Café com pão
Com o mundo às costas, estou
à mesa para escrever. Como faz o jogador, vejo as palavras no campo, espalho as
ideias, vou pensando em função do time. Tenho estratégias, de ataque e defesa.
A favor ou contra, leitura é gol.
Tsc. Tsc. Pra usar o
lápis, chuteira não atrapalha?
Sei...
Que fome é essa que me
deu? Está quase na hora do café, é isso. O que gostaria de comer? Penso no pão
que a minha mãe fazia; sem que os vizinhos pusessem os olhos, e soubessem dele só
pelo cheiro.
O segredo estaria nos
ingredientes? Na mistura? Na temperatura do forno? No tempo de assar?
Tenho comigo um caderno
de receitas, com a letra dela. Pego-o.
Não é possível. Como isso
está assim? As suas folhas não tomam sol nem chuva, pois ele fica todo o tempo na
estante. E laiá... Como ler se ficou ilegível? Como, se está visivelmente
incompreensível?
Acho a página ou a que
acho que seja. Ô cabeça. Pego a receita; tiro os óculos, coloco os óculos, e nada.
Não consigo ler. Minha letra é de lascar. Sim, a letra é minha. Agora está
explicado por que não consigo entender o que está escrito.
Desisto de ler o que não
dá pra ler.
Melhor é puxar pela
memória. Não deve ser difícil juntar os ovos, a farinha de trigo, o fermento, a
água, o sal, essas coisas que fazem do pão o que o pão vem a ser.
Que coisa! Parece que
minha mãe está ditando pra mim agorinha mesmo aquela sua receita. Como quero
porque quero comer daquele pão, ponho a mão na massa e, alegre que só vendo, fabrico
e asso e corto o pão quentinho.
Uai, que sola de sapato
é essa? Eita, e o sal que sumiu?
De mim para comigo,
aceito: “em tanta estreiteza de tempo não o tenho para disputar”. Visto-me
rápido, e toco ir comprar o pão integral de sempre.
Espero na fila. Tentar
eu tentei, ninguém há de negar. Nada mais mentiroso do que contar meia verdade?
A fila vai ligeira; confesso que errei a mão. Mas estarei lavando a roupa suja
com águas passadas? Pago, sorrindo. Não estou escondendo nada de ninguém. A
moça do caixa estaria sorrindo se soubesse que a minha incompetência é que me
trouxe até aqui? Nem um pouco suspeito. Agradeço; por nada.
Como ignoro o que não
sei, não vou ficar especulando. E o que aqui respira; espirra ali; acolá ecoa,
o quê? Vida, que se faz crônica; crônica, que há olhos pra comê-la; o que nessa
fome salta aos dentes e sobra à língua, a vida mesmo.
Já que não sou besta, tomei
a solução do óbvio. Não queria comer pão? Se não dou conta de fazer, compro
feito. E vou comer, não vou? Escolhi o mais cômodo, mas saciarei a vontade. É
do jogo.
Olha que legal. Sem dar
bandeira de nada, fui, vi e ouvi. Volto com o bornal carregado de histórias.
Depois, sento escrevê-las.
Agora, já com o pó no
coador, passo a água e posso tomar sem açúcar o café. Ô coisa boa.
Sei, sei...
Frugal, ponho gosto que
é; de fato e a contento, uma maravilha.
Porque muito amo o que
faço, aceita outra crônica?
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de novembro de
2019.