmeas realmente existem.

Pela lógica: porque a inveja tem origem na cama, a culpa é minha; me falta quem abra os meus olhos; que eu poderia parar de dormir com essa gente que nem me fala que camisa havaiana nem é pijama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de julho de 2025.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Conhecimento do amor

 

Conhecimento do amor

 

Com o ombro recostado no batente, a mulher mais alta bebericava o café que a outra tinha acabado de coar.

― Você tem que acertar comigo, Amália.

― Hoje não tem como pagar você. Paciência por mais um dia, que vou ver se a mãe da Ana Beatriz me paga, porque o baile já foi e nada de eu receber.

― Você é difícil de aprender. Quando aceitou o pedido, deveria ter cobrado a metade.

― A Marinalva é gente honesta. Nunca que eu ia desconfiar que ia levar um cano desses.

― Ainda mais de gente boa, né, Amália?

― Sim, Amanda, é mais doído quando o tombo vem de uma pessoa como a Marinalva, que nunca ninguém disse um senão sobre o caráter dela.

― Se ninguém nunca disse um senão, ela é honestíssima.

A mulher mais velha levantou-se e, depois de só passar uma água, pôs o copo no escorredor.

― Agora eu vou ter que sair, Amanda, porque o Alberto pediu que eu pegasse uma receita com o doutor Siqueira.

― O doutor Siqueira é outro, ele é um crápula que vive dessa sem-vergonhice de passar receita por fora.

― O Alberto tem dormido melhor, só acordando com o despertador, ele já não fica virando na cama nem vai urinar no escuro.

― Benfeitoria que não isenta o doutor Siqueira, Amália, porque ele viaja pra Disney e vocês nem conseguem pagar o dinheiro que ajuda vocês a darem descarga de madrugada.

― Só que não precisa ficar jogando na cara, porque eu vou te pagar amanhã. Eu recebendo pelo vestido, te pago. Amanda, eu juro.

Até aposentar, o pai de Amália e Amanda foi ascensorista no prédio comercial onde funcionavam escritórios de advocacia e contabilidade, além de consultórios de oculistas, dentistas e psicólogos. Sendo que o único psiquiatra no local era o doutor Siqueira, que vinha a ser o dono único daquele edifício de sete andares.

O doutor Siqueira tratava do pai de Amália e Amanda, mas parecia que o estimava. Então gentilmente o doutor Siqueira não cobrava pelas receitas que passava ao pai de Amália e Amanda.

Amália e Amanda sabiam, porque tinham como saber, que o doutor Siqueira era um homem bom, precisamente porque enviava buquês às duas, junto enviava uma caixa de bombons, justamente porque ambas eram casadas, tinham filhos e não iriam provocar escândalo sobre os buquês de rosas e os bombons de licor, pois o doutor Siqueira era um homem aprumado, um defensor de batismo e crisma, era viúvo dessa dona que preferiu que, tão logo o médico passou a frequentar a missa das dez, o jardinzinho do lar fosse destruído por saúvas.

Quando as abluções o põem ébrio pelo que vê no espelho, o doutor Siqueira acha que uma pessoa é mais que um rótulo, mas qualquer um pode iludir-se, pode querer o rosto molhado, pois os outros festejam a identificação, aplaudem-se, ainda que digam que não gostam de rosas e bombons, mesmo que peçam por bombons e rosas, eles outros que achem que o psiquiatra merece o amor cativo, seja o da Amália e o da Amanda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de julho de 2025.

domingo, 13 de julho de 2025

Os anjinhos do papai

 

Os anjinhos do papai

 

Outra madrugada daquelas. Tem feito frio e é normal que faça. Mas, acordei às quinze pras quatro. Desde que a dor de garganta pegou pra valer, estou sem dormir. Não durmo há quarenta e quatro horas. Eu não estou gostando dos pensamentos. Parece que a cabeça quer que eu tenha ideias esquisitas. Deveria ter tomado os meus remédios, pois as horas sem dormir estão fazendo efeito. Eu podia ter enchido a cara, aí o sono me pegaria e daí nem teria percebido esse poder estranho que eu tenho para sucumbir nas coisas ruins.

Outras coisas ruins vão acontecer, estão para acontecer. Eu sei que estou metido nisso, e isso será ruim pra cacete. Não tenho como parar a engrenagem e os pensamentos vão indo por vias sórdidas, isso não é problema meu, é da mente e toda cabeça boa sabe que ninguém fica no controle o tempo todo.

Ouço o baque de quem pulou o muro de casa. Não tenho cachorro no quintal, mas tenho a mim e isso é muito pior.

Já tenho pena de quem está vindo. Não sou nada fácil, não paro no meio do que estou fazendo. Se me dispus a fazer o que seja, não paro fácil. Se não estou bêbado nem chapado, sou problema a quem acha que finjo que estou medicado. Tenho tomado os barbitúricos, eu só não tomei hoje por causa desta sinistra dor de garganta.

Ouço, o cara mexe na maçaneta. Tomara que abra de vez, que isso de esperar enerva e não fico bem quando bate a ansiedade.

Tenho que minhas garras estão afiadas, e o bote será fatal. Não vai ter luta nem rolaremos no chão. Não gosto de chão frio, e eu já apaguei no chão da cozinha um montão de vezes.

O cara deve ser novo no pedaço. Vai pagar por não saber quem eu sou, pois eu sou pacato, um cara bacana que gosta de papear, alguém que não gosta de problemas, um cara que toma remédios pra não virar problema para as pessoas. Então, quem mexe na maçaneta nem devia ter vindo me roubar, pois serei a pessoa sensata que vai precisar dar jeito na coisa.

Não gosto de rotular ninguém, mas o sujeito vir roubar uma pessoa que não faz mal a ninguém, isso o torna um babaca e eu não gosto de babaca. Porque gente assim se acha esperta, capaz de se safar, mas sou o cara certo para dar o corretivo que ela nem espera receber.

Quem é esperto teria vigiado a casa, teria observado a minha rotina, teria se inteirado por qual motivo as janelas de casa não têm grades, e o babaca não fez nada disso, ele sequer deu o melhor de si.

Querer roubar a minha casa não é problema meu, mas dar um jeito no cara é um problema de fácil solução: levarei o corpo pelo rio.

Quando o cadáver der na margem, vai ter investigação, acharão as respostas e acabarão por descobrir o que houve.

E eu deitarei de bruços, porei as mãos às costas, não darei um pio, serei dócil, pacato como sempre, não direi pra que time eu torço ou se estou devendo no bar, assoviarei uma vez e eu terei a minha apoteose: hão de brilhar os meus pitbulls criados a leitinho de mandioca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de julho de 2025.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Pedágio

 

Pedágio

 

Pela simples razão de estar lendo, o lugar menos indicado para que a prática não sofra intercorrências é a biblioteca. Luiz Rosa, entretanto, está sentado à última mesa do fundo. As suas mãos sustentam o livro em inclinação suficiente para que a claridade que entra pela janela às costas seja útil. Conversas e toques de telefone convencem-no de que a permanência é um erro, mas o volume tem que ser mostrado.

De segunda a sexta, ele vem, chega mais ou menos às oito e meia, senta-se à mesmíssima mesa. Por uma hora e meia, segue seguro de prosseguir com a leitura. Dá-se uma semana para que a sua rotina não resulte em fracasso, pois a capa precisa ficar exposta.

Pelo óbvio motivo de ter doado aquele título, Luiz Rosa faz questão de estampar no rosto a contrariedade com Nelson Rodrigues, uma vez que a obra em tela é O Reacionário.

Porque regras mostram-se válidas quando quebradas, felizarda é a pessoa que pode contradizer-se com estardalhaço, pois “o verdadeiro grito parece falso”.

Ou seja, sussurro também perturba o camarada que espera ler em silêncio, pois a pessoa que elege a biblioteca como o lugar certo para ler também sabe ficar perturbada, sabe espumar de raiva, até porque, conforme o Reaça, “o que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Não sei se repararam. Cada um de nós é um Narciso às avessas e, repito, um Narciso que cospe na própria imagem”.

Sem cuspir no livro que lê, o embuste mais ululante para Luiz Rosa é ele, uma vez por ano, em julho, no mês do recesso escolar, vir ler O Reacionário diante dos estudantes que se recusam a deixar de realizar pesquisas nos computadores.

Como prova de que biblioteca existe para que diferenças venham à luz sem dedada no olho, Luiz Rosa vem da rua sem ter escarrado, vem trazendo a leveza necessária para esquecer o bebum mijando no muro lateral do prédio, vem pelo prazer de começar a ler o Nelson Rodrigues das confissões, apesar das dancinhas nos celulares.

Luiz Rosa arregala os olhos e, parodiando Nelson, excita-se: “sou uma vítima da estagiária de calcanhar sujo, por que eu as trato com o máximo de misericórdia”?

Meu Santo! O leitor reforça a imagem que faz dos estudantes, pois eles, como as estagiárias, são capazes de coisas alarmantes.

Um deles vem à mesa para dizer que a pessoa ler um livro chamado O Reacionário é mesmo um camarada nojento, um sujeito repugnante, um comunista.

Pelo amor a quem o espanta, pois “amar é dar razão a quem não a tem”, Luiz Rosa engole a saliva e franqueia que é “dos tais que cultivam, até hoje, um funesto preconceito contra o telegrama”.

Por saber lidar com celular, o aluno não entende, e o Luiz Rosa tira proveito da incompreensão, porque, ao receber um, “imagino que uma calamidade vai desabar sobre minha cabeça. E vamos e venhamos ― o telegrama, até que se prove a sua intranscendência, é uma janela aberta para o infinito”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de julho de 2025.


Obs. - Todas as aspas são de Nelson Rodrigues.


terça-feira, 8 de julho de 2025

Contrapé

 

Contrapé

 

Interessante a mim, neste momento de calmaria na vizinhança, é a observação de que a realidade finge cochilar, dando o recado que viver menos afobado é vivenciar sonhos que não viram pesadelos.

Embora não pareça urgente sair da cama, já que me sinto o vizinho tranquilo que sempre quis ter ao lado, certo de que não possuo a mente capaz de reverter o curso do sol, pisei o chão com o pé direito.

Pisei-o com o pé errado e pisar errado é trazer para mim o azar que não desejo irradiá-lo, mas alguns dos afazeres do dia precisam que me relacione com outras pessoas.

Uma vez que comecei o dia com o pé aziago, as demais pessoas, que talvez pressintam a razão de serem vitimadas pelas desventuras quando perto de mim, elas continuam afáveis, tentam ser agradáveis, querem vender-me o que precisam vender.

Para ter o dia chancelado como exitoso, os outros, porque pisaram o chão com o pé que ajudaria a atrair as energias de gentes positivas, talvez tenham que refazer os cálculos, atribuindo ao acaso a carga que as tenha afetado negativamente.

Por que considero relevante a possibilidade de não ser eu a causa provável do desequilíbrio de terceiros?

Desconsidero, porque meu pé direito não tem esta potência.

Se fosse realmente um sujeito de patada atômica, eu teria vingado como jogador, teria vencido campeonatos, teria na sala uma prateleira com troféus, teria virado o medalhão que dá pontapés iniciais a muitos amistosos, seria lembrado pelas vitórias dramáticas que só um craque para tê-las protagonizado, eu deveria ter sido batizado Rivelino.

Todavia, ensinou-me a vida que tenho dois pés direitos: o de carne e osso que chuta as chapinhas das calçadas e o do pessimismo que a mim me ampara quando titubeio.

Entretanto, falho quando preciso atrair a energia benfazeja de gente que nem se dá conta do quanto tem sorte por viver a vida sem dar bola para superstições.

Os dias têm a pachorra de testar-me com uma escada no meio do caminho, um gato preto cruzando a rua, uma sexta-feira treze.

Em todo caso, faço o que creio ser possível para afastar desgraças: não abro guarda-chuva dentro de casa e não uso chinelos virados para captar as minhas insônias.

Agora que tanta gente atribui a mim os seus infortúnios, mesmo que admita que eu nunca quebrei espelho e sequer recordo ter presenciado que outra pessoa haja quebrado espelho algum, prefiro culpar-me pelo pé direito.

Preciso culpar-me por ter virado o chinelo assim que tentei evitar o erro de pisar com o pé errado, pois o corpo tentou contrariar-me, e pisei querendo recuar.

Agora compreendo por que tanta gente não tem como evitar a ideia de que sou eu a razão dos meus infortúnios, porque não vou negar que pisei recusando-me a pisar com o pé direito, seja de qual pé esteja me referindo, já que ambos fazem de mim um otimista.

De tão otimista, confesso que me sinto péssimo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de julho de 2025.

domingo, 6 de julho de 2025

O justo não descansa

 

O justo não descansa

 

Com a árvore inteira para chamar de sua, o casal de maritacas teve de nidificar no telhado da minha casinha? Com o abacateiro carregado, as espalhafatosas tinham que tagarelar a manhã todinha? Com o livro no começo, bem no comecinho, comigo impaciente pra seguir preso à página dois, o melhor seria eu fechar o romance?

Foi o que fiz: desci do abacateiro; depus o volume na mesinha; vim pra cadeira, vim balançar na varanda.

Vim num pé, pois a balbúrdia era irritante.

Tanto eu fui esquentando que fixei a ideia de que tinha de dar fim àquilo, porque eu tinha uma espingarda de caça. Bastante importunado pra usar a munição que fosse necessária, eu não me criticaria por ficar disparando até matar as baderneiras.

Uma pessoa boa, gente que pensa que a vida é sagrada, mesmo a que tem bico, voz esganiçada e não saiba o quão é enervante escutar o escarcéu das matracas, faltou ao caçador de mira míope o desfecho, que, ao primeiro tiro, essas bichinhas escafeder-se-iam.

Por ser racional, compreendo que não é bom matar maritacas, pois balas não são sagradas; nem é sensato desperdiçar balas, porque tiros errados são uma grana que podia ser usada para comprar livro.

Livro não é coisa sagrada, é investimento. Quando não compro um gorro de lã, a mensagem é que a leitura aquece-me o coração, a alma, pois um gole de café pode aquecer as mãos que seguram o romance, a manta sobre as pernas pode manter-me bonitinho durante as horas que passo na leitura, mas o valor do objeto que me entretém e diverte não há de ser medido pela dívida em parcelas do meu cartão.

Em dívida com o que não li, peço mais. Quero comprá-los, empilhá-los na escrivaninha, até a pilha pegar poeira e começar a pender, tanto que protejo os livros pondo a pilha no guarda-roupa.

Pra ter espaço pros livros, mais e mais eu doo roupas. Sem hesitar, passo pra frente as bermudas que não usarei. Não bobeio, pois eu sei que as manhãs têm sido geladas e ninguém será imprudente para sair de bermuda antes do almoço, pois depois a temperatura sobe e o sol brilha nas pernocas de fora, um sucesso.

Quando posso ser solidário, eu me sobressaio. Quando mereço ser aplaudido pelo destaque, eu padeço que invejem. Quando reconheço a beleza do que faço, aplaudo quem me calunia e difama e injuria, pois o que alegra o invejoso é incensar, e o sorridente sabe que merece ser aplaudido e sente que lisonjeiro é ser invejado.

Digo isso porque nem antibiótico cura minha veneração pelo doutor Fafá, porque Alberlindo Fagundes vive pra arrecadar fundos.

Sendo justo garantir a liberdade, ele faz jantares pra que candidatos possam aparecer para pedir voto, pois só tendo muitos candidatos para haver diferentes opções, diferentes projetos, nomes diferentes.

Presidindo o partido há mais de quarenta anos, o doutor Fafá sabe que nunca vai desistir de lutar pela democracia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de julho de 2025.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Louvação

 

Louvação

 

Quando vi as roupas na vitrine, parei. Como costumo ser desligado, perguntei à vendedora se vendiam cuecas. Sim, a loja vendia. Pra não entrar à toa, pedi pelo modelo, pela marca e pelo tamanho. Sem sorrir, a funcionária disse que vendiam, sim.

Vi penhoares nas araras, pedi que mostrasse pijamas. Ela mostrou alguns, eu compraria um de algodão, mangas curtas e shortinho. Voltei a sorrir, mas não me justifiquei, que bicicletas o estampavam.

Em instante algum a funcionária me deu mole, até porque não sorri para seduzi-la ou usei o sorriso como confissão da besteirinha, que vou sonhar com o prazer de pedalar, a passear ao léu.

Como paguei à vista e em espécie, achei que podiam dar desconto. Fiz bem, pois economizei seis por cento. Agradecido pelo abatimento, sorri, mas a caixa se despediu formal, sem acabrunhamento.

Apressadinho, carregadinho de sacolinhas, fui pelo declivezinho da Quinze pra Rua da Bica.

Santo fraternalmente sensível, São Pedro não me pôs na roda nem me esquartejou, apenas me concentrou nas pessoas que, cinco metros adiante, desciam do ônibus.

Surpresa com minha palhaçada, no cerca-galinha às dez da matina, a moça que subia desviou-se, que só consegui não cair porque a mão esquerda, espalmada no poste da esquina, salvou-me do vexame.

São Pedro, São Pedro, não lhe bastava o vento friíssimo, ao senhor não bastavam os nove graus, tinha que me levar a pisar no buraquinho do meio-fio, São Pedro, São Pedro, tinha também que tornar um sabão o asfalto com uma finíssima garoinha?

Doidinho para mandar pros quintos qualquer unzinho que inquirisse se eu estava bem, à moça que escapou do encontrão só consegui dizer o óbvio, que não foi nada, que eu só torci o pé.

Com o pé torcido, o tornozelo latejando e uma vontade de rir porque precisava urgentemente desapegar-me desse sentimento de ser outro pobre-diabo que não tinha de me achar vítima do azar, pois estava indo pedir esclarecimentos, que eu tinha direito de reclamar.

Fui cobrar providências, uma vez que o wi-fi não voltou à velocidade que tenho contratada. Realcei que o novo aparelho tornou dificultoso o ajuste do serviço. Só não relatei que o técnico julgou certo compartilhar o seu descontentamento com a empresa.

Louvado seja, meu santo São Pedro, pois agradeci que agendaram a visita técnica pra dali a uma semana, pois compreendi a necessidade de dar um tempo para que fossem por aí o vento frio, os nove graus e a garoinha que deixava o asfalto um sabão.

Como o mundo é vasto e a vastidão é fascinante, meu solidário São Pedro, louvo-o por sua misericórdia, uma vez que o senhor fez amenas a dor no peito do meu pé esquerdo e a dor crônica no tendão de Aquiles da perna direita.

Louvado seja, santo danadinho, meu propofol sem tequila, uma vez que, feito bicicleta sem freios, desatinei-me naquele garoto de coração vertiginoso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de julho de 2025.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Haja o que houver

 

Haja o que houver

 

Perdoe-me, começarei pelo meu processo de escrita: pego o papel, pego a caneta, sento a bunda na cadeira, rabisco a ideia, ou a palavra, que me fez pegar papel e caneta para registrá-la.

O pedaço de papel pode ser qualquer um e eu possuir apenas uma caneta me exoneram de outras especulações sobre o papel e a caneta, pormenorizo, porém, o ato de escrevinhar.

Escrevinho em pé quando só preciso anotar uma única palavra, por ficar nisso, só no registro da sua forma, sem me dar comichão de bolar uma história, arquitetar circunstâncias, contrariar-me pela perspectiva adotada, imaginar significados pra dita palavra, verificar que acepções o pai dos burros tem abonadas, assim, escolho viajar sentado quando as ansiedades fazem-me conectar veredas, põem-me espantado com abismos, secam-me a boca se não sussurro o ponto final.

Já que ultimamente não tenho sussurrado com facilidade, postergo a admissão de que o esgotamento tem-me angustiado com frequência assaz inquietante.

Poderia a gracinha de considerar o esgotamento como ocorrência puramente física, feito caixa d’água que precisa ficar com o mínimo de água para que seja realizada a sua limpeza.

O esgotamento é físico e mental, porque meu corpo pensa e minha mente tem fadiga, e não há banana com aveia que reenergize a minha disposição pra digitar o ponto final necessário e preciso em muitas das crônicas que escrevi neste trimestre.

Acolhido o juízo que o esgotamento a que me submeto não hei de superá-lo com piaçava e lambidas, debruço-me sobre o teclado, adoço a boca com murmúrios, entrevendo-os como sussurros, porque não os instituo como prenúncios do necessário e preciso ponto final que posso querer quando a crônica me possibilita que o vislumbre próximo.

É isso, as palavras conversam comigo, brincam, jogam, pedem que as trate bem, que não as tome como ídolos, que vulgarize o que houver de vulgarizar, que as diga aprazíveis, desfrutáveis, apetecíveis, que as ponha e disponha como quem as ama, quem as aprecia amantes, que as trata com bombons, licores e conchinha.

A crônica sussurra, mordisca os meus lóbulos, lambe meu pescoço, faz com que eu abra os olhos, faz com que eu a admire no esplendor de sua beleza, e eu me submeto.

Submisso, deixo que a palavra me puxe para a próxima palavra, eu me deixo mergulhar nas águas que a crônica me dá de beber, não me quero um escafandrista, sinto-me amante de pérolas a mergulhar sem tubo de oxigênio e sem óculos, pois a língua serpenteia sobre a areia do fundo, varre, sonda, me entusiasma, me encanta desvelar a palavra necessária e precisa.

Então, o esgotamento é feito de acumulação, acomodação, ajustes, de pequenos tremores a revelar fissuras e a compactar fendas, para que a saliva da minha boca seja uma recompensa efêmera, pois a próxima crônica será outra, será a que tiver de ser.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de julho de 2025.