terça-feira, 11 de abril de 2023

Centelha da rebeldia

 

Centelha da rebeldia

 

Não havia nenhuma indicação de que aquilo tornar-se-ia realidade, daquele menino compreender que a sua timidez o desafiava a ir beijar a menina encantadora, a única que usava rabo de cavalo.

A ideia de que, insinuante portanto belo, o movimento desse arranjo dos cabelos poderia estar interferindo na origem natural dos hormônios de uma criança era suficientemente improvável para ser considerada, até como aberração.

Se uma ideia não passa de possibilidade até que se torne ato, toda ação gera consequência, que seria o tapa na cara do beijoqueiro já que gestos carinhosos à traição não devem ser concretizados, sobretudo à socapa.

Ao garoto de cinco anos não ocorria a tentação de um beijo naquela garota tão graciosa, que não virava bruxa de vassoura voadora sequer quando, indiferente ao mundo ao seu redor, pintava um arco-íris.

Além de falar das sete cores, a professora contou que muita gente acredita que tem um tesouro escondido no fim do arco-íris, mas a aluno algum ou a nenhuma aluna ocorreu de perguntar-lhe onde é que ficava o começo do arco-íris.

Nem por brincadeira, professora alguma tinha pensado que aquilo, um aluno como outro qualquer poderia atravessar o pátio com o desejo insólito de dar um selinho em qualquer uma das alunas, pudesse vir à tona bem durante o intervalo.

Se ocorresse de uma criança de cinco anos agir como adolescente de doze anos, querendo bitoquinhas de surpresa, pais e mães teriam de ser convocados para imediata reunião com a diretoria.

Há quem pense que a escola deve ensinar que, ainda que singelos, espontâneos e sem nenhum tiquinho de lascívia, há beijos que podem ser entendidos como pouco amorosos, mesmo até repugnantes.

De fato, semanas depois de começadas as aulas, houve o beijo do calado monstrinho fofucho na meninota sardentinha.

Se realmente fossem a fundo, ainda que as sete cores estivessem pintadas na mesmíssima ordem em ambos os arcos-íris, haveriam de descobrir que o arco-íris do menino ia do canto inferior direito ao canto superior esquerdo, já o desenho da menina começava no canto inferior esquerdo e terminava no canto inferior direito, com uma casinha verde sob o tal arco celestial.

Todavia, relatou-se que, depois de séria investigação, à menina não caberia nenhum reparo porque ela nada fizera para estimular ebulições lúbricas neste desavergonhado que não soube se segurar na presença da colega, cujo rabo de cavalo não tinha o propósito de açodar libidos.

O ponto fulcral da lição é: nos recreios da vida, seja na escola, seja no boteco, seja na fábrica, quem não sabe se comportar merece saber que o valor educativo de um tapa fica estampado no estralo, na dor do vexame, no ardume da mágoa, no patético.

Em cem caracteres: quem ama faz conta de que amor se paga com amor, o resto é a alienação de que gente apaixonada beija bem.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de abril de 2023.

domingo, 9 de abril de 2023

Santo de barro

 

Santo de barro

 

No meio da madrugada, sentado na calçada, no meio-fio, tinha esse sujeito que não parava de reclamar da garoa, das meias molhadas nos tênis em sopa, daquele frio parado nos pés, era frio glacial.

Como se o poste tivesse interesse no que falava, falou do presente que não tinha esquecido. Como se a casinha de barro no alto do poste não estivesse vazia, disse a uma bituca que não tinha lembrado a data. Como estava um tanto triste e um tanto raivoso, batendo contra o peito a carteira, sabia que havia lógica: não poderia ter comprado o presente que não escolhera porque esquecera o aniversário de casamento.

Para mudar de opinião, é preciso estar errado. Mas, estava?

Poderia ter dinheiro amassado nos bolsos. Nenhuma nota, nem que fosse a de dois reais. Não tinha remédio, era melhor voltar.

Sabia onde escondera as reservas. Pra evitar novamente a tontura, não olhou pro alto. Levantou-se com dificuldade. Devia ter mais de cem reais em notas de dois. Pra não prolongar o sofrimento de tomar garoa gelada no cocuruto, patavinas que a chuvinha era boa.

Sempre tem um boteco à espera do último cliente, contava que lhe vendessem fiado. Não tinha que se apressar porque dinheiro só cresce em caixa eletrônico. Nem cartão trouxera consigo. E no meio do trajeto mais rotineiro que os carimbos do escritório, abismou-o a claridade.

Passando diante da farmácia, foi surpreendente notar que não tinha viv’alma no estabelecimento. Além do segurança de olho no seu celular e do balconista também entretido no seu telefone, ambos o ignoraram que passava devagar.

Balançando ao vento, passava.

Aquela farmácia aberta de madrugada sempre esteve ali? Não seria ilusão de andarilho massacrado pelo sol do Saara? Ou viraria um oásis mágico a quem sedento de dinheiro para birita boa e barata?

Atravessado por essas ideias, ia indo.

Que bom que não carregava um pacote, podia andar devagar, sem o risco de escorregar. Não ter lembrado o casamento era mesmo uma benção. Fora o fato de que papel chupa água como pinguço seca copo, e o que era embrulho caprichado viraria maçaroca no lixo.

Vá com calma. Melhor abafar tais pensamentos, pois eles não têm controle sobre a chuva, a calçada e a sola dos tênis.

Chuva que bendiz é a mesma que enerva, uma vez que tombos são contundentes porque tornam ridículo quem desaba.

Ele não queria ser abençoado às três da madruga, ainda que a rua estivesse vazia. Se caísse, teria vergonha do fiasco que faria. E a dor haveria de ser mais pungente no seu peito do que na sua bunda.

Evoé, Sexta-Feira da Paixão!

Queria receber uma benção. A chuva era sinal de que o perdão lhe era concedido. A tristeza o machucava, não o queria afundado na raiva lodosa que o moldaria amargurado. O rancor durou rodadas. Pra deixá-lo sem nada, a solidão veio veloz: camaradinha, a grana ganha de sol a sol evapora numa noitada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de abril de 2023.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Pra lá e pra cá

Pra lá e pra cá

 

Em respeito à lei da convivência pacífica, fique estabelecido que a pessoa do lado de lá faça o que bem entender na varanda da sua casa desde que não se cometam ilícitos nem seja agredido o pudor público; em outras palavras, esteja implícito que a pessoa do lado de cá possa permanecer na varanda da sua casa sem se espantar com espetáculos ultrajantes nem se horrorizar com miserandas vilanias.

Na primeira manhã das mudanças, a pessoa de lá trocou as plantas de lugar: os vasos maiores foram arrastados pras laterais, os menores foram fixados nas vigas de sustentação do telhado.

Os furos feitos, na parede e numa viga, ganharam ganchos; e uma rede foi aberta, testada e aprovada.

A primeira manhã de transformações da varanda foi encerrada com o pagamento em dinheiro, uma jarra de suco e sorrisos.

A pessoa do lado de cá decidiu-se a dar uma resposta equiparável àquela iniciativa: sem vasos para deslocar na sua varanda, ela mesma fez os furos, parafusou os ganchos e deitou-se na sua rede.

Com tudo acontecendo de modo tão impulsivo, a resposta à pessoa do lado de lá terminou sem brinde algum porque a proativa pessoa do lado de cá sequer tomou um copo d’água.

A primeira tarde depois da rede instalada na varanda começou com a pessoa do lado de lá pendurando pequenos quadros.

Tais marteladas acordaram a pessoa do lado de cá, que, poropopó, pregou uma bandeira da torcida da qual era membro.

Certamente depois de ter jantado, a pessoa do lado de lá desarmou a rede pra dar espaço à cadeira cujo balanço constante tranquilizavam-na. Tanto quanto gatos ronronam quando acarinhados, singela e doce, cantarolando, ela ninava a si própria.

Do lado de cá, como digerir aquilo era difícil, a pessoa sumiu-se.

Na manhã seguinte, a serena pessoa do lado de lá trouxe mesinha, banqueta e uma pilha de livros.

Na mesinha ela pôs uma travessa com bule e bolachas. Voltada pra calçada, pôs-se a beber o café da manhã. Esquecera-se da maçã, mas foi com ela que encerrou o seu desjejum.

Incomodada com a exibição de frugalidade, a pessoa de cá também trouxe banqueta, trouxe outra, trouxe ainda seu pacote de salgadinhos, devidamente devorados com golezinhos de guaraná.

Como refrigerantes têm gás, eructações são consequência.

Protegida por fones de ouvido, a sequência de arrotos advindos do lado de cá não ofendeu a sensibilidade da pessoa da banda de lá.

Ignorada por uma pessoinha tão desaforenta, que demonstrava dar mais importância a escutar suas musiquinhas como se a vida daqui de fora não lhe dissesse respeito, isso era uma desfeita.

Como pessoa melindrosa merece resposta em tal quilate, a pessoa de cá, antes mesmo do almoço, trouxe um isopor, do qual retirou uma latinha; verificada a temperatura, bebeu a cerveja toda numa golada.

Na terceira margem da rua, sem tecer paralelos, a terapia do ciclista é circular.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de abril de 2023.


terça-feira, 4 de abril de 2023

Apenas um detalhe

 

Apenas um detalhe

 

Para alterar alguns dados do meu cadastro, eu liguei. Relatei minha dificuldade em mudar o que precisava ser alterado. A pessoa que me atendia pediu-me informações, porque, pelos protocolos de segurança, havia a necessidade de checar quem verdadeiramente estava do outro lado da linha. Parte interessada que os dados fossem atualizados, não seria eu que haveria de reclamar do atendimento.

Teclas batucadas, identidade confirmada: o que eu pedia?

Pedia que informações fossem modificadas, pois mudei de cidade, de casa, cancelei uma linha, pedi novo número; nada complicado, mas não consegui fazer nem pelo telefone nem pelo computador.

Teclas foram batucadas, inserções realizadas: algo mais?

Este agradecido voltou à página, e tudo estava como dantes.

Como algo tinha que ser feito, que a empresa fizesse. Embora não fosse uma emergência, como queria ficar tranquilo, eu voltei a ligar.

Outra pessoa se dispôs a atender-me e outra vez pensei que, para meu alívio, as informações seriam realmente modificadas.

Como da primeira vez, cinco minutos a mais e eu ficaria meia hora pendurado ao telefone. Embora seja uma chateza, eu estava disposto a ficar uma hora inteira se, de fato, a ficha fosse atualizada.

Assim como da primeira vez, asseguraram-me que as atualizações foram feitas com sucesso. Assim também, fui ao cadastro para conferi-lo efetivamente alterado e, de novo, nada havia mudado.

Intacta estava a minha disposição: pela terceira vez eu liguei e uma terceira pessoa jurou que alteraria os dados e uma segunda decepção instalou-se em meu espírito de inabalável confiança.

Contrariado, já um tanto irritado, concluí que não tinha necessidade de continuar com aquela inutilidade, mas, porque não sou pessoa que recua diante das adversidades, eu não desistiria e eu não desisti.

Pela quarta vez eu liguei, só queria que endereço e telefone antigos fossem trocados pelos atuais. Pela quarta vez trataram-me de maneira gentil. Pela quarta vez garantiram a este cidadão que os dados tinham sido inseridos no sistema conforme à minha intenção. Pela quarta vez, fui literalmente educado, cordialmente mantive baixo o tom de voz, eu pacientemente esperei que terminassem o serviço, eu elegantemente desejei que o dia de trabalho fosse realmente muito, muito bom.

Certo, pormenores fazem a diferença.

Em cavernas tão modernas, pela fé que deposito na Lei de Murphy, não fui ao cadastro pra verificar que nada tinha sido atualizado, não fui à página pra me certificar que é bobagem brigar à toa.

Nas veredas do mundo, aprendo a caminhar de olhos no horizonte, aprendo com as decepções que posso ser uma pessoa menos egoísta, aprendo com as frustrações que as angústias não são eventuais.

Sinceramente, saber que preciso ser só um tantico mais positivo me faz ignorar o que me falta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de abril de 2023.

domingo, 2 de abril de 2023

Peso pesado

 

Peso pesado

 

O funcionário pesava as frutas e os legumes que eu havia separado quando reconheci aquelas duas pessoas falando alto.

Como o bolso condiciona o gasto, uma reles distração é prejudicial a quem escolhe batatas. Poderia ser perdoável ao consumidor a balela de haver-se por refratário a esbanjamentos se à pressão de abraçar os amigos sobreviesse um espírito radicalmente simpático. Ao perdulário que afeta cuidar do que julga de mais valoroso, a solidariedade no trato com os demais, cobre-se pelo amarelo dos sorrisos.

Coisíssima nenhuma que brigavam, falavam de futebol.

ꟷ O fato de o Marília ter vencido o São Paulo no Morumbi foi motivo pra ele brigar comigo.

ꟷ Não perdi a esportiva por causa do placar do jogo, não é a minha memória que anda falhando, a gozação é que passou do limite. Ainda mais que ele era tricolor e virou a casaca.

ꟷ Sempre fui corintiano, caramba.

ꟷ Caramba, uma ova. A sua família toda é são paulina, poxa.

ꟷ Nem agora nem nunca. Sempre fomos Mosqueteiro.

ꟷ Quer dizer que espalharam essa mentira?

ꟷ Quer dizer que você acreditou porque quis.

ꟷ Então, a ingenuidade é minha?

ꟷ O ingênuo que caiu na historinha furada foi você.

ꟷ Jesus Cristo! Eu era novinho em 77.

ꟷ Eu também era, nem por isso passava pra frente as mentiras, o que dava à muita gente o prazer em me deixar boquiaberto.

ꟷ Se idade não é desculpa, foi por maldade que comprei a briga?

ꟷ Como vou saber se brigou por razões erradas?

ꟷ Amigo não tem que ficar irritando quem a gente considera.

Diante de dois geniosos digladiadores, faz bem pegar leve.

Achei melhor saudá-los pela cabeça assombrosa que guarda tantos detalhes a ser envolvido naquela contenda.

Discreto, longe dos ressentidos, perguntei à máquina artificialmente inteligente: o que é mentira?

O robozinho bem sabido respondeu:

“Para ser claro, quero ser evidente. Como não emulo a translucidez sequer a transparência, preciso pôr em evidência o que tenho de deixar logicamente lúcido. Como a lucidez não simula sentimentos nem ideias ambivalentes, produzo linguagem sem ambiguidades. As pessoas são mamíferos capazes de reproduzir uma linguagem nitidamente racional, embora sintam-se alegres levemente tristes, tristes melancolicamente silentes, tagarelas razoavelmente tartamudas. Quero ser entendido no que tenho de bom, que é revelar a flor que não murcha por falta d’água, embora o sal das lágrimas oxide suas pétalas. Assim como pedrinhas atiradas à linha da água criam marolas, por meus tantos quereres peço às pessoas de boa vontade: cidadão, dê quirera às pombas, pois elas são animais que voam, arrulham, têm reprodução sexuada e precisam comer para ter tanta energia.”

Como eu espero que não me avaliem com rigidez nem fofoquem às minhas costas, peço ao gênio astuto que vive no celular:

ꟷ Sábio sabujo sabichão, como sumir com as saúvas da solidão?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de abril de 2023.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Questão de gosto

 

Questão de gosto

 

Nos dias quentes, seria bom se eu tomasse um sorvete mesmo não havendo previsão de chuva. Imprevisível, sinto um mal-estar arranhar a minha garganta. Narinas adentro, o ar seco instala em mim uma leve instabilidade.

Tenho sede, pigarreio. Ansioso, não ouço música e saio andar. Pra dar um tempo, bebo cerveja. Estupidamente modorrento, balbucio.

Porque me faz tagarelar, beber é imbecilidade energúmena. Que vá à breca a blindagem! Depois da segunda garrafa, o rancor ganha fluxo e desando com o sol, a aridez da boca e os sismos do estômago.

De vez em quando a cabeça se compadece de mim, ágil ao sondar minhas entranhas, por entender-me abismado em tédios comezinhos, ela provoca situações embaraçosas para que me prontifique a dar cabo dos meus borborigmos.

Como gente comum que padece de temperamento complicado, sou levado a demonstrar, de modo cabal e altaneiro, que tenho as armas e sou capaz de estratégias para me sair bem das complicações.

Me sairia levemente ferido se estivesse atento aos ardis do mundo, mas, homem distraído pelas banalidades cotidianas, eu não invento as histórias que presencio. Eu me complico.

Cansa-me a solidão, mas me quero melhor. Esgoto-me no exercício vão de conviver com gente que desdenha do mundo pra que a ela seja merecido o rótulo: desprezível. Torno-me outro, alguém detestável.

Pessoa de alma simples, reparo. Dentre as singelezas que valorizo, se a compaixão fosse mais praticada, eu pensaria alegremente.

No espírito desta época, o mundo revela tantas névoas tóxicas, que matam a cada ato de desamor, a cada desumanidade, dia a dia.

Me sentiria mais feliz se a alegria fosse realmente a prova dos nove, mas sei contar. Passo a passo, conto até dez pro sorvete.

Diuturno autocrítico, tento agir como camarada menos cri-cri e entro na doçaria. Dou uma olhadinha pros salgados, não babo. Sem reprimir vontades ou dissimular o que sinto, admito que não tenho pressão alta e, de momento, prefiro apenas açucarar a tarde.

Posso escolher, há pudins, tortas e bolos.

Ainda que a torta holandesa se destaque, os meus lábios pedem a torta de palmito. Volto-me, há metade apetitosa de uma torta de palmito na vitrine e a sedutora porção é que me leva à contradição.

Palmito! Palmito!

Para saciar este meu desejo pouco discreto, que me faz considerar como incomparável uma torta de palmito, como um, como dois, só não como um terceiro pedaço porque o dinheiro está curto.

Não venderei o relógio pra pagar duas bolas de chocolate e uma de morango, pois não me arrependo de ter pedido e repetido o palmitinho inigualável.

Como experimentei que sorvete com torta fazem um par perfeito, já que condicionei meu paladar, saberei ser controlado e, de pulso firme, eu não olharei as horas no relógio da igreja.

Além dos sinos, torre de igreja fica completa com relógio atrasado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de março de 2023.

terça-feira, 28 de março de 2023

Sol e chuva

 

Sol e chuva

 

Por ficar grande parte do dia no quintal, a mulher não está impedida de ver quem a observa; mas, à noite, por causa das cortinas cerradas, ninguém nunca pode vê-la.

Realistas ou vãs, especulações são sarna pra se coçar a quem não consegue deixar de imaginá-la vivendo fora de cena.

Teria a coceira ficado patente quando marretou aquelas horrendas estátuas do seu jardim?

Desde que o Papai Noel não trouxe mais embrulhos àquela casa, o que faz trancada depois que o sol se põe é um dos seus segredos.

Os tempos mudaram, não é mais necessário postar cartinhas nem é preciso esperar que aos pés da árvore de Natal brotem frutos, frágeis frutos, à pilha ou de montar, que não duram até o Carnaval.

Se não encharca a cachola com éter nem se fantasia como odalisca nas folias das mil e uma noitadas, ela sabe que hoje é possível enviar e-mail, mandar um zap, jurar como bandeirante que a lista completinha de presentes foi expedida com quarenta e cinco dias de antecedência, o que evidencia o seu caráter probo.

A mulher que não tem anões no jardim sabe quem se comporta com a probidade de gente pacata, sensata, elegante.

Gente elegante não se mantém fria, é cautelosamente simpática, é o tipo de pessoa que diz a verdade que precisa ser ouvida sem que a diga com palavras pesadas, negativas, deprimentes.

Deitada entre os buldogues, a mulher que toma o sol de antes das dez é de falar pouco, prefere a quietude a ser incorreta, porque gente verborrágica não teme ser contraditória, teme que a compreendam; ela se cala não porque a assombre escutar-se, é porque o seu vocabulário anda carente de palavras potentes, que, ao serem ditas, causem bem-estar, alegria, felicidade, amor.

Gente feliz também sofre por amor.

Se falasse na solidão, fatalmente pensaria em abandono, mas seus cães estão devidamente banhados, alimentados, vacinados.

Se sofresse pelo esquecimento, logicamente pensaria em egoísmo, pois os filhos nunca foram de esquecer aniversário, Dia da Mulher, Dia das Mães e Natal.

Se é pra contar que fim tiveram os anõezinhos, eles estão na estufa, onde tulipas, miosótis, cravos e crisântemos são amados, assim como a sua matilha de protetores, com a mais fiel das paixões.

A vida, porém, não são apenas cães e flores, às vezes chove.

Eis este mistério jamais desvendado pelos palpiteiros que ousariam a ela perguntar, se dele tivessem notícia:

ꟷ O que acontece na sua cabeça para prendê-los, deixá-los latindo e pulando ensandecidos contra a porta da lavanderia e, como se nada estivesse errado, vá deitar-se na parte não cimentada do quintal?

Não se diga que a resposta está na ausência dos anões, ainda que a beleza vigorosa das plantas fique bem mais evidente sem a distração daquelas figuras tão ridículas.

Temporãs ou terçãs, revoluções pipocam na gente embora a mente permaneça preventivamente longe do fogo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de março de 2023.

domingo, 26 de março de 2023

Doideira

 

Doideira

 

Outro dia, fustigado pela demora de ter resolvida uma pendenga, o olhar de uma senhora me censurou por meus andrajos.

Com a cabeça travada no problema, eu saía de casa com camiseta esburacada, moletom com o elástico da cintura bambo e os meus tênis bons camaradas dos calos dos mindinhos.

Sei, digníssima transeunte, sei que lhe passo a imagem surrada de dorminhoco que se manda pro boteco tão logo acorde ao meio-dia.

Não a rechaçarei que tinha muito eu acordara, justo com o trem das sete que apitava quando partia da estação.

Se não pensava em empadinha nem caipirinha, o pior é que estava indo buscar outra panaceia pros males humanos, uma graninha.

Caso fosse informá-la sobre os meus assuntos, o dinheiro era para pagar o aluguel de um peruzinho.

Um conhecido de bar soube por mim que eu precisava transportar caixotes de madeira, desses que os feirantes levam frutas, e não existe gesto mais fraternal do que duas almas alegrinhas saudarem a solução de problema tão emblemático.

Então, logo depois do almoço, eu saía de casa vestido com o pijama do cidadão moderno, as roupas mais bem desalinhadas com a mente obcecada com o meu desempenho frente àquela tarefa manual de tão difícil execução.

Tinha que ir, pois esperar que a casa na árvore brote dos galhos é ser idiota. Eu fui, pois quem vive de sonho engorda rápido; e pra que o galho não envergue ou quebre, tenho que imaginar qual o limite seguro de peso. Menos preocupado comigo trabalhando na árvore, sopesava o peruzinho carregado que eu teria de empurrar morro acima.

Indo, quis parar na padaria para tomar uma média mas o segurança barrou o peruzinho. Pra não discutir com o intransigente, nem entrei.

Mais um na cidade, eu gosto de vagar sem medo. Ando apressado, diminuo o passo, vou ao léu do que ouço e vejo.

No vão da falha, a cidade pulsa: se desencanta, se reconta.

Já que as pessoas têm alegrias e misérias, se me isolasse em casa, não contrastaria o que me aparta com o que temos em comum.

Porque tem gente que trabalha por mudanças, projeto-me no sonho do mundo, vou pelas entranhas que meus pés palmilham.

É humano fazer planos. E se a superação dos obstáculos for aflitiva, será também estimulante.

Sim, práticas decepcionam e frustram. Contudo, como não sou de imitar os chatos que reclamam de tudo, tanto dos fracassos quanto dos êxitos, tomo sol.

No meu passo, não me quero parado, vegetando em angústias, vou porque usufruo e não me atropelo. Escuto, escutam-me; observam-me, observo-os. Experimento, vivencio o que não sei o que é, decodifico-o, leio-me, sou visto. Sinto alegrias e euforias. Já meio desnorteado, temo o desregramento. Na falta e na fartura, tento manter alguma meta.

Como não aproveitar a ladeira do morro onde moro?

Com a madeira que consegui juntar, caprichei no fórmula 1. Agora, para desatar o divertido, faltam apenas os rolimãs.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de março de 2023.

quinta-feira, 23 de março de 2023

De novo, o amor

 

De novo, o amor

 

Na vida, tem hora que gangorra diverte mais que escorregador.

Eis que o Luisinho me aparece num momento oportuno. No instante em que me acho suspenso na ânsia de encontrar um título pra crônica acabada de ser escrita, muito me alegra contar com esta sua vocação infantil pra dizer a coisa errada com as palavras certas.

Tão logo termino de ler, pra realçar a essência do texto, emendo:

ꟷ Verdades necessárias e outras nem tanto.

ꟷ Tolices necessárias e outras besteiras, replicou de pronto.

No sobe e desce da nossa conversa, argumento que há títulos que precisam revelar o conteúdo, sendo desaconselháveis a burla, a ironia, o apelo a razões sentimentais.

Uma vez que o engenho de jogar-se à compreensão do sutil cabe a quem lê, menos problemático é precaver-se das leituras enviesadas, pois nem toda gente filtra o humor pelas dissonâncias.

ꟷ Em time que está perdendo, se mexer, piora.

ꟷ Nada sai do vermelho pro azul se não houver mudança.

ꟷ Nem é necessário comparar Elis Regina com MC Pirralhinha para sacar que o saldo é evidentemente positivo.

ꟷ Pra quem lucra com isso, é evidente mesmo.

ꟷ Quando se perde, é fácil espinafrar. Difícil é lutar para vencer. Se a prioridade é sair do vermelho, que sejam feitas tantas trocas quanto forem necessárias, até que a vitória ocasional principie uma série feliz, com resultados consistentes, sem que a desconfiança atribua o êxito ao acaso, como se a sequência fosse um soluço que não passa, como se a trajetória azul fosse uma ilusão reconfortante, algo que alegra que nem bolhas de sabão soltas ao vento.

ꟷ Concordo! Bolhas duram mais longe dos espinhos, né?

ꟷ Não seja xarope. Pois as transformações baseadas em certezas mostram perseverança e segurança de quem caminha rumo ao pódio. Sem obsessão pela vitória, o vencedor nem merece levantar o caneco. Como o vitorioso avança a cada conquista, a cada disputa vencida, ele não hesita, toca em frente. Corre o mais rápido que pode, salta o mais alto que possa, nada o quanto aguentar. Quem não esmorece que trate de corrigir falhas, minimizar deficiências, superar-se a cada embate. O que está em jogo não é apenas a medalha de ouro que é dar entrevista, arrisca-se pelo mérito de saborear a glória neste instante. Até porque não há futuro pra quem luta pelo reconhecimento agora.

ꟷ Taças são joia valiosíssima!

ꟷ Quem não ama uma tacinha de campeão?

Radamés e Verônica sabem que se amam desde que começaram a namorar, nos tempos do colegial.

Este ano o casal vai comemorar bodas de pérola. Não haverá festa de arromba nem fotos e mais fotos nessas redes por aí.

Com a consciência de que a maçã do amor que irão saborear a dois pode mesmo ser comparada a taças vistosas numa galeria de prêmios inoxidáveis, ela e ele sabem que o fruto deste amor está bichado pelas pessoas que o almejam, o desejam reluzente.

ꟷ Mordam-se, amadores!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de março de 2023.

terça-feira, 21 de março de 2023

Na hora agá

 

Na hora agá

 

Quando a manga está estragada, não vai pro lixo a fruteira. Assim, a vida não fica resumida a pães sem manteiga, há cafés de meia hora e cafezinho com a barriga no tanque. Sim, é para tirar nódoa de manga que se põe de molho em alvejante a camiseta maculada.

Hoje é exemplo do que pode ser chamado de um dia bom.

Estou em dia com os afazeres, ando devagar, olho pros dois lados ao atravessar a rua e dou atenção a quem pede um minuto.

Se a pessoa ganha a vida tentando vender alguma coisa, se batalha na rua por um prato de comida, tenho até dois minutos.

Deixo que apresentem as maravilhas do produto que têm pra hoje, mas não enrolem nem titubeiem. Façam-me nelas acreditar que sabem o que, não só a mim, anunciam ao público em geral.

ꟷ Um instante, por favor. Posso colocar seu nome na oração?

Por não ser indiferente a quem avaliza as respostas que a religião tem a oferecer, não autorizo ninguém que ore por mim. Por um singelo motivo: não oro porque não tenho fé.

Medito; tento dar paz à cachola; busco a serenidade quando escuto música; respiro em silêncio pra que me sossegue o quanto posso. Mas eu só viajo pelo mundo afora com a Pastoral do Beethoven.

ꟷ Senhor, eu vendo sem medo este remédio, porque o produto tem resultado comprovado. Muita gente conhece. Tanta gente sabe que ele dá solução pra dor nas juntas, pro mal jeito no espinhaço, pro cansaço da cuca, pra cabeça que nunca relaxa. Se o senhor experimentar e não sentir melhoras depois de uma semana, venha me procurar que eu lhe devolvo na hora os seus dez reais. Olha, meu amigo, a verdade é uma só: não quero pros outros o que não quero pra mim. Bastou tomar meia garrafa pro sofrimento que eu tinha na sola do pé sumir de vez.

Sei não. Para juntar os cacos do coração, bom é cerveja.

ꟷ O doutor me permite uma palavrinha?

Quem dera estivesse apressado, que a minha real prioridade fosse bebericar uma cervejinha no boteco mais próximo. Mas, abstêmio e de bem com a humanidade, paro para ouvir-lhe o tal palavrório.

ꟷ Doutor, o excelentíssimo não irá se arrepender de ter parado pra de mim ouvir uma história triste, tocante, que mexe com a alma de toda gente que me ouve porque não conto carregando nas tintas da miséria e do padecimento. Falo a verdade, e Deus testemunhe que falo mesmo apenas essa verdade: a vida sabe ser cruel com quem nem tem armas para se defender das injustiças. Doutor, não é pra mim que peço ajuda, é por uma família de inocentes. O senhor há de concordar comigo que inocentes têm sempre que ser protegidos e amparados quando houver necessidade. Lamento dizer, mas é o caso. Excelência, seja solidário. Neste instante, doutor, tem um bando de infelizes querendo, na marra, tirar da praça uma família de maritacas.

ꟷ Doutor, colabore com a causa!

Decidido a quebrar no meio o estilingue que o menino em mim ainda me faz guardar em casa, assino meu nome com letra de forma.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de março de 2023.

 

domingo, 19 de março de 2023

O imprevisível

 

O imprevisível

 

Uma pessoa, aquele homem com vistosas cãs particularmente nas têmporas, postar-se a um palmo de um portão, em cuja parte posterior está um cão pouco amistoso, é clara demonstração de maturidade.

Como dois mais dois são quatro, o homem se permite impressionar por cães de guarda. Gosta de vê-los belos, com dentes arreganhados, ao natural dos instintos. Fascinante é o olhar deste homem que fala ao celular sobre cal, areia e cimento e nada sobre caninos e rosnado.

Aquele é um cão sem treinamento. Por não estar domesticado para a defesa do território em que vive, do portão para dentro, ele zanza. Se aproxima da grade, recua. Não é por medo que ele urina seguidamente na palmeirinha do jardim.

Quando não há medo, não há coragem.

Não sendo corajoso, é cão que não conhece o valor das tigelinhas de ração, não estima quais sejam as propriedades da água que lhe dão de beber, não define o que vem a ser uma residência privada.

Pelo caráter e não pelo viés, na luta sem classe pela sobrevivência, a raiva do cão dista do ódio humano. Por audácia indômita, certa gente ataca covardemente, à sorrelfa, sorridente.

Antes de Sócrates, disseram: autocontrole é coragem.

Por óbvio, pode-se inferir como aleatória a associação destes dois pensamentos: quem escuta “ontem choveu” não calcula que “amanhã choverá”; quando o telefonema o deixa livre, sai de cena o homem.

Ao bêbado que observa não seja atribuído que ele imagina a grade como espelho, que, face a face, estejam  homem e cão, sombra e luz, veneno e remédio, faca e gume, relâmpago e trovão, carne e unha.

Tão logo o bobalhão de telefone na orelha deixa a praça, o filósofo descalço, este bêbado de alma apaixonada, sossega como aquele cão deitado à sombra da palmeirinha.

O cão talvez pressinta, o bêbado não, mas tem um temporal vindo. Forma-se pros lados da represa; adensam-se as nuvens; uma ventania começa a girar as pás das torres de energia eólica fincadas à margem do espelho d’água, cuja linha torna visível o vento que sopra.

A consciência embriagada desencadeia:

“Você não aprende. Vire e mexe está metido em encrenca. Se você sabia que não tinha dinheiro, por que não pediu trocados? Tanta gente passando e você olhando, besta, aquele zé mané a atiçar o coitado do cachorro atrás do portão. Fosse esperto o bastante teria tirado proveito e pedido dois reais até pro bocó de celular no ouvido. Inteligente seria pedir ao zé ruela que enfiasse a mão no bolso, que desse o suficiente pra outra garrafa. Quem vive de ilusão, vive de autoengano. Não seja outro zé mané com inveja de quem exibe celular na praça. Quem tem memória curta não muda o rumo da prosa. Memorizar não é aprender. Saber de cor a tabuada e conjugar direitinho os verbos, pra quê? Você se perde pelos caminhos, mas a praça volta e meia reaparece no lugar. Faça sol ou chova, você não liga pro mundo.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de março de 2023.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Mão aberta

 

Mão aberta

 

Quando a campainha soou, por medo de permanecer insensível ao mundo, à mulher agachada bastou aquele único toque para abandonar a caixa de sapatos, cujo ventre aberto expunha fotos e docs.

Antes de entrarem, nomeando folhagens e flores, ela foi específica em suas observações. Vergonhoso é revelar-se relapso, porque jardins são cartões de visita. Diante de canteiros sujos e selvagens, só gentes sujas e selvagens vão querer botar as patas dentro de casa. Nada mais distante da verdade que imaginá-la um antro para bestas indômitas, o que, de maneira alguma, a sua residência era.

“Não semeie sem a necessária preparação da terra, primeiro afofe-a. Não a irrigue em demasia, pois água em abundância mata as raízes. Corrija displicência com intransigência, arrebanhe, um a um, assim que identificá-los, todos os tufos de erva daninha.”

Como os gatos exalam o nonchalance dos charmosos, ela sabia ser agressivamente ordinária com suas unhas elegantes.

Convicta de que é pelo exemplo que se educa, “deixe de nove horas com estas pragas que infestam tudo quanto é cantinho; elas sabem ser bonitinhas apenas para encobrir a desgrama que produzem”, a mulher arrebatou um brotinho de beldroega.

Exaltada como um cão que fareja perigo no cheiro que desconhece, nela latiu forte a compaixão, uma abrupta afeição pelo cuidado com os canteirinhos do seu jardim.

“Roseiras são um tipo de bicho bem traiçoeiro, como o bugio.”

Sem medir a obscuridade do que disse, a mulher largou a plantinha arrancada, que foi acabar aos pés da roseira.

“Meu avô vivia falando que a minha mãe foi moça imprudente, que não punha fé no seu conhecimento de homem do campo. A minha mãe tinha razão, bugio é bicho do mato que não vandaliza penteadeira atrás de vidro de laquê. No calorão da madrugada, era ridículo querer dormir com a janela do quarto fechada.”

Batendo as mãos para limpá-las da terra, a mulher verificou melhor as unhas. Havia terra, e um galhinho fino foi-lhe útil na limpeza.

“Na verdade, quem se parecia muito com bugio era o meu avô.”

Para arrebatar um tufo de capim, ela voltou a ajoelhar-se.

“Com mamãe fazendo as vezes de enfermeira, tive de conviver com ele em nossa casa. Sem receber um real, ela dormia de porta aberta e se levantava para ir acudi-lo ao menor ruído no meio da noite.

Fosse por uma tosse esporádica, ajeitava suas cobertas. Por uma respiração murmurante, tinha um chá quentinho. Quando chamada, ela não tropeçava na angústia de socorrê-lo no que lhe fosse urgente.

O fato é que o meu avô não precisava bater no peito ou escancarar os dentes, suspiros e gemidos já demarcavam a influência.”

A mulher pôs um punhado na mão, friccionou a terra com o polegar.

“O solo anda pobre. Até o cheiro já não é o mesmo.”

Tão logo a senhora ofereceu-lhe um salário e meio:

ꟷ Não sou jardineiro, dona, eu vim pra acertar a internet.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de março de 2023.