Com o ombro recostado no batente, a
mulher mais alta bebericava o café que a outra tinha acabado de coar.
― Você tem que acertar comigo, Amália.
― Hoje não tem como pagar você. Paciência
por mais um dia, que vou ver se a mãe da Ana Beatriz me paga, porque o baile já
foi e nada de eu receber.
― Você é difícil de aprender. Quando
aceitou o pedido, deveria ter cobrado a metade.
― A Marinalva é gente honesta. Nunca que
eu ia desconfiar que ia levar um cano desses.
― Ainda mais de gente boa, né, Amália?
― Sim, Amanda, é mais doído quando o tombo
vem de uma pessoa como a Marinalva, que nunca ninguém disse um senão sobre o
caráter dela.
― Se ninguém nunca disse um senão, ela é
honestíssima.
A mulher mais velha levantou-se e,
depois de só passar uma água, pôs o copo no escorredor.
― Agora eu vou ter que sair, Amanda, porque
o Alberto pediu que eu pegasse uma receita com o doutor Siqueira.
― O doutor Siqueira é outro, ele é um
crápula que vive dessa sem-vergonhice de passar receita por fora.
― O Alberto tem dormido melhor, só
acordando com o despertador, ele já não fica virando na cama nem vai urinar no
escuro.
― Benfeitoria que não isenta o doutor
Siqueira, Amália, porque ele viaja pra Disney e vocês nem conseguem pagar o
dinheiro que ajuda vocês a darem descarga de madrugada.
― Só que não precisa ficar jogando na
cara, porque eu vou te pagar amanhã. Eu recebendo pelo vestido, te pago.
Amanda, eu juro.
Até aposentar, o pai de Amália e Amanda foi
ascensorista no prédio comercial onde funcionavam escritórios de advocacia e contabilidade,
além de consultórios de oculistas, dentistas e psicólogos. Sendo que o único
psiquiatra no local era o doutor Siqueira, que vinha a ser o dono único daquele
edifício de sete andares.
O doutor Siqueira tratava do pai de
Amália e Amanda, mas parecia que o estimava. Então gentilmente o doutor
Siqueira não cobrava pelas receitas que passava ao pai de Amália e Amanda.
Amália e Amanda sabiam, porque tinham
como saber, que o doutor Siqueira era um homem bom, precisamente porque enviava
buquês às duas, junto enviava uma caixa de bombons, justamente porque ambas
eram casadas, tinham filhos e não iriam provocar escândalo sobre os buquês de
rosas e os bombons de licor, pois o doutor Siqueira era um homem aprumado, um defensor
de batismo e crisma, era viúvo dessa dona que preferiu que, tão logo o médico passou
a frequentar a missa das dez, o jardinzinho do lar fosse destruído por saúvas.
Quando as abluções o põem ébrio pelo que
vê no espelho, o doutor Siqueira acha que uma pessoa é mais que um rótulo, mas
qualquer um pode iludir-se, pode querer o rosto molhado, pois os outros festejam
a identificação, aplaudem-se, ainda que digam que não gostam de rosas e bombons,
mesmo que peçam por bombons e rosas, eles outros que achem que o psiquiatra merece
o amor cativo, seja o da Amália e o da Amanda.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de julho de 2025.