Com roupa no varal, faz sol.
Mãs, mamã, a manhã mancha as minhas
maçãs, mamã ― sobre a luz do sol, é assim que escuto a minha menina interior,
em suas tranças laterais ornadas cada qual com seu lacinho amarelo, os pezinhos
bem acomodados em sapatinhos lustrosos, de laca, porque a minha menina interior
não é moleca, maloqueira nem malandrinha, é boneca chinesa, que, essencialmente
budista ou zen, não fala mandarim, mas confunde a língua com macarrão, aquele cuja
sopinha melhora uma barbaridade se comida emborcando-a da tigelinha.
Escuto-a, menininha, pois aprendi a desenovelar-me,
sou feito uma cebola, tenho anéis sobre anéis, sou, portanto, matrioska, tenho dentro
outro dentro outro dentro, assim me percebo, penso e sinto.
Penso que o sol quara, mata bolor, aviva
a alma; e quando me posto vivaz, há vozes que, sem esforço ao tagarelar, posso fazê-las.
Soar-me gutural, falar em falsete, ter
voz anasalada, emular língua presa, gaguejar, virar metralhadora com palavras sobre
palavras, falar por suspiros, meneando a cabeça, dando de ombros, por pigarros,
por tossidinhas, salivando, mesmo engolindo seco.
Matraqueiam na TV que biscoito e bolacha
são sinônimos; contudo, meninazinha, você e eu sabemos que a bolacha tem
recheio e biscoito arranha a garganta.
Quando a guloseima machuca, é preciso passar
manteiga ou creme de ricota. Ou seja, é uma bobageira ferrada dizer que bolacha
é coisa de paulista e biscoito é um troço de carioca.
Em casa, minha menina, você aprendeu comigo
a diferenciar meia de peúga, pois a bisa, a mãe da mãe da minha mãe, foi criada
num lar de portugas, é indiscutível: meia é peça de algodão pros dias quentes e
a peça de lã, para as auroras do inverno, é peúga.
Qual roupa é menos ridícula?
Guturalmente estarrecedora foi a
experiência que vivi na Bahia. Em meados dos anos 90, acho que foi em Santa
Cruz Cabrália.
Lembro da lagoa com aquela lama
medicinal.
Como brincar na água nunca foi o meu
forte, até hoje não sei nadar, lembro que atração maior eu senti pelo quiosque.
Não que fosse mais sedutora a ideia de tomar
cerveja às oito da matina. Comecei cedo, pois os cotovelos ancoraram-me no
balcão.
Fui bebendo, mas vieram os turistas.
Embora lambuzados, abracei-os com a camaradagem dos ébrios.
Ou a lama com poderes terapêuticos me deixaria
limpinho ou minha embriaguez me conduziria à ducha.
Entrei no chuveiro.
Como ducha não é duche, porque duche é
palavra sem a delícia da água caindo. Pelo prazer do chuá explícito em ducha, sem
pensar que estava vestido, urinei nas calças curtas.
Sim, calças curtas, pois foi, num dia
radiante, que peguei a tesoura e cortei os jeans batidíssimos, tornando-os uma bela
bermuda.
É claro que não quero emburrar nem implicar,
pois compreendo que short, calção e bermuda não desfiam como as minhas calças
curtas.
Touché, é ducha!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de março de 2025.
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