domingo, 16 de março de 2025

À luz dos fatos

 

À luz dos fatos

 

Com roupa no varal, faz sol.

Mãs, mamã, a manhã mancha as minhas maçãs, mamã ― sobre a luz do sol, é assim que escuto a minha menina interior, em suas tranças laterais ornadas cada qual com seu lacinho amarelo, os pezinhos bem acomodados em sapatinhos lustrosos, de laca, porque a minha menina interior não é moleca, maloqueira nem malandrinha, é boneca chinesa, que, essencialmente budista ou zen, não fala mandarim, mas confunde a língua com macarrão, aquele cuja sopinha melhora uma barbaridade se comida emborcando-a da tigelinha.

Escuto-a, menininha, pois aprendi a desenovelar-me, sou feito uma cebola, tenho anéis sobre anéis, sou, portanto, matrioska, tenho dentro outro dentro outro dentro, assim me percebo, penso e sinto.

Penso que o sol quara, mata bolor, aviva a alma; e quando me posto vivaz, há vozes que, sem esforço ao tagarelar, posso fazê-las.

Soar-me gutural, falar em falsete, ter voz anasalada, emular língua presa, gaguejar, virar metralhadora com palavras sobre palavras, falar por suspiros, meneando a cabeça, dando de ombros, por pigarros, por tossidinhas, salivando, mesmo engolindo seco.

Matraqueiam na TV que biscoito e bolacha são sinônimos; contudo, meninazinha, você e eu sabemos que a bolacha tem recheio e biscoito arranha a garganta.

Quando a guloseima machuca, é preciso passar manteiga ou creme de ricota. Ou seja, é uma bobageira ferrada dizer que bolacha é coisa de paulista e biscoito é um troço de carioca.

Em casa, minha menina, você aprendeu comigo a diferenciar meia de peúga, pois a bisa, a mãe da mãe da minha mãe, foi criada num lar de portugas, é indiscutível: meia é peça de algodão pros dias quentes e a peça de lã, para as auroras do inverno, é peúga.

Qual roupa é menos ridícula?

Guturalmente estarrecedora foi a experiência que vivi na Bahia. Em meados dos anos 90, acho que foi em Santa Cruz Cabrália.

Lembro da lagoa com aquela lama medicinal.

Como brincar na água nunca foi o meu forte, até hoje não sei nadar, lembro que atração maior eu senti pelo quiosque.

Não que fosse mais sedutora a ideia de tomar cerveja às oito da matina. Comecei cedo, pois os cotovelos ancoraram-me no balcão.

Fui bebendo, mas vieram os turistas. Embora lambuzados, abracei-os com a camaradagem dos ébrios.

Ou a lama com poderes terapêuticos me deixaria limpinho ou minha embriaguez me conduziria à ducha.

Entrei no chuveiro.

Como ducha não é duche, porque duche é palavra sem a delícia da água caindo. Pelo prazer do chuá explícito em ducha, sem pensar que estava vestido, urinei nas calças curtas.

Sim, calças curtas, pois foi, num dia radiante, que peguei a tesoura e cortei os jeans batidíssimos, tornando-os uma bela bermuda.

É claro que não quero emburrar nem implicar, pois compreendo que short, calção e bermuda não desfiam como as minhas calças curtas.

Touché, é ducha!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de março de 2025.

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