Vida
longa
O
senhor é otimista ou pessimista?
Nada
melhor do que ser parado na rua por uma menina de uns doze anos que tem um
questionário para fazer, sobre... A enquete é sobre o quê?
Pois é.
Que estupendo ter de pensar num assunto, assim, de supetão. Você acaba por se
revelar um pobre-diabo incapaz de responder a questão simples de uma estudante
de trancinhas. É ainda mais perturbador quando se está diante daquele sorriso,
de quem nem desconfia que o inquirido quer dar o pinote dali, pulando do Karnal
pro Pondé, do Pensador pra Wikipédia. Para não faltar com a ética, uma vez que
nunca leu uma linha do camarada, melhor nem pôr o Aristóteles no meio.
Caramba,
o copo está meio cheio ou está meio vazio?
O real
faz mal por que meu corpo reage ao mundo a girar? Foco. Por que me detenho num
ponto qualquer que a realidade apresenta? Vamos. Que tem este ponto em que pouso
a lupa? Concentre-se. Calibro o microscópio pra ir à raiz do que constitui o que
me faz debruçar nisso. É isso, mergulhe!
E quanto
mais amplio o minúsculo, mais perco a noção do todo. Até que dou com um momento
em que não vejo mais a floresta, a árvore, a folha, as nervuras da folha, as
moléculas, os átomos, nem nada que tenha a mais tênue afinidade com o que as
palavras dão sustância.
Como a
nitidez é tamanha, passo ao abstrato do concreto. Aí, a realidade configura-se informe,
bizarra, estranha, obscura. Chegando a esse grau de cegueira, o incomunicável
barra o caminho.
Daí, começo
a volta.
E passo
a estabelecer paralelos, faço comparações, traço similitudes, teço metáforas. A
colcha de imagens é produto de conexões, rede fabricada, amálgama que reconfigura
o que carece de sentido. A semântica tateia significados ao processo desnorteador
de ir fundo pra esmiuçar a filigrana. E isso me faz perder o pé do chão, a distorcer
a realidade. Por ultrapassar o limite no aprofundamento, salta o hiper, o super,
o surreal, o espantoso da realidade.
O
buraco é mais em baixo?
Não é
pra menos que fico nervoso, angustiado, tenso, bem confuso, estranhando a mim
mesmo ao querer dar nome ao que não tem nome e talvez nem venha a ter um. Exagero,
perco-me neste método de racionalizar, ponderar, entender. E torno complexo o
simples na tentativa mais vã de simplificar o complexo, e tenho mais raiva de
mim, e mais me enfureço.
Em
outras palavras, parece que saltei de paraquedas. Pra minha angústia, o paraquedas
não abre. Pra total desespero, o paraquedas não quer abrir. E quão patético me
pinta esse querer agarrar-se ao inútil. Caindo... O chão que sobe...
E o
copo? Ô infeliz, e o copo!
Sem
condições de diferenciar dois segundos ou eternidade, volto de Vulcano, mas a guria
permanece de pé.
Contudo,
ajeito os óculos, olho bem nos olhos da pessoa, acomodo a voz com um pigarro e,
ciente de que meio cheio e meio vazio o copo está inteiro, mando ver: qual é a
pergunta?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 24 de setembro de
2019.