Por causa da pista molhada, o ônibus ia lento
pela avenida.
Ramona não entrará pela porta, mas eu tenho
que seguir em frente, preciso deste emprego. Tenho que ganhar a vida como
sempre ganhei, vou seguir trabalhando duro, trabalharei a mais, farei as horas
a mais que forem necessárias. Precisado de juízo, trabalharei a mais para não
perder o bom senso. Manter a cabeça focada em outra coisa ajuda a esquecer aquela
falta. Claro, claro, não farei a desfeita de negar que o dinheiro extra vai
ajudar pra caramba, vai dar pra levar as meninas no shopping. Elas tinham a
quem puxar, elas têm essa alegria de remediar as dificuldades com blusinhas que
usarão só nas festas, então, assim que chegar o Natal, vão me cobrar blusinhas
novas, pois elas duas, da noite pro dia, decidiram crescer, andam espichadas.
O ônibus não estava completamente vazio,
havia mais lugares que passageiros, que esses nem chegavam a uma dúzia.
Aquele cara, por que ele não senta? Com
tanto lugar sobrando, por que não faz como os outros que estão felizes com seus
celulares? Será que o malandro está planejando assaltar todo mundo? Eu não
deveria ter parado no ponto. É isso, foi erro meu. Está na cara dele que a
gente vai ser assaltada. Ele subiu disfarçando, aquele seu boa noite foi coisa
de bandido, foi dito só para me enganar, pra que eu não percebesse a
malandragem. Ele subiu certo de que assaltará todo mundo, daí que o safado nem
faz conta de esconder o rosto. Mesmo de boné e capuz, ele olha pro retrovisor. Tenho
que disfarçar que não percebi a arte do que ele pretende. Mas quem fica em pé em
ônibus vazio só pode estar tramando coisa ruim. Pelo jeito que ele olha, vamos ser
assaltados.
Garoava, e a garoa aumentava a sensação
de frio. Fazia oito graus, mas a sensação era de menos, quem sabe fizesse uns seis
graus.
Ainda bem que o motorista parou ou eu
teria de voltar andando. Se eu tomasse garoa na cachola por mais um minuto, os
quilômetros até a minha casa não iriam me dissuadir da caminhada. Quarenta
minutos são um esforço danado, claro que são, mas estou muito irritado, tanto
estou que o motorista ficar espiando pelo espelhinho é algo que vai me obrigar
a ir até ele pra pedir-lhe que pare. Se bem que posso saltar no próximo ponto, uma
vez que estão passando mais ônibus nesta altura da avenida. Será melhor pra
todo mundo que eu desça, pois não quero confusão, nem comigo nem com ninguém do
busão.
A campainha soou porque uma passageira iria
descer.
Será que ela não viu o ladrão se
preparando pra roubá-la assim que estiverem sozinhos? Será que a infeliz não viu
o bandido escondendo a mão na jaqueta? Deus! O que posso fazer pra impedir que ele
roube o celular que ela nem guardou na bolsa?
Por trabalhar no turno da noite, ela
entrou na lanchonete. Assim que o farol fechou para os carros, o rapaz cruzou a
avenida.
Aquela garçonete não era a Ramona.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de junho de 2025.