Sei que tiro lições pelo que faço, mas
não fico obstinado com o que faço. Para que a vida venha a ensinar-me a viver,
não penso sem parar que preciso ficar calmo, que vou pisar com firmeza. Que eu saiba
como me manter prudente, ou a plenitude será uma ilusão.
Às vezes, consigo ser pleno.
Apesar de ter feito alguma besteira, chego
a ser feliz.
Ainda bem que não planejo cada um dos
meus passos. Não encaro o mundo como se a felicidade fosse o objetivo em tudo o
que faço. Se fosse, eu sofreria um bocado porque sou uma máquina nervosa.
Ora, rir de minhas trapalhadas pode sair
negócio.
Não, rir não é negócio algum, é ação gratuita
que não dá lucros nem faz com que me sinta nascido para realizações memoráveis.
Não me realizo como sortudo que nunca trava.
Sei rir e rio quando cometo erros. Trato de pensar nas coisas que terei para
fazer amanhã; e o que fizer que não saia como esperado, avaliarei.
Sem danos sérios, lamentarei. Com
acarretamentos lamentáveis, o melhor é responsabilizar-me. Comprometer-me a não
rir quando eu der motivo a que me punam, peçam-me que eu me corrija, que seja
menos afoito, leviano, um canastrão que não conhece outra maneira de viver que
não seja a de levar a vida aos improvisos.
Se me esqueço do roteiro que eu mesmo
tenha traçado, perco uma noite de sono. E pelas bobagens que eu tenha feito,
amanhã serei mais centrado, agirei com entusiasmo menor. Como gente simples que
mete na ideia que complicar é meio caminho andado pro fracasso, darei de mim o
que for preciso pra não decepcionar.
Não ficarei preso às decepções que
causo. Se não vivo em função da felicidade, agirei como se entendesse
irresistível zanzar à beira do meio-fio com uma venda nos olhos.
Sei que me ajustarei ao futuro, pois
aprendo com os erros. Embora não os evite, viro uma figurinha idiota. Pessoa que
não diverte ninguém mas tem por dever demarcar o limite: daqui pra diante, não responderei
por minha boca.
Caminharei com minhas pernas. Mas não venha
do abismo o cheiro de café, pois vou querer um gole, um golinho. Ou perderei o
equilíbrio, pois os meus joelhos estão borrachos.
Liso, sei que a minha risada satânica
pode assustar gente simpática que desata a falar mal de mim porque está certa
de que é por ruindade que não revelo o melhor de mim.
Pelo vício de querer ser gente amável,
amigos de verdade não tiram sarro. Por pesar as implicações, o ombro amoroso some
quando ando na corda bamba. Sem sombrinha ou vara, faço drama.
Puxa, às vezes, não basta viver. Tenho
que prestar contas da minha vida para pessoas que não se importam que me sinta
culpado pelo que deixo de fazer. Quando estou fazendo o que havia pensado como
algo bom, considero-me um sujeitinho batuta.
Cá entre nós, gente legal é aquela que
não aumenta a dor do outro porque anda sentindo a alma cambaia.
Ao rir de mim porque estou bêbado, gargalhe,
pois eu não bebo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de agosto de 2023.