domingo, 19 de março de 2023

O imprevisível

 

O imprevisível

 

Uma pessoa, aquele homem com vistosas cãs particularmente nas têmporas, postar-se a um palmo de um portão, em cuja parte posterior está um cão pouco amistoso, é clara demonstração de maturidade.

Como dois mais dois são quatro, o homem se permite impressionar por cães de guarda. Gosta de vê-los belos, com dentes arreganhados, ao natural dos instintos. Fascinante é o olhar deste homem que fala ao celular sobre cal, areia e cimento e nada sobre caninos e rosnado.

Aquele é um cão sem treinamento. Por não estar domesticado para a defesa do território em que vive, do portão para dentro, ele zanza. Se aproxima da grade, recua. Não é por medo que ele urina seguidamente na palmeirinha do jardim.

Quando não há medo, não há coragem.

Não sendo corajoso, é cão que não conhece o valor das tigelinhas de ração, não estima quais sejam as propriedades da água que lhe dão de beber, não define o que vem a ser uma residência privada.

Pelo caráter e não pelo viés, na luta sem classe pela sobrevivência, a raiva do cão dista do ódio humano. Por audácia indômita, certa gente ataca covardemente, à sorrelfa, sorridente.

Antes de Sócrates, disseram: autocontrole é coragem.

Por óbvio, pode-se inferir como aleatória a associação destes dois pensamentos: quem escuta “ontem choveu” não calcula que “amanhã choverá”; quando o telefonema o deixa livre, sai de cena o homem.

Ao bêbado que observa não seja atribuído que ele imagina a grade como espelho, que, face a face, estejam  homem e cão, sombra e luz, veneno e remédio, faca e gume, relâmpago e trovão, carne e unha.

Tão logo o bobalhão de telefone na orelha deixa a praça, o filósofo descalço, este bêbado de alma apaixonada, sossega como aquele cão deitado à sombra da palmeirinha.

O cão talvez pressinta, o bêbado não, mas tem um temporal vindo. Forma-se pros lados da represa; adensam-se as nuvens; uma ventania começa a girar as pás das torres de energia eólica fincadas à margem do espelho d’água, cuja linha torna visível o vento que sopra.

A consciência embriagada desencadeia:

“Você não aprende. Vire e mexe está metido em encrenca. Se você sabia que não tinha dinheiro, por que não pediu trocados? Tanta gente passando e você olhando, besta, aquele zé mané a atiçar o coitado do cachorro atrás do portão. Fosse esperto o bastante teria tirado proveito e pedido dois reais até pro bocó de celular no ouvido. Inteligente seria pedir ao zé ruela que enfiasse a mão no bolso, que desse o suficiente pra outra garrafa. Quem vive de ilusão, vive de autoengano. Não seja outro zé mané com inveja de quem exibe celular na praça. Quem tem memória curta não muda o rumo da prosa. Memorizar não é aprender. Saber de cor a tabuada e conjugar direitinho os verbos, pra quê? Você se perde pelos caminhos, mas a praça volta e meia reaparece no lugar. Faça sol ou chova, você não liga pro mundo.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de março de 2023.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Mão aberta

 

Mão aberta

 

Quando a campainha soou, por medo de permanecer insensível ao mundo, à mulher agachada bastou aquele único toque para abandonar a caixa de sapatos, cujo ventre aberto expunha fotos e docs.

Antes de entrarem, nomeando folhagens e flores, ela foi específica em suas observações. Vergonhoso é revelar-se relapso, porque jardins são cartões de visita. Diante de canteiros sujos e selvagens, só gentes sujas e selvagens vão querer botar as patas dentro de casa. Nada mais distante da verdade que imaginá-la um antro para bestas indômitas, o que, de maneira alguma, a sua residência era.

“Não semeie sem a necessária preparação da terra, primeiro afofe-a. Não a irrigue em demasia, pois água em abundância mata as raízes. Corrija displicência com intransigência, arrebanhe, um a um, assim que identificá-los, todos os tufos de erva daninha.”

Como os gatos exalam o nonchalance dos charmosos, ela sabia ser agressivamente ordinária com suas unhas elegantes.

Convicta de que é pelo exemplo que se educa, “deixe de nove horas com estas pragas que infestam tudo quanto é cantinho; elas sabem ser bonitinhas apenas para encobrir a desgrama que produzem”, a mulher arrebatou um brotinho de beldroega.

Exaltada como um cão que fareja perigo no cheiro que desconhece, nela latiu forte a compaixão, uma abrupta afeição pelo cuidado com os canteirinhos do seu jardim.

“Roseiras são um tipo de bicho bem traiçoeiro, como o bugio.”

Sem medir a obscuridade do que disse, a mulher largou a plantinha arrancada, que foi acabar aos pés da roseira.

“Meu avô vivia falando que a minha mãe foi moça imprudente, que não punha fé no seu conhecimento de homem do campo. A minha mãe tinha razão, bugio é bicho do mato que não vandaliza penteadeira atrás de vidro de laquê. No calorão da madrugada, era ridículo querer dormir com a janela do quarto fechada.”

Batendo as mãos para limpá-las da terra, a mulher verificou melhor as unhas. Havia terra, e um galhinho fino foi-lhe útil na limpeza.

“Na verdade, quem se parecia muito com bugio era o meu avô.”

Para arrebatar um tufo de capim, ela voltou a ajoelhar-se.

“Com mamãe fazendo as vezes de enfermeira, tive de conviver com ele em nossa casa. Sem receber um real, ela dormia de porta aberta e se levantava para ir acudi-lo ao menor ruído no meio da noite.

Fosse por uma tosse esporádica, ajeitava suas cobertas. Por uma respiração murmurante, tinha um chá quentinho. Quando chamada, ela não tropeçava na angústia de socorrê-lo no que lhe fosse urgente.

O fato é que o meu avô não precisava bater no peito ou escancarar os dentes, suspiros e gemidos já demarcavam a influência.”

A mulher pôs um punhado na mão, friccionou a terra com o polegar.

“O solo anda pobre. Até o cheiro já não é o mesmo.”

Tão logo a senhora ofereceu-lhe um salário e meio:

ꟷ Não sou jardineiro, dona, eu vim pra acertar a internet.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de março de 2023.

terça-feira, 14 de março de 2023

Canção noturna

 

Canção noturna

 

Se é pra se sentir só, melhor acompanhado.

Quando a janela tem cortinas bonitas, a paisagem não fica reduzida ao exterior da casa, ela adentra o cômodo de modo suave. A transição do exterior pro interior se dá de forma emocional, não sentimental.

O formato da janela enquadra, mas o vão é vereda pro que entra e pro que sai. Como membrana de célula, a porosidade torna possível o fluxo. Fluindo, a beleza de perceber-se vivo produz encantamento.

O cotidiano acorda o pensamento, faz com que a mente se debruce sobre a percepção deste estado do espírito. Ou seja, a pessoa que se sente encantada, procura entender-se. A consciência racionaliza, quer compreensível o sentido. Porque pensa, desencanta-se.

A realidade se enreda nas explicações, pois, na mente, elas vão se engatando umas nas outras como se a trama criasse vida. Anestesiada pela razão, a pessoa age como se estivesse tramando melhor. O tecido do que se apresenta como resposta nem aponta pra pergunta.

Que encanto de pessoa vai pra rua enquanto chove?

A lógica do ciclo da água institui que há evaporação, condensação e chuva, mas este mecanismo natural acarreta o incômodo da pessoa que lê por horas, tem a bunda achatada e raciocina: sem almofada no assento da cadeira, o jeito é dar uma volta.

Se isso explica o homem parado debaixo de chuva, é discussão pra quem estuda comportamento humano. Com permanência prolongada, é isso que permite observá-lo sem induções levianas.

Descalço, de óculos e de pijama, eis um homem resignado: há mais de um minuto, está na chuva.

O pijama azul bebê é conhecido. Aquela careca circula pelo bairro faz pouco tempo, há uns seis ou sete anos. O careca de pijama gosta mais da chuva que dos remédios manipulados sob medida.

O camarada azul bebê é criança coberta por rugas. Ele se comporta como fossem justos os oito anos que julga ter. A vizinhança conhece a história da primeira vez. Tocavam dobrado pela Padroeira Aparecida, foi um escândalo. Basta vir um temporal, ele nem sente que se apagam novamente os setenta e nove.

O que emociona é vê-lo tão tranquilo. Por certo, se os especialistas aceitarem o diagnóstico vulgar, a luta é pela impassibilidade por atos e palavras, em pijaminha quarenta e oito.

Há quem surte como diabo pondo abaixo o que encontra pela fuça; esse carequinha, no aguaceiro, ousa ficar parado.

Quem entende de estruturas psíquicas pode dizer o quão vibrante é uma cachola ao querer saber dos efeitos enquanto os produz.

Se crianças brincam em enxurrada, esse careca limpa os óculos.

Tal figura é inconfundível.

O luminoso da farmácia apresenta defeito. Tanto pisca que mexe com o quarteirão. O luminoso da lotérica também pisca. Piscam um e outro, como velhos conhecidos papeando.

O bebê carequinha escuta aquela canção iluminada, tanto gosta de escutá-la que sua alma canta em silêncio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de março de 2023.

domingo, 12 de março de 2023

A ilha amarela

 

A ilha amarela

 

Lá no fim do infinito, onde o olho suspeita que o silêncio exista como coisa mental, feito alucinação, onde céu e terra se fazem de dupla, com rosto no rosto, desse bolero mudo vem a figura caminhando pra cá.

Bem como o sol da manhã busca o zênite, pra tirar à sombra o que muito diz da seriedade da hora, a mancha enegrecida avança.

A quem lhe marcasse o passo, um taque-taque sem descompasso, esse quem perceberia naquele corpo a firmeza moral da pessoa.

A quem transubstancia distância em massa muscular, essa nuvem materializada gente nem percebe, mas sua cabeça carrega no gris do pensamento: com trabalho a ser feito, mãos e braços trabalharão.

Se pinceladas materialistas retocassem a paisagem, fale-se no sol que ilumina o chão que se move: além do homem, há uma rã.

Dos dois lados da estrada, é brejo.

Não um brejo pantanoso, um recanto. Sem antas, jacarés e sucuris, é brejinho cuja singeleza dispensa panorâmicas de drone. Tão singelo, radiante de vida, com passarinhos, borboletas e joaninhas.

Sem diminuir o passo, o homem vê a tal rã cruzando a estradinha. Antes da ponte, de uma margem à outra, ela passa devagar.

Aceitando a tentação de ignorar as capivaras do banhado, porque o brejo é várzea inundada por chuvas de verão, o observador pode ver que, às costas, o homem leva a sua mochila.

Quem é de hipóteses socioeconômicas diz que o trabalhador, pela necessária preservação da energia, leva somente o essencial, que é a marmita de arroz com feijão.

Por arrazoados ludo-políticos, quem é de sondar o inefável diz que homem algum vive só de arroz e feijão, daí a bola murcha.

Para quem tem outras presunções, o homem que caminha, a rã que salta e a bola murcha não apagam o vasto absurdo do mundo.

Por requisito realista, na fábula os animais humoristas são retirados para que os pensamentos da rã parada à beira do caminho ganhem as devidas aspas.

“Afora marmita e bola murcha, o sujeito dispõe de duas colheres, a de sopa pra comida fria e a outra pro assentamento dos tijolos.”

Embora a poeira colada na pele não produza paradoxos, é razoável que a rã pense que sua opinião tem fundamentações inevitáveis.

“As engrenagens do universo funcionam maravilhosamente porque nem duvidam que são mecanismos perfeitamente funcionais.”

Sentada no banco da pracinha, a uns sete metros do encontro sem estrondo da terra com o asfalto, a pessoa que observa não vê que uma tartaruga entra na cena em construção.

“A bola rolará depois do almoço. Os homens jogarão. Das operárias da obra, nenhuma jogará. Sem árbitro que dê palpites, haverá xingos. Pelo fuzuê do empurra-empurra, a pelada findará.”

O que a tartaruga não conjectura é que à engenheira, sem engasgar com o bife a cavalo, chegam as terríveis notícias de Gaziantepe.

Mais ao fundo, quase à cabeceira da ponte, em meio ao banhado, a frondosa ilha amarela é um ipê.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de março de 2023.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Que quartzo!

 

Que quartzo!

 

O professor escrevia datas e nomes relativos à Guerra do Paraguai, as alunas e os alunos copiavam. Com o dever patriótico de copiar datas e nomes, sabiam de cor: baderneiros dançam na vida.

Por conta das centenas de fotos de quem passou as férias na praia, no fundão a aula era outra: não ser apanhado de celular em punho.

Como professores têm olhos na nuca, a história tomou outro curso: que Stanislaw trocasse de lugar com o Torelly ou os aparelhos seriam confiscados.

Embora arteiros costumem contestar, a ordem foi cumprida: aquele à direita passou-se à esquerda, e a pomba da paz pousou no poste.

Era um poste, não o busto de bronze de eminente preboste.

Na dúvida, busque-se num mapa de aplicativo: no Itororó, a Duque de Caxias cruza com a Barão de Itararé.

Para avançar por vereda diversa, há mestres que ministram aula de outro quilate. Pondo em tela que “a criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer”, anote-se que: são oito as barbatanas do tubarão, canguru tem marsúpio; mas cara de pau, até Pinóquio.

Platônicos de plantão, passado o apagador, tirem outra ilação.

Com a luz acesa, o quarto é diminuto. Para tomá-lo do tamanho que se queira, feche-se os olhos. Esvazie-se de imagens; torne profunda a escuridão em que se esteja abarcado. Nem assim o real fica abstraído na circunstância: gente acordada na cama é pinto no lixo.

No escuro, sinta-se a necessidade de conservar-se deitado. Já que a mente é uma máquina de gerar abstrações, não lute consigo.

Se for filosofar, pegue no sono ou acorde pra noite.

Cuide-se para não cair no desassossego de um sonho pesado. Seja precavido, prenda as cobertas. Acalme-se, procure lembrar-se do avô cheio de marra: ronco brabo não deixa ninguém banguela.

Banguela ficou um mochileiro. À traição, o esmurraram.

Uma vez ao ano, por um mês inteiro, o rapaz ficava numa pousada em algum lugar da Calábria, Campânia ou Basilicata.

Pra não aporrinhar com pormenores irrelevantes: foi comendo uma brachola que ele teve a ideia de registrar o que comia.

Foi a solução pro novelo das dívidas: em vez de gastar com cartões-postais para vendê-los no Patropi, o telefone virou instrumento para a reviravolta que tanto carecia.

Antes de postar cada uma das imagens, transformava-a em NFT. E a coleção da comida italiana avolumou-se. Chamou a atenção de muita gente. Criou-se o burburinho. E boca a boca a rede ficou sólida. Havia seguidores relapsos, de curtidas esporádicas, até os fanáticos que não só as davam, cobravam-nas.

Por zap, pediram ao viajante que enviasse uma seleção especial de torrones. Fotos sem truques, e imagens impressas.

Com providências já tomadas, que imbróglio.

Em Itaí, o pacote seguiu ao protocolo, mas, no interior do prédio, a encomenda foi entregue à pessoa que nada esperava da Itália.

Andrea é nome de homem, porca miséria!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de março de 2023.

terça-feira, 7 de março de 2023

Nervosinho

 

Nervosinho

 

Urgente! São dez horas e cinquenta e cinco minutos de um dia cujo único compromisso inadiável está agendado há trinta dias, dali a cinco míseros minutinhos.

Sair de casa atrás de nuvens que sinalizem catástrofe iminente não faz com que o mormaço creme cães, gatos e gente afobada.

Olhando de perto, o afoito não passa de um procrastinador, a quem a afobação nutre-se da ansiedade e a ansiedade provém da barriga, já que é empurrando mais um tanto que se acumulam coisas por resolver.

É agora! Preste-se atenção do outro lado. Ninguém nota o motorista que solta o cinto. Não há quem repare que tem algo nas mãos.

Putisgrila! O homem começa a sorrir já estando próximo.

ꟷ Trouxe o convite pro meu casamento.

Putz! Estressante é posar de calmo enquanto a mente tiquetaqueia.

Além do anúncio das núpcias, são onze em ponto!

Calêndulas! Buganvílias! Miosótis!

Com a manipulação das forças psíquicas que se manifestam como natureza humana, até onde for permitido especular a respeito, o sujeito à beira de piripaque traz na tez as suas dissonâncias cognitivas.

Uma vez revelados as suas cores, as suas dores e os seus amores, bom é nem dar ouvidos a quem só fala que a vida vai mal.

Ai viola, bela viola, cuja beleza nada tem de sonolenta.

Pelo que erra quando acerta, a pessoa tem discussão desgastante consigo mesma se acha que tem certeza de que está errada.

Vamos! Coma pipoca com sal a gosto.

Evoé! Lamba no dedo o salgadinho bom da vida.

Ai aspirinas! No canto obscuro do espírito, a alma silente descubra que o manto do mundo encobre mágoas e feridas.

Quem não se satisfaz com as respostas, escreve.

Valha o escrito: que belo astral tem a manhã.

Cronologicamente, segundo o estimado por entendidos em ciências astronômicas, o Sol aquece o campo a partir das horas tantas.

Cosmicamente, o guri beija sua mamãe sem ligar para fotossíntese, economia verde e transição de gênero.

Cáspite! O Sol faz crescer girassol, pé de cana e a luneta que espia a loira nua na casa do fim da rua.

Sim! O Sol nasce. O Sol desce. O crepúsculo ofusca.

Vem a noite dizer a quem sofre que nem bebendo a dor passa. Vem a madrugada dar paixão a quem ama tanto o que deseja. Vem a aurora acordar um bicudo no peito de quem desperta sozinho.

Calma!

Fulano trinca enquanto a balada come solta.

Fulana quer briga porque beltrano pulou a cerca.

Se sicrano ama calabresa, pode muito bem amar lasanha.

Sim! O Sol sobe. O Sol brilha. O Sol não murcha.

Nervosinho, pra não acabar em frangalhos, vá à feira, coma pastel, sinta o gosto. Telefone pra quem faz tempo não lhe ouve a voz. Visite quem não desespera à toa. Recorde histórias hilárias, pois é raro quem não goste de rir. Vá mesmo à feira, vá comer pastel, mas, por gentileza, espere o troco, saiba esperá-lo.

Com tudo certo, tem algo errado? Pode ter conserto.

Nervosinho, nem todo mundo que erra na conta quer sua desgraça.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de março de 2023.

domingo, 5 de março de 2023

Parabéns

 

Parabéns

 

Pobre de mim que estou perdido. Vim sem lista, não porque a tenha deixado em casa, não a fiz porque nem pensava em vir para cá.

Primeiro, fui à praça.

Quando estou estressado, sigo o roteiro que fazia quando tinha um cachorro. Erro por travessas, encomprido o caminho, ando mais lento que o costumeiro, passo pelo coreto, contorno o chafariz, abençoa-me a Santa a cada vez que desfilo a seus pés, sigo apostando que a fadiga há de informar à minha cabeça que ambos, o meu cão imaginário e eu, nos exercitamos o bastante.

Se é enganosa a felicidade de ter desviado o foco, é satisfatório não pensar em trabalho. Usufruir do bem-estar faz-me pensar em gratidão. E agradeço ao capital por erguer da lama a mais bela catedral em que o presente dá de desvelar-me um bocadinho feliz.

À deriva entre as gôndolas, de cestinha vazia, acham-me.

― A Branca de Neve tem que desculpar ― disse o garoto.

― Menino, não deixe a gente constrangida ― disse a avó.

― O meu neto quer ser escritor como você ― disse o avô.

Dito assim, não dá para entender muita coisa deste encontro.

Tão logo o avô contou que eu era escritor, a criança lembrou-se da história que a sua avó lhe conta à mesa do café, daí aquele abraço nas minhas pernas e seu carinho ao afagar meu rosto.

― O senhor conhece a Branca de Neve?

― Olá, rapazinho. Como você está?

― Diz pro moço se está tudo bem com você.

Nossos narizes resvalam-se enquanto ele fala comigo:

― Está tudo bem, moço. Mas o senhor conhece a Branca de Neve?

― Você não vai nem me falar qual é o seu nome?

― Se apresenta direito, Enzo. Diz pro moço como você se chama.

― Meu nome é Enzo, moço. Mas se o senhor é escritor de verdade, então, o senhor conhece a Branca de Neve.

― Olha, Enzo, eu conheço a história da Branca de Neve porque na casa dos meus pais tinha muitos livros.

― A Branca de Neve mora num livro?

― Não, não. A Branca de Neve mora do País do Faz de Conta.

― E quantas vezes o senhor já foi ao País do Faz de Conta?

― Sempre que leio uma história de mentirinha eu estou lá.

― Eu sabia! Quando a vovó conta história eu fico na casa dela, não vou pro País do Faz de Conta porque não sei ler.

― Não fique chateado com isso, pois você é bem novinho. Quantos anos você tem, Enzo?

― Faz com os dedinhos quantos anos você tem.

A criança mostra que tem três anos.

― Tá vendo? Na idade certa, você vai...

― O senhor tem que falar pra Branca de Neve que não foi por querer que soltei pum.

― Enzo, não fala essas coisas pro homem.

― Mas, vovô, o pum escapou.

― Tudo bem. Todo mundo solta pum. Eu também solto pum.

Quem acha melhor esclarecer é a avó:

― Sabe o livro do Ilan Brenman? Aquele que fala das princesas que soltam pum? Ele ama de paixão. Toda vez que a gente toma café junto, eu tenho que ler. Nossa Senhora! Como o meu príncipe ri.

― Eu soltei pum na hora que fui assoprar as velinhas do bolo, daí a Branca de Neve dormiu profundamente porque cheirou meu pum bem fedorento, moço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de março de 2023.

quinta-feira, 2 de março de 2023

Noite passada

 

Noite passada

 

Para amanhecer ontem, a madrugada nada teve de extraordinário. E noites sem pipocos nem zumbis a mim me agradam porque abro as janelas, assisto ao espetáculo silencioso do céu misterioso.

O universo me desafia a entendê-lo além dos mistérios, porque leio e respiro o que seja sagrado não como fonte no meio da mata fechada, mas como clareira, lugar em que me sento, faço uma fogueira quando sinto frio, me deito com as mãos na nuca, sem horror ao mundo.

Com o engenho humano de escutar o mundo, não porque me seja sagrado o direito ao espanto, quero sondá-lo sem apelo a escândalos.

De repente a tela do celular iluminou o quarto, mas só notei que me telefonavam porque o aparelho vibrava a um palmo do meu ouvido.

Nem repetirei o palavrão que me assaltou de pronto, pois, outra vez nesta semana, esqueci o telefone ligado.

Sem vergonha alguma, posso dizer que não atendi nem olhei quem me ligava de madrugada, pois tolices são desabonadoras.

Compreendo os tolos, mas compreensão não é benevolência.

Não atendi, mas caí na besteira de ler as notificações.

Que ignorante tenho sido, nem sabia que há vinícolas gaúchas que nunca ouviram falar da Declaração Universal dos Direitos Humanos. E como eu sei que os meus compatriotas sulistas são empresários ciosos dos deveres trabalhistas em desuso, suplico-lhes que consultem outro código que afrontam, a CLT. Como em rinha de plantadores de vinhas contra trabalhadores aviltados é justo metermos o bedelho, assim, para que todo mundo saibamos honrá-los como veros fraternos e solidários escravocratas, pelos hediondos crimes cometidos, metamos.

Quantos vestígios de um Brasil tão imperioso, pombas!

Uma vez acordado, fui à sala desligar o alarme do despertador cujo pino de acionamento estava destravado.

Abri a janela para sentir o cheiro da noite molhada. Aproveitei para apagar a lâmpada externa, que, mais uma vez, esqueci acesa.

Já que me sentei na varanda para fumar, deixei o pensamento sem amarras, naveguei ao léu das ondas, fui me esquecendo do atarantado que ando sendo, nem apressei a aurora de logo mais.

Se pensar ao sabor dos acasos é uma forma de meditação, medito quando estou só. Sem as estripulias da vida diurna, quero-me sereno.

Pra amanhecer hoje, chove.

Contas e desencontros não abalam meu sono, mas a chuva tem um barulhinho agradável de se ouvir.

Do outro lado da rua, protegido pelo toldo da pizzaria que faliu, tem um homem que faz tempo eu conheço, é o Malaquias.

Com mão à nuca, deitado em pé, tem uma bituca apagada na boca. Apagada, porque ele não fuma desde que a pneumonia pegou firme e veio a tuberculose e foi diagnosticado o enfisema.

Vendedor de vassoura e garrafadas, ajudante de pedreiro, feirante, biriteiro, tocador de tarol em procissão, zabumba em arrasta-pé e caixa de fósforo nas serestas, Malaquias é amante das auroras.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de março de 2023.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Esgotamento

 

Esgotamento

 

“De folga hoje?”

“Tô de licença médica.”

“Tem o quê?”

“Cansaço.”

“Cansado? O ano mal começou e o senhor tá cansado, é?”

“Tô, rapaz, tô bem cansado. Cê vai achar que faço graça, mas falo sério. Não foi só a lama do temporal que acabou comigo, passar o final de semana limpando casa só piorou a bagaça toda.”

“Agora que comentou, não é que tem razão? Cê tá tão acabado que até espelho corre da sua cara feia.”

“Não brinque. Passei a madrugada de sexta tentando salvar o que desse, mas perdi cama, sofá, o beliche das crianças, geladeira, fogão, máquina de lavar, até a casinha do cachorro.

“Nossa! E agora, meu chapa?

“Pois é, rapaz, tomei um prejuízo e tanto. Não tenho ideia de como vou fazer pra comprar tudo de novo.”

“Vai ter que trabalhar em dobro.”

“Tá tirando onda com coisa séria, rapaz? Caraca, tenha compaixão. Com mulher e três filhos pra dar de comer, estou ferrado.”

“Não tô tirando uma, não. Falo sério, seríssimo. Se quer ter tudo de volta rapidinho, você vai ter que encarar dupla jornada. Limpar a escola e limpar vidro de escritório. Não vejo outra saída, cara.”

“Comprar as coisas que perdi não é problema. Meu salário dá bom crédito pros boletos, mas o que preocupa é o meu físico.”

“Tá querendo enganar quem? O seu muque é de quem malha.”

“Que nada. Já era aquele jovem que tinha braço pra colocar guarda-roupa em carroceria de caminhão. Aquele moço não existe mais. Agora só sinto é dor no peito quando me esforço além do que posso.”

“Meu amigo, tome de vez o sorvete antes que ele vire suco.”

“O que é isso, cê pensa que tô alucinando? Rapaz, gente que nem eu, que nunca nadou em dinheiro, conhece da vida que suco tem mais é que ser bebido, jamais jogado com copinho e tudo.”

“É bom mesmo que cê não jogue lixo de plástico por aí, pois a chuva vem e leva tudo pro bueiro, a água fica bloqueada, o volume não escoa e o alagamento vira inundação e ninguém sai ganhando com isso.”

“Rapaz, eu sei bem o que é certo. Não me trate feito criança porque não sou nenhum debiloide. Se eu não tivesse vivido minha vida inteira em área de risco, poderia ficar chateado com você. Conheço na carne o que é acordar de madrugada com facas feito jacaré vindo na minha direção. Vem cá, cê tem coragem de negar que estas cicatrizes no meu rosto não provam por “a” mais “b” que o mundo me ensinou o que seja sofrimento?”

“Tenha dó, Augusto. Tá querendo que eu ria, né?

“Mas precisa botar o dedo na minha fuça? É falta de respeito, rapaz. Não acho legal da sua parte porque você vive onde vivo. Então, o que passa na sua cabeça de sair acusando que o maior culpado pela nossa desgraça somos nós mesmos?”

“Não torra, meu! Não falei que é sua culpa.”

“Certo, Manuel. Eu sei que você não faz o tipo de quem bota banca apenas pra parecer bonito na selfie. De minha parte, lhe agradeço por sua sinceridade honesta.”

“Como convidado não paga, leve uns picolés pra tropa toda.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de fevereiro de 2023.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Cartinha aberta

 

Cartinha aberta

 

Bom Velhinho,

Embora o meu pai diga que não tenho idade para ter preocupações com o que há de errado no mundo, não antecipo nenhuma justificativa ao revelar um pouco de ansiedade em relação a esta carta.

Bem faz meu pai que desconfia, pois não é nada surpreendente eu aparecer com pergunta difícil, tipo assim: o que posso fazer pra que a comida que não esteja estragada vire lixo?

A primeira providência é que tenho de convencer a mamãe de que não gosto de curau. Mamãe faz de propósito, pois ela sabe que detesto milho que não seja o milho de pipoca. Se mamãe faz pamonha só para agradar a minha irmã, nem empaco no lugar: estouro pipoca no micro-ondas mesmo que eu esteja proibido de mexer nele.

Meu pai não se envolve, ele diz que é uma questão entre mamãe e mim. Mas o meu prato vem servido de curau e não sou de comer o que não gosto só porque a mamãe quer impor a sua vontade.

Eu não sou de arrumar confusão. Apoio minha opinião no meu pai, que sempre diz que ninguém deve agir como pamonha. Ele acha que é importante demonstrar personalidade, mesmo pra mãe da gente, ou a pessoa não será respeitada.

Por que estou lhe dizendo isso?

É que meu pai não quer ajudar com esta minha carta para o senhor, mas a mamãe está sentada aqui ao lado, vendo-me escrever, mas ela não para a leitura do livro. Então, vejo que não há problema algum em continuar escrevendo o que acho bom eu pôr na carta, ainda que meu pai nem saiba que mamãe nem peça para ler o que está escrito.

O meu pai acha que um modo infalível de descobrir o caráter de um homem é obrigá-lo a educar os filhos de outra pessoa como se fossem os dele, sem mordomias e condescendências.

Meu pai acha que escolas são feitas para os professores ocuparem o lugar de pai, cujo ideal é a atuação sem regalias e apadrinhamentos, pois não se pode titubear no dever de dar curau a alunos e alunas.

Como a pessoa ganha dinheiro com o que trabalha, ela tem mais é que reclamar dos impostos que o governo cobra, pois o grosso da gaita não vira escolas de qualidade, hospitais bem equipados e boas arenas onde vendam até pipoca doce.

Às vezes meu pai lembra o padre da nossa paróquia quando ele diz que tenho de prestar atenção nos meus atos, que não posso agir como se não fosse digno representante dos ideais de quem ajudou na minha formação de pessoa gentil que gera gentilezas.

O meu pai diz que uma pessoa de classe sabe relativizar as coisas, que gente de destaque não leva tudo a ferro e fogo. Por isso, entendo que nem precise se desculpar comigo, pois o senhor anda trabalhando demais para querer responder a uma simples criança.

O senhor pode estar achando engraçado receber esta minha carta fora de época, no meio do Carnaval, mas estou lhe escrevendo durante uma baita chuva.

Graças ao senhor, com todo mundo tendo de ficar em casa, posso jogar videogame sem rachar no sol.

Cordialmente,

Uma criança feliz.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de fevereiro de 2023.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Maturidade necessária

 

Maturidade necessária

 

A fruta verde precisa de tempo, o seu tempo, para tornar-se própria pro consumo humano. Dias, semanas, meses, o tempo que for preciso para que o dinheiro para comprá-la transforme-se na água tão gostosa que brota na boca, que apenas a sua carne quando bem madurinha é capaz de produzir.

Ainda bem que a felicidade que o prazer produz chega aos incréus que só constatam o bem madurinho cravando dentes, já que esses não se contentam em acalcar ou, os mais radicais, passar a língua.

Nada contra quem não se satisfaz com similares, afinal fruta não é sorvete, ainda que sorvete tenha sabor e possa conter uns pedacinhos de fruta. Que Deus proteja tais discípulos de são Tomé.

E cada fruta tem gosto único. Bananas não se parecem com cocos; framboesas não lembram morangos; a mim me ocorre que carambola e umbu têm gosto semelhante, o de sabor desconhecido, uma vez que a ambos nunca experimentei.

Conheço muito pouco da rica diversidade de frutas e frutos do meu querido Brasil. Pior pra mim que nunca vi sequer uma foto de graviola, jutaí, sapucaia, muruci, apiranga, umiri, gurguri, bacuri, tucujá, tucumã e achuá. A vastidão pantagruélica da minha ignorância é amazônica.

Por valorizar o que o nosso chão oferece é que respeito as estações e compro melão ao preço de melão. Pago o justo, pela oferta de acordo com a demanda. No tempo exato, nem antes nem depois, no momento da colheita. Pois os meus vinténs são intransigentes: se o produto vem de estufa, sofre manipulações genéticas ou viaja o mundo, que encalhe em bancadas, caixas e entrepostos. Agentes inflacionários, xô!

Só espero que prevaleça o bom senso de dar a porcos e galinhas o que estiver estragado, porque a xepa de maçãs podres, peras moles e laranjas mofadas, que tal xepa não avilte a pobres e miseráveis.

Camarada que me lê, dinheiro curto não implica visão curta.

Melhor exemplo dá o Tato, pois ele enxerga bem justamente porque nunca tira proveito do que se lhe revela como oportunidade irrecusável, nem naquelas circunstâncias que a todo mundo pareçam ser favoráveis, assaz lucrativas.

Tato é visto como um pobre diabo que merecia melhor sorte, ou que gente que não seja da família dele o ajudasse com doações regulares. Se não há quem o faça afortunado, que mercadores e vivandeiros lhe sejam beneméritos, dando-lhe kiwis ou lichias.

Polido sem extremismos, o Tato brilha sem causar espécie. Quando lhe falam, aguarda que falem, para só daí dizer:

ꟷ Então, tá. Tô indo.

Tato não vem de tatu, tattoo ou Fortunato.

Outro exemplo é o Luisinho, cuja amizade enraizada pelas décadas de convívio autoriza-o a ser enfático:

ꟷ Soltem sanhaços; libertem coleiras; deixem livre a sabiá.

Puxa! Dona Cremilda e eu nem tínhamos reparado que o bom Tato traz uma gaiola, pendura-a no ipê, abre-lhe a portinha e, um a um, cada passarinho ganha os céus.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2023.