Uma pessoa, aquele homem com vistosas
cãs particularmente nas têmporas, postar-se a um palmo de um portão, em cuja
parte posterior está um cão pouco amistoso, é clara demonstração de maturidade.
Como dois mais dois são quatro, o homem se
permite impressionar por cães de guarda. Gosta de vê-los belos, com dentes arreganhados,
ao natural dos instintos. Fascinante é o olhar deste homem que fala ao celular sobre
cal, areia e cimento e nada sobre caninos e rosnado.
Aquele é um cão sem treinamento. Por não
estar domesticado para a defesa do território em que vive, do portão para
dentro, ele zanza. Se aproxima da grade, recua. Não é por medo que ele urina seguidamente
na palmeirinha do jardim.
Quando não há medo, não há coragem.
Não sendo corajoso, é cão que não
conhece o valor das tigelinhas de ração, não estima quais sejam as propriedades
da água que lhe dão de beber, não define o que vem a ser uma residência
privada.
Pelo caráter e não pelo viés, na luta
sem classe pela sobrevivência, a raiva do cão dista do ódio humano. Por audácia
indômita, certa gente ataca covardemente, à sorrelfa, sorridente.
Antes de Sócrates, disseram: autocontrole
é coragem.
Por óbvio, pode-se inferir como
aleatória a associação destes dois pensamentos: quem escuta “ontem choveu” não calcula
que “amanhã choverá”; quando o telefonema o deixa livre, sai de cena o homem.
Ao bêbado que observa não seja atribuído
que ele imagina a grade como espelho, que, face a face, estejam homem e cão, sombra e luz, veneno e remédio, faca e gume, relâmpago e trovão, carne e
unha.
Tão logo o bobalhão de telefone na
orelha deixa a praça, o filósofo descalço, este bêbado de alma apaixonada,
sossega como aquele cão deitado à sombra da palmeirinha.
O cão talvez pressinta, o bêbado não,
mas tem um temporal vindo. Forma-se pros lados da represa; adensam-se as nuvens;
uma ventania começa a girar as pás das torres de energia eólica fincadas à
margem do espelho d’água, cuja linha torna visível o vento que sopra.
A consciência embriagada desencadeia:
“Você não aprende. Vire e mexe está
metido em encrenca. Se você sabia que não tinha dinheiro, por que não pediu
trocados? Tanta gente passando e você olhando, besta, aquele zé mané a atiçar o
coitado do cachorro atrás do portão. Fosse esperto o bastante teria tirado
proveito e pedido dois reais até pro bocó de celular no ouvido. Inteligente seria
pedir ao zé ruela que enfiasse a mão no bolso, que desse o suficiente pra outra
garrafa. Quem vive de ilusão, vive de autoengano. Não seja outro zé mané com inveja
de quem exibe celular na praça. Quem tem memória curta não muda o rumo da prosa.
Memorizar não é aprender. Saber de cor a tabuada e conjugar direitinho os
verbos, pra quê? Você se perde pelos caminhos, mas a praça volta e meia reaparece
no lugar. Faça sol ou chova, você não liga pro mundo.”
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de março de 2023.