Continuação
Como a vida é rio que não para de passar
e suas águas são o novo a cada instante, antecipo que não tenho natureza
incomum. Tento não ser arrastado e, momento a momento, trato de manter a leveza.
Então, ontem vim casmurro e amanhã
também virei o mesmíssimo casmurro, e tudo bem que não me contradigo?
Ao pé da letra, se me mantivesse
lucidamente coerente, digo que o tempero que mais me satisfaz é mesmo a
contradição.
Nem tão casmurro nem tão carismático,
pois a vida é instantânea e vivo como me sinto, entre curioso e entediado,
indiferente e antenado, ardiloso e mentecapto, distraído e cativo, como sempre,
sento e, para não chamar atenção, deixo que outros me puxem à conversa.
Mais silencioso que a média, muitos pensam
que sou um camarada fechado, que pareço ter vivido muitas complicações, que essas
minhas muitas feridas me angustiam tanto porque não as trato como deveria, pois
eu poderia parar de sofrer se não me adaptasse a tais chagas.
Quando não se lhe reconhecem os palpites
certeiros que julgam ter, decepcionam-se estas pessoas tão solidárias. Porque
eu não as quero frustradas, ouço-as em silêncio e agradeço-lhes pelas
palpitações.
Na maior parte das vezes, venho sentar-me
ao balcão sem ânsias de querer compartilhadas minhas impaciências.
Se dormi mal, as pessoas não precisam
saber.
Se cochilei vendo TV, fui eu que escolhi
o filme.
Se acordei de madrugada, é que meus rins
funcionam bem.
Se bebi muita água, melhor que tenha
sido água.
À padaria, eu procuro chegar por volta
das sete. Enquanto há mais lugares vagos do que gente de garganta boa, que tem
certeza de que levantar a voz ajuda a apressar o aquecimento da chapa.
ꟷ O de sempre, patrão?
Eu penso: as orelhas de pessoas
estúpidas não queimam por causa da estupidez mesmo que tenham sobre a nuca
olhares neuróticos?
Como o rio do mundo tem margens que
serpenteiam de acordo com o terreno, divago entre apático e resignado, rebelde
e tolerante, sóbrio e apaixonado, por isso olho o espelho e reconheço que não
fiz a barba, que a testa enrugada diz que estou positivamente neurótico.
Pelo ridículo da ideia, dissimulo que
estou surdo. Por não responder à pergunta, parado à minha frente, o balconista
repete:
ꟷ Vai querer o mesmo de sempre, patrão?
Como eu não assobiei nem esbravejei, sou
atendido por quem acha melhor ignorar minha famigerada casmurrice.
De fato, eu quero pão com manteiga nas
duas metades.
Tenho outra ideia brilhante: o problema
de quem conta um segredo é a ilusão de controlar a rede por onde circula o dito
em confiança?
Para que meu pedido fique completo,
acrescento que eu quero café expresso, o grande, e dispenso açúcar e adoçante.
Sobressaltado com minha voz, berro ao
chapeiro como se estivesse falando a meus botões:
ꟷ Boa gente, capricha aí na manteiga
porque ela não é de nenhuma marca que eu já tenha experimentado.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de abril de 2023.