terça-feira, 25 de março de 2025

Um belo dia para amar o próximo

 

Um belo dia para amar o próximo

 

Quando os pingos começaram a cair, sem pensar duas vezes, tirou uma sombrinha do cesto de unidades a vinte reais, abriu-a, conferiu as varetas e costuras, fechou-a, pagou-a e empunhou-a aberta, já na rua, já precisada de ser protegida da chuva.

Temerosa de escorregar, se desequilibrar e tomar um tombaço, não apertou o passo. Assim, não foi por receio que parou, foi para lembrar-se para onde queria ir.

Parada debaixo da chuva, achando linda a estampa da sombrinha, sorriu porque sabia que aquela era uma reprodução de uma pintura de Mondrian, era cópia daquele quadro famoso, muito famoso pelas retas e retângulos coloridos, ou nem saberia que era obra do Mondrian, mas, afinal, saíra para fazer o quê?

Para ficar nervosa; sem motivos para tanto, ficar portanto distraída, porque era óbvio que, justamente por ser cuidadosa, não se esquecera de trancar a porta da cozinha.

Da última vez, na semana retrasada, roubaram o botijão de gás, um par de tênis da filha, uma japona de nylon do marido e duas calcinhas, vermelhas, as que ganhara de aniversário.

Sem estar convicta de ter chaveado a porta, era preciso voltar para casa, tinha que ter prestado atenção no que fazia, era ou é ou sempre, precisa ser mais responsável, é claro que precisa!

Que jeito triste de viver, assim, avoada ― pensava isso quando veio alguém lhe pedir um segundo.

O seu telefone era da operadora Tal? Era.

Poderia avaliar o serviço? Se estivesse com o celular, avaliaria.

Fez-se silêncio. Houve constrangimento, pois, ainda que o aparelho tenha sido pago à vista, com descontaço realmente tentador, não diria àquela estranha por quais pretextos não o trazia consigo.

― Eu deixo o telefone em casa porque não fiz seguro. Hoje não dá pra andar com nada que tenha valor, tudo é cobiçado por ladrão, tudo, absolutamente tudo, tudo faz brilhar o olhar do ladrão.

Se bobeasse, levariam a sombrinha. Não pelo preço, que ela custou baratinho, mas pela estampa, por ser cópia da obra Broadway Boogie-Woogie, outra peça belíssima do pintor Piet Mondrian.

Por causa da sombrinha, convinha que fosse indo.

A coxa pegou a doer. Dava um passo, uma agulhada. Outro passo, outra agulhada. Parecia que era no fêmur, na cabeça do fêmur. Pegou a coxear daquela perna.

Estava preocupada com aquela dor, aquilo incomodava. A dorzinha era danada, a fazia pisar com cuidado, a pensar que poderia complicar se pisasse firme, se até mancasse.

Todavia, lá na frente vinha vindo uma conhecida.

Era o caso: teria de sorrir; teria de parar um instante, a sorrir.

― Bom dia, Dagmar.

Não era a Dagmar, era Magda, a gêmea que não era míope.

Que ela a desculpasse, pois, ainda há pouco, no meio do quarteirão ali para trás, tentaram assaltá-la, exigiram o celular, até quiseram a sua sombrinha, por conta do Mondrian.

― Como se hoje bandidinho valorizasse a arte.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de março de 2025.

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