quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Boa gente

 

Boa gente

 

Mesmo que as rotulem idiotas, há pessoas que sorriem quando lhes são feitos pedidos. Ficar de braços cruzados não tem graça, melhor é limpar caixa d’água. Sim, dinheiro importa, mas o menor bico é menos estressante que a ociosidade. Pois dez minutos em inatividade é mais exasperante que tirar cinquentinha por trocar um sifão em dez minutos.

Tem gente que vende a imagem de pessoa que não gosta de perder tempo, só não revela que faz tudo às pressas. Sem falar na dificuldade que é encontrar um portão mal pintado que testemunhe a favor dessa gente que vira maria-mole porque tem trabalho duro pra dar conta.

Com a experiência, sempre vem o momento em que o fígado toma a iniciativa de suplicar por alopáticos bem conceituados.

Afora o bom conceito dos seus princípios ativos, pro fármaco chegar a quem demanda uma limpeza quântica das entranhas que as estrelas recomendam, as maiores redes de farmácias sabem ser audazes com a respeitável audiência, ou não contratariam carinhas conhecidas que o público legitima como astros de ilibada magnitude.

Todo corpo de brilho intenso gera campo magnético, mas não basta simpatia a famosas e famosos, para que a atração gere calor e o calor seja transformado em afeto, eles têm que ser subscritores deste adágio elementar: como não machuca o prestígio nem arranha a consciência, dinheiro é chaga boa de coçar.

E gente que adora coçar a bondade alheia sabe integrar-se à fama, fazendo mais relevante quem mereça curtidas contínuas, perscrutando postagens pra que mais pessoas julguem positivamente quem merece que as curtidas sigam em alta, examinando imagens com o objetivo de expandir órbitas, tornando vasto o território iluminado pelos astros que não cessam de evoluir, esculpindo a aura bruta até que venha à luz a alegria deste ser que não enjoa, não entedia nem repele, o ídolo.

Não se trata de “sarna”, trata-se de “generosidade”.

Assim como beijar fotos de gente admirável é uma coisa excelente, replicar gentilezas é rebelar-se contra os amargos, os pessimistas e os reacionários.

Fulcral é denunciar essa turba que não propaga o amor, mas almeja ser agradecida pela mente aguçada. Embora admita trazer um buraco negro na alma, esta chusma adora fazer-se inútil, disfuncional, mão na roda pra atrapalhar quem deseja alçar-se à fortuna.

Aliás, é de bom-tom afirmar que cachê graúdo não impulsiona quem diz que é amoroso não dispensar a ajuda de pessoas solícitas que não conseguem manter-se de braços cruzados.

Eita!

As estrelas são adoráveis justamente porque intuem: quem trabalha pra caramba leva jeito pra fama de não ter vergonha de aceitar a ajuda de mãozinhas colaboradoras.

Alma altruísta, que só sabe ser gentil sem moderação, faça selfies, compartilhe os elogios que lhe fazem, beba sem cara feia a mistura de conhaque, vermute e suco de limão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de setembro de 2023.

domingo, 24 de setembro de 2023

Até parece

 

Até parece

 

A sumida andava pelo corredor como se as vitrines não piscassem quando olhadas com tanto carinho. Só que as vitrines olham dentro da gente, fazem a gente suspirar, fazem com que a gente queira virar os homens vestidos e as mulheres montadas que olham a gente de dentro das vitrines.

A sumida, dona Paloma, zanzava pelo corredor porque sabia que a gente sempre acaba piscando de volta aos homens e às mulheres das vitrines porque a gente também vive para agradar quem passa, porque o reflexo percebia mais do que a gente via.

Mas a gente sabia o que se passava, a gente desejava mais.

A sumida estava na passarela, e a gente queria o mesmo. A exibida pensava que era diferente, a gente achava o mesmo. Mas a diferença é que ela suspirava pelas roupas porque tinha dinheiro na bolsa.

As vitrines olhavam a bolsa da exibida. Reconheciam, a bolsa tinha fama. E todo mundo sabia que era famosa pelo preço. E a famosíssima podia zanzar porque dava na vista o quanto custava.

Os homens e as mulheres das vitrines que estralassem os ossinhos do pescoço, mas continuassem de olho na sumida exibida que tinha o brilho da famosíssima. Pois a bolsa e os olhares sobre a bolsa tinham muito mais importância que a menina.

Lá na frente, a menina dava o dinheiro para pagar a casquinha.

A menina tinha idade para saber que o certo era pagar e receber o troco, pois a moça que vendia sorvete sabia o dinheiro certo que tinha que dar de volta.

Lá na frente, a menina sabia que tudo bem, que ia pagar por outro sorvete e depois outro, até que não restasse troco algum. Ela aprendeu que dinheiro serve pra pagar o que a gente quer. Ela não queria passar vontade, pois não seria mesquinha só pro dinheiro não acabar.

A sumida que não via a menina lá na frente não ligava que estivesse pagando pela casquinha. Não era fingimento, porque a pessoa quando fala no celular não enxerga quem passa ao seu lado.

Embora a menina tivesse passado ao seu lado para ir lá na frente chupar sorvete, ela nunca fez o tipo de gente que usa o telefone para não ver quem passa ao seu lado. Se ela fosse esse tipo de gente, nem teria reparado nos homens montados e nas mulheres vestidas.

Ela reparou. Tanto reparou que ela tirou um chiclete da bolsa. Tudo bem, chiclete podia, cigarro é que não podia por causa daquelas placas que estavam nos corredores, até no banheiro.

A gente que toma refri faz xixi. Até gente exibida faz xixi depois que bebe água. E o xixi sai quentinho mesmo com o refri geladinho.

Ela reparou que a sumida tinha tomado refri fazendo cara de gente que bebia cerveja.

Quem faz esse tipo de coisa é gente boba. É gente que pensa que menina que toma sorvete não entende que cerveja e casquinha não se misturam. É claro que a mistura dá um nó na barriga, faz a gente correr sem olhar pra trás.

Se faria mal de novo?

Palomita, a gente sempre tem piriri depois que toma três sorvetes de uma vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de setembro de 2023.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

A festa

 

A festa

 

Tempo livre é pra esquecer o trabalho, não abrir e-mails, tirar o som do celular. Mas devolver de prima a bola vinda da casa vizinha é alegria a quem se diverte com chute fragorosamente torto.

O cheiro de churrasco é uma tentação, dá até pra adivinhar a carne na grelha. A prosa solta aguça a vontade de ouvir o que falam aquelas pessoas, que devem ter caído da cama porque é sábado.

“Ora, ora, carambolas, que venham mais bolas.”

Sem necessidade de seguir as notícias, sábado é bom. Entre o que se passa na TV e a conversa à toa dos vizinhos, tantos fatos obscuros ficam mais bem esclarecidos ao redor da churrasqueira.

As pessoas opinam, procuram não se entusiasmar mas se exaltam, de repente elas batem o pé de que estão certas. Porque certezas viram verdades, haja bate-boca.

“Perder a folga com discussões? Melhor nem sair da cama.”

Distrair-se com a família em atividades no quintal em dia ensolarado pode ser algo prazeroso, mas não é razoável obstinar-se com o prazer só porque seja sábado.

Se não é preciso correr pro trabalho tão logo abra os olhos, dá para abri-los, encarar o teto pelo quanto quiser e não se lamentar das coisas deixadas para depois.

Mas não é por falta de tempo que coisas postergadas continuarão adiadas, é porque o corpo cansado tem a mente cansada.

“Se der para escapar de servicinhos cansativos, escape.”

Sem a obrigação de ajeitar gavetinhas travessas que emperram em momentos impróprios, é desanimadora a ideia de rasgar contas de luz e água dos cinco anos anteriores aos últimos cinco anos. Além do que, o esforço mecânico dos braços seria enfadonho.

ꟷ Amor, olha a hora.

No feriado mais recente, poderia ter aproveitado de um jeito melhor o tempo que passou pondo óleo nas dobradiças. Só que o rangido das portas incomodavam havia semanas, um mês, então, foi preciso agir, embora não fosse sábado nem domingo, fosse um feriadão belíssimo, com um sol maravilhosamente esplendoroso.

“Se não deseja ter afetados os nervos, não ajuda deixar pra amanhã o que deveria ter sido feito ontem.”

Todavia, encher um saco com papelada inútil não é a mesma coisa que aparar a grama. Verificar que receitas devem continuar guardadas é menos doloroso que levar picada de aranha.

Ainda assim, é sábado.

É sábado, não precisa sentir culpa por continuar na cama. Não tem que ir fazendo aquilo que a consciência determina que seja prioritário. Num sábado de sol, não há nada de errado com quem ignora a grama alta, as caixas de sapato separadas para os novos papéis e o uniforme amarfanhado.

“Quem chega bêbado da despedida de solteiro de alguém da firma tem que se lembrar do bendito nome.”

ꟷ Já se aprontou?

Vá com calma, é sábado. E quem acha que paga o preço da noitada ficando de cueca passa o recibo de pateta. Como a cabeça dói e a azia está de lascar, não hesite, aproveite a ducha, dê aquela relaxada.

ꟷ Tô indo, Amor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de setembro de 2023.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Abençoada

 

Abençoada

 

Até inventarem de enviá-la a um lugar chamado escola, nem ligava que existissem despertadores, calendários e presentes de última hora.

Sabê-los mais do que palavras não a convenceram de que o melhor para a saúde era dormir oito horas por noite.

A desejar aborrecido quem insistia que fosse deitar-se mal a novela das nove começava, o sono era o vilão nessa queda-de-braço, pois ele vinha antes do primeiro intervalo.

Era natural que adormecesse durante o jornal, uma vez que, depois de mil e uma travessuras, bastava fazer carinha de anjo cansado para ganhar o beijinho, imprescindível para afugentar certo monstro, um que gostava de subir à cama para resfriar o seu pijaminha.

Que tempo bom era aquele, de diversões e descobertas.

Eram dias em que a sua mamãe contava-lhe histórias de princesas enfeitiçadas, decantados príncipes e dragões sagazes.

Àquela época, alegria maior era quando a sua mãe vinha acordá-la muito depois de ter enfrentado as roupas da família.

Mesmo que não usasse o sabão em pedra que a televisão dizia ser imbatível contra as manchas mais tinhosas, era mãe que tinha truques, e, mesmo de mãos limpas e unhas por fazer, era vencedora.

Ela sempre vencia, que crueldade gratificante.

Se ao menos suas fraquezas fossem evidentes, seria a melhor mãe do mundo. Mas ela tinha o olhar de quem não aceitava perder qualquer discussão, principalmente as bobas, que ela nunca começava.

Altiva, impunha aquelas regras inquestionáveis, desse jaez: criança só podia brincar depois de aula, almoço e ter escovado os dentes.

Mas domingo era diferente: depois da missa, da macarronada, dos dentes escovados, podia brincar à vontade. Se não chegassem visitas, podia correr, pular e até chorar por causa de joelho ralado.

Para deitar em paz, Jesus!, tinha que lavar atrás das orelhas, limpar o prato e tratar de escovar direitinho os dentes, ou nem poderia assistir à zebrinha da loteca.

Durante o ensino médio, uma vez que não suportava os perrengues de suplicar esmolas para cercar o jogo da sorte, essa criança começou a trabalhar.

Já empacotadora num supermercado, ia de ônibus pro trabalho.

Como gastava o que poderia economizar, semeou e colheu a ideia: depois que comprou a sua primeira bicicleta, não tinha que se justificar pelas cervejinhas às sextas.

Andar de bicicleta fortaleceu-a. Disciplinou-se pra fazer quilômetros com a magrela. Meses depois era capaz de ir da sua casa ao trabalho sem ter atrasos descontados do seu salário.

Veio a Covid-19; também veio o pé na bunda.

Como criança que sabe se virar, virou-se: tirando setenta reais por dez horas de correria, entregou-se à próxima realidade: antes do Natal, para sentir o cheiro dos cento e vinte reais de cada dia, pagou, Aleluia!, a primeira das quarenta e oito parcelas da 125 cc que lhe deu asas pra pegar corredor a cem por hora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de setembro de 2023.

domingo, 17 de setembro de 2023

Tocante

 

Tocante

 

Ainda que disponha de um copo d’água, o que pega é uma tristeza. Tamanha é a singularidade da sensação que fica dispensável tomá-la, sequer de quando em quando, aos golinhos.

Manter o copo intacto não apaga a face iluminada pela luz do poste. E tal pessoa, que se contempla no vidro, percebe-se triste.

Se não tivesse o copo d’água, seguiria seca, secamente triste, uma vez que não o trouxe pela sede, tampouco pela companhia. Trouxe-o, pois a sua intuição disse-lhe para levá-lo. Contra a languidez afeita ao triste, ao contemplá-lo meio cheio, percebe o vazio, e tão só.

À espreita, sequer a janela basta. Vê a rua. Não passam os ciclistas. Também os apressadinhos estão sumidos. Sequer deseja vê-los, nem lhes quer saber os destinos.

Dos ciclistas e apressados, supõe que nenhum enxergue-se nessa fissura, que vai crescendo, sinapse depois de sinapse, até a aurora do estrago, de uma percepção convulsionada.

Mas essa pessoa à janela tem o copo d’água pra necessidade que possa ter, pra garganta ao desconfortá-la, ao forçá-la a beber.

Triste, porque desconfortável com a caquexia, com o torpor de estar preso ao sono, ao cansaço, pois foi acordado por gatos no telhado, no cio, no embate, pela disputa.

Também os gatos pararam e foram embora. Restou-se à tristeza e ao cansaço. Também poderia ir-se, aproximar-se dos homens debaixo do toldo. Também se percebe silenciosamente atento.

É madrugada. A garoa cai.

Na esquina, os dois bebem no gargalo. A cabeça de um no colo do outro. O que bebem é o que os alimenta, os embriaga.

A garrafa rende. Não precisam tomá-la como quem precisa se livrar de evidências. Não há crime. Bebericam, e papeiam.

A pessoa na janela não tem pressa alguma. Ela observa, e enxerga. Os homens que bebem não precisam ficar incomodados, pois ela não irá até eles nem pedirá fogo pro cachimbo. Ela é gente que não intimida nem espanta, porque não fala alto e não diz barbaridades.

Quem não se entedia, contempla, permite-se ver com calma.

Quem é igual a si mesmo fica entediado com a inação, com a falta de mudança, com a perspectiva de continuar igual a si, ainda que haja outro dia, outro instante, outras pessoas.

Quem é igual a si apesar do mundo, pouco sabe de si. Não percebe o quão negativo é crer-se imutável. Ainda que o mundo nunca pare de alterar-se, quem luta pra manter-se impassível nega-se, teme-se, quer ver-se longe da rua, dos bebuns, da garoa da madrugada.

Enjoada de tédio, a pessoa sabe que é hora de tocar adiante.

Os bebuns teimam em tirar das tripas a friaca. Também se aquecem com os corpos. Eles têm algum tempo até virem ciclistas e apressados que vão palpitar sobre suas carícias e a cachaça.

Ao seu dispor, apenas água. E a pessoa à janela pensa nas faturas que pagará quando chegar a hora de ir pagá-las. Se tem água, melhor que seja bebida, todinha.

A infeliz dá com o nariz na vidraça, todavia tonta de raiva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de setembro de 2023.


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Foco

 

Foco

 

É balela dizer que atualmente o tempo voa a tal velocidade que até a luz demora uma merrequinha para afigurar-se uma ideia. Penso, logo foi-se o Concorde. Nestes momentos, o dia empaca, mas faço de conta que o esvaziamento da mente é comigo.

Como meditar é competência, ouço música. Uma vez que canções têm poder sobre mim, porque as palavras me encantam, escolho uma peça instrumental. E imagens vêm e vão, transmutam-se; magnéticas, seduzem a pensar. Tanto penso que a música vira paisagem, passa a segundo plano. Com sonatas para piano ou quartetos de cordas, trato de não fazer o esforço de pensar sem palavras, que somem numa boa. Como efeito do pensamento não consciente, a respiração é relaxante, eu sossego o ego. Estou em mim, todavia me restrinjo. Sem ausência e sem falta, eu abro espaço. Desatento ao instante, é neste ínterim de eternidade que saboreio não satisfazer qualquer desejo.

Por que cargas d’água Palhaço haveria de combinar com a legenda sobre um cerco numa floresta da Pensilvânia?

Naquele mato tem lobo, disso eu não duvido. Segundo asseveram doutos severos, o lobo é o homem do lobo. Nisso, arremato a charada: a massa cinzenta do cérebro combina com o cinzento da pele. Assim, fica constatado que a força vital é constante no universo.

O que não determina que o cosmo esteja eternamente indo e vindo. O que acarreta é que o sonho de Brahma está em sintonia com o sonho do Gismonti revelado em mim pela respiração.

Pressinto que há muito que ver entre a oxigenação do meu cérebro por Infância e a exsudação da mata nesse Condado de Chester.

Penso no lobo e na loba que alimentam os filhotes. Têm estratégias pra assaltar coelhos, esquilos e castores. E redimensiono o alcance do que suponho: a matilha tocaia bisões e alces, abocanha-os.

Ao descuidar das caraminholas em suspensão, o olhar apaga-se da realidade, cujo escrito na tela não identifica como sendo minha a alma da carne estirada no sofá, ainda que legende o que nem sei o que seja, isso: South Coventry.

O disco Alma é sensacional, até o engano é sanado sem que suba à consciência que alcateia é coletivo de lobos e matilha, de cães.

Não preciso traduzir em palavras a imagem de mulheres e homens ao redor de uma fogueira. Cirandam, e brincam. No que ouço, também estou na roda, e brinco, estou concentrado no Maracatu.

Quem não trava é a câmera. Do helicóptero, ela localiza os animais que cercam uma pilha de troncos. A alcateia difunde calor. Mas é uma temperatura diferente que permite a localização de outro indivíduo em uma montanha de lenha.

Aqui e agora, focalizo: eu Frevo!

Os lobos ajudam o sujeito. Que a sua captura seja instantânea, sem danos aos caçadores. Sua tatuagem seja mostrada a todos os rincões da Terra.

Estrela do Meio-Dia, que ele cumpra o que a lei dos homens lhe reserva: seja fotografado com o Yoda que o lambeu no cocuruto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de setembro de 2023.

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Remodelado

 

Remodelado

 

Quem fala comigo é um rapaz. Não acredito no que me fala. Ouço-o enquanto como uma coxinha. A circunstância talvez me faça achá-lo um mentiroso ou seu relato é mesmo sem pé nem cabeça. Se bem que a fome tem o condão de fazer-me arredio, mais ácido do que ingênuo. Não finjo ouvi-lo com interesse. Prefiro ver os gols da rodada. Ressalto uma cobrança de pênalti, desperdiçada. Sem o persuadir de que a sua fala aborrece-me, ele ignora que eu quero acompanhar os gols. Talvez haja um fundo de verdade no que insiste em contar-me, mas a coxinha tem prioridade porque não como desde as seis horas da manhã.

ꟷ Se me permite, rapaz, é sério, preciso almoçar.

Dando-me as costas, o rapaz senta-se ao balcão.

Que história mais maluca. Pouco verossímil. Só pode andar mal da cabeça quem passa pra frente uma maluquice dessas. Cheia de furos, incongruências, absurdos.

É uma coisa inacreditável, algo que não se deve compartilhar sem que se queira provocar risos ou não se tema passar vergonha.

É provável que o doido acredite na veracidade da história, ou estaria bem da cachola. Não está. É coisa de biruta esperar que uma pessoa interrompa o almoço para escutar asneiras, disparates, mentiras.

E como mente mal quem diz que ouviu falar por um amigo do amigo do tio que um menino cego faz prognósticos da loteria. Que ele ganhou cinquenta e cinco vezes. Só da bolada principal da Mega foram trinta e três. Sem falar de quinas, quadras e milhar na cabeça, se fosse para computar tais vezes, aí passariam de milhares de acertos.

Apesar de milionário, o meninão continua cego. Contudo, na versão mais sincronizada ao espírito da nossa era, o bilionário teria implantado câmeras conectadas ao cérebro.

Quanto à visão, o guri está feliz porque enxerga só a verdade.

Quanto a curtir a vida, quantas frustrações!

O corpo aceitou os implantes, mas sua mente, não. Logo, o sangue tem que ser trocado. É preciso alimentar veias e artérias com óleo. Pra soltar puns fedorentos, é preciso injetar óleo de alto teor de enxofre. E uma vez por semana, checam a qualidade do sistema sanguíneo. Uma vez ao dia, ele injeta um soro de alho.

Ele dorme de cabeça pra baixo? Não. Foge do sol? Sim. Faz vinte e quatro horas por litro? Faz.

Acertei ao pedir-lhe para eu comer a tal coxinha?

ꟷ Peço-lhe desculpas. Você trouxe de volta um período em que eu estava mal. Foi um tempo complicado, difícil, um inferno de estresse e torres e torres de cerveja contra os meus faniquitos. Mas, estou melhor. Hoje eu valorizo o trabalho. Se a bola que bate na trave precisa repicar nas costas do goleiro pra cruzar a linha, eu sei que é gol. E cada gol é alegria. Rapaz, vir pedir-lhe desculpas é gol que contabilizo como um tento a mais no saldo positivo. Pra ganhar campeonato, a gente precisa destruir os adversários. Sei que sim.

Em vez de oferecê-la quente, o cara bebe a soda toda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de setembro de 2023.

domingo, 10 de setembro de 2023

Trabalho em equipe

 

Trabalho em equipe

 

Falemos baixo. Porquanto nos seja possível falarmos baixinho, não sussurremos. Sussurros ou fala vagarosa, rejeitamos tais macetes. Pra que a nossa presença ilumine-se, narremos a história que percebemos como dada, aquela que intuímos entranhada em nós.

Sejamos práticos. Tal qual Seu Rodrigues, que precisa dar cabo de uma tarefa, contemos não nos confundirmos. A despeito dos prejuízos morais, sejamos lógicos. Se Seu Rodrigues não a vê como problema, a tarefa precisa ser realizada, não compreendida. Sendo somente uma empreitada, podemos concordar em delegá-la a outrem.

Por demandar costas que não travem depois de curvadas por uma hora, Seu Rodrigues lista quem possa cuidar dessa demanda.

Luisinho é o amigo que dispõe de tempo para executar o serviço, e as suas costas aguentam uma hora ou mais; o principal, porém, é que ele não cobrará um vintém pelo emprego das suas mãos.

Pelo que vem, a colocação do rejunte nos vãos da cerâmica, nossa personagem de costas sensíveis a esforço admite que cágados caindo dos céus assustam mais do que fezes de maritacas.

Pelo que veio, esse Luisinho de lacunas nas lembranças, o cidadão não se lembra de ter feito algo parecido, sente, todavia, que arriscar é experimentar fazer novo o que nem tenha feito.

Pelo que vai, o preparo da argamassa, Luisinho põe o pó num pote de sorvete, junta água, põe mais pó, põe mais água, põe mais pó, põe mais água, até que ele interrompe aquela inconsistência: seja aplicada a mistura do jeito que se encontra.

Sem delongas, Seu Rodrigues traz refrigerante e amendoim.

Luisinho larga a esponja. Enquanto come e bebe, ele conta ter sido acordado por charanga e turba que passaram tocando e cantando as marchinhas de carnaval que a gente sabe desde criança.

Sejamos parlapatões, alegremo-nos com a alegria de terceiros. Não guardemos silêncio, sejamos entusiasmados cirandeiros que cantam e dançam feito crianças. Amemos cantar, e não detestemos a quem ama cantar. Por inquietude, sejamos levados. Ainda que possamos parecer lascivos, cantemos e dancemos de corpo presente.

Por empáticos, cedamos vez à voz do Jovem Rodrigues:

ꟷ Eu brincava o carnaval porque gostava. Não era gente que ficava pensando na folia. Passado um ano, eu vestia a fantasia que a mamãe tinha feito pro meu irmão. Ajustes eram dispensados. Bastava um tapa-olho pro pirata da perna-de-pau barbarizar.

Já a personalidade do Luisinho, essa ele nunca muda:

ꟷ Nunca fui de matinê. Não tinha fantasia que camuflasse quem eu gostava de ser. De lenço encharcado nos perfumes das madrugadas, o carnaval era curto. Os quatro dias eram cisco. Porque as contas me queimavam na praça, a quarta-feira era mesmo de cinzas.

Não paguemos pela língua, personifiquemos o silêncio, pois, depois de amendoim e guaraná ajuntados, nós não falhamos:

ꟷ Ao ócio!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de setembro de 2023.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

A regra do jogo

 

A regra do jogo

 

Pra gente não esquentar a cabeça com problemas, feriado é ótimo. A cachola sabe que acordar mais tarde dá azo pra que nem mesmo as questiúnculas normalmente menosprezadas ganhem relevo. Às lentes da consciência, focar-se como realidade reconfigurada de cabo a rabo, do tenso pro aliviado, é colírio a espírito baço.

Conquanto enxergar o mundo com olhos menos mesmerizados não seja truque pra tirar-se mágico de cartola, é possível maravilhar-se com as amenidades da vida.

Positivamente, fazer o coelho guiar-se pelo alvoroço buraco afora é aposta arriscada. Putisgrila, nada mais trivial que marmanjos xingando à vontade, é feriadão. Aliás, não é estapafúrdio imaginá-los de chapéu, gravata ou galochas numa pelada, é estapafurdíssimo.

Em outras palavras: deliciar-se com uma latinha, é opção; devolver de trivela, é firula; entreter-se com palavrões, é do jogo; entrar quando chamado, é recurso; ao comemorar gol contra, melhor sair.

De fora, observe, comente, só não se entusiasme a apitar a partida. Ao soprar a latinha, talvez o mugido imite um navio. Não abuse, pois o seu boi bêbado fará rir uma ou duas vezes; passando disso, o barulho vai ser um porre, mesmo.

Quando telefonarem pro almoço, tire de campo o seu gogó que vive seco por outro golezinho, já quente.

De olhos abertos, é preciso guarnecer o prato pensando no trabalho da vesícula. Até porque a polenta na brasa com pimentão recheado de toscana esmigalhada é experimento a ser cordialmente aprovado.

Não reclame que resta apenas meia dúzia de latinhas na geladeira, peça que entreguem mais. Putz! Celular na mão não é festim de salão. Pedir outro engradado no cartão é tiro e queda.

Claro, claríssimo. Os problemas evaporarem, é supimpa.

Voltar ao terrão para acompanhar outra disputa, é o que há. Dar um jeito nos buracos do campinho, é o que tem que ser feito.

Para que serve o quintal se não for para cavoucar a terra? Para que tem braços se não se dispõe a arrastar os sacos? Se não aguenta com cinquenta quilos, pra que se preocupar com aquela buraqueira?

Pensando na trabalheira toda, o jeito é ir atrás de ajuda.

Quem está no campo não tem força. Seria desumano que meninos e meninas puxassem aquela terra. Além disso, poucos se preocupam com os buracos; o pessoal joga sem temer contusões. Nunca se soube de alguma entorse, e fratura exposta, então, nunca houve.

Desde que a casa nos fundos do campinho passou a ser ocupada, tem havido sumiço de bola. De todas as bolas caídas naquele quintal, nenhuma voltou. Sequer murcha, nenhuma reapareceu.

Tanto tem mexido com a vizinhança que aquela área passou a ser chamada de Triângulo do Diabo, porque ali mora o velho que ninguém nunca viu a não ser vestido de preto.

Da boina às botas, aquele ser é figura macabra, tanto que as sacas da terra roxa continuarão à espera de gente menos sinistra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de setembro de 2023.

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Simplicidade

 

Simplicidade

 

Pra falar das coisas simples da vida, é preciso driblar a consciência que não dá folga; ainda que haja algum propósito, é ir caminhando até que o cansaço peça o obséquio de uma paradinha, seja num banco de praça, numa fila de lotérica, ou se for deitado, melhor ainda, que é para ficar escutando uma musiquinha que seja bem relaxante.

A mente que se perca, fique desorientada, entenda que é possível ignorar a hora, pois isso não significa que tudo está perdido, que o céu do mundo vá desabar no colo da gente a qualquer momento.

Pratique sem pressa. Olhe com atenção. Tire do olhar a inércia, que ela só faz ver o que se passa a um palmo do nariz.

E o que se vê?

A menina faz carinho num cão. O cachorrinho abana o rabo, lambe a mão da garota, deita-se na calçada para que sua barriga seja coçada. Se soubesse o quanto isso dá prazer a quem o coça, aaaah!

O menino que vê a cena não pensa que seja algo bom para fazer, agacha-se. Também ele coça a barriga daquele cãozinho, ele também sente o prazer que é coçá-la, apenas por coçá-la, porque lambidas são nojentas, daí o garoto limpar na bermuda a mão babada.

Ainda que os latidos não consigam comunicar o prazer pelos afagos recebidos, a menina e o menino não se julgam pessoas mais humanas ao afagar o bichinho. Se soubessem o bem-estar que o cachorro sente, as crianças latiriam de volta, numa pantomima singela.

Quem fotografa, edita fotos no celular e compartilha-as é um idoso que revela o poético que o cotidiano muitas vezes produz.

Mas, o fotógrafo casual tem ideias: as crianças que se divertem com o cachorro, tomara que nem calculem a sorte de acariciá-lo; as babás avisaram que estavam vacinadas pra não morder cães nem mordiscar gatos; os pelos do rabo dão evidência que carícias agradam.

Com as babás de branco e as crianças coloridas à volta do dálmata deitado, a composição lembrou algo já visto. Como o senhor sessentão saiu de casa à caça de cenas esteticamente citáveis, foi para provocar efeitos melancólicos que ele simplesmente publicou em preto e branco essa paródia da Anatomia do Doutor Tulp.

Uma menção simplesmente poética?

Se há uma lição a apreender-se da foto desse primitivo Rembrandt, é que nem toda imitação capta a aura autêntica de uma obra de arte.

Se há ilação a ser proposta, é que nem toda rima dá poesia.

Como vassoura não é culpada pelas mãos que a usam, assim o afã simplório de soar drummondiano não transfigura o prosaísmo explícito do diálogo ouvido no supermercado:

ꟷ Xi, moço, vai ser difícil casar de novo.

ꟷ Não creio, moça, nos adágios do povo.

Com tantas pedras na estrada, o fotógrafo amador sorri à moça que lhe varreu os pés. Pela falta de gente bem-humorada, a empregada do mercado sorri de volta.

Já que o rosto enrugado do senhor não o quer remediado do tanto vivido, as manchas de café da camiseta sugerem que é muito bom ser um cara simples.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de setembro de 2023.

domingo, 3 de setembro de 2023

A farsa do fraterno retorno

 

A farsa do fraterno retorno

 

Conheço quem se esconda ao falar de si. Atribuindo a outra pessoa, conta o que faz. Sem modéstia, elogia. Com orgulho, engrandece. Por valorizar mágoas, inveja. Ainda que pareça candura, acredito piamente na boa-fé dessa gente alheia a vaidades.

Pouco ligo que tal sinceridade seja fajuta, pois minha crença não é hipócrita. Maiúsculo é honrar o sigilo, não o segredo.

Não julgo quem me escolhe pra confidenciar o que sua consciência urge dar disseminação, embora envergonhada.

Muita gente é panela de pressão a ponto de secar.

Mas, se confiam em mim, contem comigo. Ainda que me descartem feito água, manterei o fogo baixo.

Também não me vejo na condição de areia, porque ampulhetas não domesticam o tempo. Oxe! Minha discrição pode ser tanta, que ventos sopram e chuvas caem e rios transbordam e o raio do meu recato não justifica que me acusem de omisso ou cúmplice.

Na vilania carimbada à minha pessoa, não entra a esperteza.

Foi assim que, esquecido do passado porque tenho apreensões pra hoje, vi-me frente a frente de quem me conhece bem melhor do que eu mesmo, gente que sabe realmente quem sou.

E quem eu acho que não sou?

Nas linhas tortas do tempo, não sou careta. Ainda que na juventude não tenha bebido como um Fred Astaire de Campari na mão, eu rodava pelo salão paroquial porque, uma vez por semana, os meus onze anos receberam o direito de bailar sem perder a pose de uma dose.

Foi num bailinho daqueles que eu beijei pra valer, não outro selinho. Fedendo a Continental sem filtro que tinha ganhado com espingardinha de rolha no parque de diversões que viera à cidade por causa da Festa de São Sebastião, foi meu primeiro beijo de língua.

Como não tenho memória boa, tal recordação foi trazida a mim por uma senhora de cabelo acaju, cujo nome no crachá não me facilitou a identificação de quem era.

E ela precisou falar de uma Feira de Ciências, na qual uma cobrinha escapou do terrário que o nosso grupo tinha montado. Nós estávamos no maior amasso na biblioteca da escola quando deu-se a barafunda. E o tal incidente ocorreu no dia 08 de setembro de 1979; inesquecível, porque, nessa data, ela fazia quinze anos.

A primavera chegara antes, pelos beijos da Julia Lindeza.

Nunca lhe disse o apelido, porque o seu nome era outro, e o crachá confirmava; seu encanto não era propriamente do balacobaco, mas o borogodó tentador era o mesmo, conforme o meu baixo ventre insinuou de pronto.

Não sendo político, lembrei-lhe do nosso primeiro beijo no referido bailinho. Que feio! Quem me beijou nos fundos da Matriz foi sua prima Formosa Márcia, nascida nos últimos suspiros de Março de 64.

Pouco embusteiro, digo à brasileirinha dos cabelos brancos debaixo dos fios acajus:

ꟷ Voltar aos tempos de coturnos desfilando contra o Comunismo a cada Sete de Setembro não é Revolução Cósmica, é Primeiro de Abril.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de setembro de 2023.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Por um fio

 

Por um fio

 

Firmino reclama do verde brevíssimo dos semáforos, da estridência neurótica das buzinas, do absurdo número de carros, mas, pela inépcia de antecipar tal quadro, dirige a censura maior para si.

Inútil reprimenda a quem atrasado, e muito.

A opção de acelerar-se quando possível não o altera, cumprimenta as pessoas. Veste o figurino que separaram. Maquia-se com destreza. Depois dessa azáfama, pode finalmente aguardar.

“Vai começar tudo de novo”, ele constata.

O primeiro sinal traz a agitação da plateia às coxias. O burburinho, porém, não lhe indica a medida do entusiasmo do público.

Tantos anos na estrada, tantas montagens, mas, a cada vez de sair do camarim, vem o friozinho, cuja dimensão dois goles de café ajudam a estabelecer o quão inconveniente é continuar ansioso.

Ansiedade medida pelo café tomado pode ser um sentimento bom. Se a preparação pode acabar abalada, o friozinho aponta: há caminhos que precisam ser demarcados, ou a cafeína intoxicará.

Encher a cara de café é risível, porém não é um erro, pois todas as veredas levam ao fim. Ao objetivo cumprido, então, vaias ou aplausos não são sequelas, ultimam em apogeu. Porque saudável é ocupar-se do riso, e beber café sem açúcar nem é consolação.

“Que bom que vai começar tudo de novo”, ele saboreia o instante.

Ao segundo sinal, o público capta o espirituoso prometido além das cortinas. Pagantes em geral não pressupõem frustrações nem querem ter que cobrar o dinheiro de volta, precisamente quando cobram.

Animador é pessoas de ingresso em mãos à procura da respectiva poltrona. Atenção! Há nervosismo. Para a sua concentração, é natural que dê como supersticiosa à ida ao banheiro. Embora lhe falte vontade para urinar, Firmino sabe que faz bem, menos quando urina café.

“Ainda bem que, outra vez, vai começar tudo de novo”.

O terceiro sinal não tirará aperto algum da sua bexiga, pois ele sabe que a respiração sob controle diminui o risco de uma atuação patética, como, em cena, ficar azul ou correr pro banheiro. Respirar é uma ação boa se imperceptível, como água aos peixes.

Sem asfixiar o raciocínio com fingimento, todo excesso tem que ser castigado. Seja pelo grotesco do artificial, pelo muito cerebral que tolha o espontâneo, porque nem todo acidente contribui pra naturalidade.

Enxergar mosca varejeira em vez de ervilha caída de um sanduíche é uma interação negativa. Lembre-se, Firmino, você está no palco, não busque no olhar do público alguma rede protetora.

Simulacro de homem calmo, senhor das emoções, Firmino pensa no café que estará no camarim ao fim da apresentação.

Do lugar marcado, o ator percebe que a plateia está atenta. Porém, ele reconhece o sorriso na primeira fila. Profissionalíssimo, Firmino diz as suas falas. Mas, a tal mosca zune sem parar:

ꟷ Mamã te trouxe torta holandesa e quiche alsaciana, Fifi.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de agosto de 2023.