Centelha
da rebeldia
Não havia nenhuma indicação de que
aquilo tornar-se-ia realidade, daquele menino compreender que a sua timidez o desafiava
a ir beijar a menina encantadora, a única que usava rabo de cavalo.
A ideia de que, insinuante portanto
belo, o movimento desse arranjo dos cabelos poderia estar interferindo na origem
natural dos hormônios de uma criança era suficientemente improvável para ser considerada,
até como aberração.
Se uma ideia não passa de possibilidade
até que se torne ato, toda ação gera consequência, que seria o tapa na cara do
beijoqueiro já que gestos carinhosos à traição não devem ser concretizados,
sobretudo à socapa.
Ao garoto de cinco anos não ocorria a
tentação de um beijo naquela garota tão graciosa, que não virava bruxa de
vassoura voadora sequer quando, indiferente ao mundo ao seu redor, pintava um
arco-íris.
Além de falar das sete cores, a
professora contou que muita gente acredita que tem um tesouro escondido no fim
do arco-íris, mas a aluno algum ou a nenhuma aluna ocorreu de perguntar-lhe
onde é que ficava o começo do arco-íris.
Nem por brincadeira, professora alguma
tinha pensado que aquilo, um aluno como outro qualquer poderia atravessar o
pátio com o desejo insólito de dar um selinho em qualquer uma das alunas,
pudesse vir à tona bem durante o intervalo.
Se ocorresse de uma criança de cinco
anos agir como adolescente de doze anos, querendo bitoquinhas de surpresa, pais
e mães teriam de ser convocados para imediata reunião com a diretoria.
Há quem pense que a escola deve ensinar
que, ainda que singelos, espontâneos e sem nenhum tiquinho de lascívia, há beijos
que podem ser entendidos como pouco amorosos, mesmo até repugnantes.
De fato, semanas depois de começadas as
aulas, houve o beijo do calado monstrinho fofucho na meninota sardentinha.
Se realmente fossem a fundo, ainda que
as sete cores estivessem pintadas na mesmíssima ordem em ambos os arcos-íris, haveriam
de descobrir que o arco-íris do menino ia do canto inferior direito ao canto
superior esquerdo, já o desenho da menina começava no canto inferior esquerdo e
terminava no canto inferior direito, com uma casinha verde sob o tal arco
celestial.
Todavia, relatou-se que, depois de séria
investigação, à menina não caberia nenhum reparo porque ela nada fizera para
estimular ebulições lúbricas neste desavergonhado que não soube se segurar na
presença da colega, cujo rabo de cavalo não tinha o propósito de açodar libidos.
O ponto fulcral da lição é: nos recreios
da vida, seja na escola, seja no boteco, seja na fábrica, quem não sabe se
comportar merece saber que o valor educativo de um tapa fica estampado no
estralo, na dor do vexame, no ardume da mágoa, no patético.
Em cem caracteres: quem ama faz conta de
que amor se paga com amor, o resto é a alienação de que gente apaixonada beija bem.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de abril de 2023.