A dois passos do supermercado, cheguei a
tempo de testemunhar uma cena que, a princípio, chateou-me um tanto, mas,
miolos adentro, o humor brotou-se por meus neurônios, que se avivaram das
sinapses bem mapeadas; e pelas trilhas da ironia, pelas encostas do sarcasmo,
pelos ecos de humanista poltrão que tem cá sua poltrona, por me saber a mim pelos
repentes de folgazão, brinquei em pensamento, pois, se o fizesse em voz alta,
certamente me tomariam por biruta, então, me pus a trocar ‘ocasional’ por
‘racional’ por ‘genial’, até que minha experiência acolheu como cristalina a
frase: meu emagrecimento tem um processo natural, basta abrir a carteira.
Tendo aceitado o desfecho, veio-me que a
vida anda espetaculosa e, desde domingo passado, muita gente não se avexa de
suas fumaças sobre a sétima arte, sobre métodos de atuação, sobre a banalidade
do bem maior, que é o povo feliz com a Fernanda Torres.
Dona Cremilda, a senhora me perdoe pelo
entusiasmo com o Oscar que Ainda Estou Aqui recebeu.
Poderia ter começado elogiando a fita,
mas ainda não a vi nem sei quando a vou assistir.
Minha querida, não vejo a hora que o
filme passe na TV, porque os parabéns à obra, ao elenco, à equipe técnica e ao
cineasta funcionam como felicitações que andei carente de granjear.
Minha autoestima em baixa enquadra-me naquela
turma que gosta muito de aplaudir-se, afinal preciso mesmo dessa energia que
agrega, suplanta desavenças, irmana a todos que não nos diminuímos:
― Vencemos!
Amiga, não é uma característica tão
somente minha, há tantos que não estufam o peito para apropriar-se do mérito de
terceiros, só que se alteram sem dar trela a mesquinharias, já que a vitória é
nossa.
Ainda que os troféus de Melhor Atriz e
de Melhor Filme tenham ido parar em mãos estrangeiras, que talvez tenham lá as
suas habilidades, mas sou gente criada no orgulho de nunca ser derrotada por
causa dos meus atributos genuinamente positivos.
― Somos vencedores, ganhamos um Oscar!
Dona Cremilda, não peço desculpa pela
senhora não ter dito o que acha de Ainda Estou Aqui. Não peço nada que a
senhora não esteja em condições de se pronunciar, porque sei das suas
capacidades.
Também tenho minhas limitações, tanto as
possuo que não vou às redes atrás de vilanias nos comentários compartilhados, uma
vez que tenho esse espírito revoltado que há de me irritar com quem insiste em passar
de ‘revolução’ pra ‘movimento’.
― O Oscar é nosso!
Querida, desço ao lodo que constitui a
minha mente. Levo uma vela; cuido que ventanias não me ceguem. Tomo pé do que
sinto; persevero que vivi o que vivi. Paro um instante, puxo pelo ar que me
mantém vivo.
Se a rede quer-me rendido às falácias,
recuo dessa arapuca.
Pra evitar que o diálogo acabe
inviabilizado, recorro àquela cena a dois passos do supermercado:
― Mãos ao alto! Esvazie os bolsos!
― Cumé?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de março de 2025.
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