Estou
precisando de um gingado mais agitado, pois vivendo minha vidinha de pessoa
pacata, sensata, meio caricata, nem notei quando a maritaca calou, já que ouvia
mal as estripulias do coração.
Se
me observasse com descontração, provavelmente teria sentido a calcificação das
entranhas. Não que tal cuidado pudesse evitar o que agora constato: não foi súbito
que virei pedra.
Como
pedra inconsciente dos meus limites, posso apenas imaginar o que podem fazer
comigo. Suspiro, e arrepio.
Se
souberem da minha condição, vão querer tirar onda. Com o nível baixando, e baixando,
ficarei mais seco, muito arredio, deserto a subir sarcasmos áridos, como gente
escassa de molejo.
Pedra
não samba?
Sei
não, pode ser que eu seja estorvo a quem não quer interrompido o fluxo. A quem a
vida é que nem correnteza, rio em movimento, águas renovadas a todo instante,
barreiras tanto estancam que estagnam.
Cadê
a primeira pedrada na vidraça da pretensa estagnação?
E
o dente vira pelota a estilhaçar a fachada da pessoa adormecida, já pegando
sentir uma dorzinha. Como vulcão furibundo, é a sensação enregelante de que o
futuro dói, e dói tão abruptamente.
Aos
pulos, perereco no lugar.
Rapidinho,
fico certo de que os engenhos psíquicos que me deixam governar os instintos dão
graça ao sentimento de entender o mundo. Pressa curtição bacana, a realidade
sugere o ritmado.
Que
espirituosa é a vida no flauteado.
E
confio em mim quando sinto a areia quente da praia acarinhando a sola fina dos pés,
ouço o mar ninando os carneirinhos mansos, bebo o que o coco oferenda quando rachado,
a sua água deleitosa.
Pena
que esse eldorado além do horizonte não tenha buracos como os buracos do meu mundo;
e os pedregulhos do acostamento dão uma sova nos joelhos.
Ralado,
ardendo, pedindo beijinho doce na pele avariada, quebro a corrente e atiro a
bicicleta no poço dos medos atávicos.
Xô!
Vatimbora! Suma no poeirão!
Que
venha quem possa acorrer.
Santo
das causas imaginárias, ouça esse clamor, acuda quem não dança nem quer dançar.
Ainda que saia da cadeira, requebre conforme a música, se errar o passo, que eu
fique no compasso. Mesmo que eu não seja diamante no Danúbio Azul coreográfico,
que eu possa flutuar, turmalina no miudinho, e vá adiante, e vá devagar,
devagarinho. Afinal, não é só o bamba que samba no pé todo santo dia, são
Niemals.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 31 de outubro de 2021.