Um belo dia para amar o
próximo
Quando os pingos começaram a cair, sem
pensar duas vezes, tirou uma sombrinha do cesto de unidades a vinte reais, abriu-a,
conferiu as varetas e costuras, fechou-a, pagou-a e empunhou-a aberta, já na rua,
já precisada de ser protegida da chuva.
Temerosa de escorregar, se desequilibrar
e tomar um tombaço, não apertou o passo. Assim, não foi por receio que parou,
foi para lembrar-se para onde queria ir.
Parada debaixo da chuva, achando linda a
estampa da sombrinha, sorriu porque sabia que aquela era uma reprodução de uma
pintura de Mondrian, era cópia daquele quadro famoso, muito famoso pelas retas
e retângulos coloridos, ou nem saberia que era obra do Mondrian, mas, afinal, saíra
para fazer o quê?
Para ficar nervosa; sem motivos para
tanto, ficar portanto distraída, porque era óbvio que, justamente por ser
cuidadosa, não se esquecera de trancar a porta da cozinha.
Da última vez, na semana retrasada, roubaram
o botijão de gás, um par de tênis da filha, uma japona de nylon do marido e
duas calcinhas, vermelhas, as que ganhara de aniversário.
Sem estar convicta de ter chaveado a
porta, era preciso voltar para casa, tinha que ter prestado atenção no que
fazia, era ou é ou sempre, precisa ser mais responsável, é claro que precisa!
Que jeito triste de viver, assim, avoada
― pensava isso quando veio alguém lhe pedir um segundo.
O seu telefone era da operadora Tal?
Era.
Poderia avaliar o serviço? Se estivesse
com o celular, avaliaria.
Fez-se silêncio. Houve constrangimento,
pois, ainda que o aparelho tenha sido pago à vista, com descontaço realmente
tentador, não diria àquela estranha por quais pretextos não o trazia consigo.
― Eu deixo o telefone em casa porque não
fiz seguro. Hoje não dá pra andar com nada que tenha valor, tudo é cobiçado por
ladrão, tudo, absolutamente tudo, tudo faz brilhar o olhar do ladrão.
Se bobeasse, levariam a sombrinha. Não
pelo preço, que ela custou baratinho, mas pela estampa, por ser cópia da obra Broadway
Boogie-Woogie, outra peça belíssima do pintor Piet Mondrian.
Por causa da sombrinha, convinha que
fosse indo.
A coxa pegou a doer. Dava um passo, uma agulhada.
Outro passo, outra agulhada. Parecia que era no fêmur, na cabeça do fêmur.
Pegou a coxear daquela perna.
Estava preocupada com aquela dor, aquilo
incomodava. A dorzinha era danada, a fazia pisar com cuidado, a pensar que
poderia complicar se pisasse firme, se até mancasse.
Todavia, lá na frente vinha vindo uma
conhecida.
Era o caso: teria de sorrir; teria de parar
um instante, a sorrir.
― Bom dia, Dagmar.
Não era a Dagmar, era Magda, a gêmea que
não era míope.
Que ela a desculpasse, pois, ainda há
pouco, no meio do quarteirão ali para trás, tentaram assaltá-la, exigiram o
celular, até quiseram a sua sombrinha, por conta do Mondrian.
― Como se hoje bandidinho valorizasse a
arte.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de março de 2025.
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