terça-feira, 4 de março de 2025

A beleza da vida

 

A beleza da vida

 

Com sua permissão, quero compartilhar o que estou sentindo. Noto que a alegria me consola nos momentos em que o cansaço começa a prevalecer. Posso estar cansado, mas não nego que sossegar da luta é um passo atrás. Este recuo é estratégico, pois dou-me o tempo que preciso para perceber o bem-estar. Quando sinto o cansaço, não quero exagerar a intensidade, uma vez que a alegria mobiliza-me a destacar-lhe o valor, pelos benefícios e pelas possíveis benesses, sossegando-me a um passo da exaustão, a um passo de entregar-me à inércia.

Cansado, preciso de um refresco.

Pela estafa, o sentimento que agora eu vivo é de calmaria; mesmo que não tenha a paz que eu ainda almejo, acalmo-me.

Embora perceba horrível a pacificação que não mascara as forças contraditórias que me fazem vivo, experimento a vida a puxar-me para lá e para cá ― passível de horrorizar-me comigo, estou vivo.

A ansiedade me movimenta, não me deixa criar limo, não me deixa mofar à sombra de mim, pois também tenho esta modéstia, que é ouvir as pessoas dizerem o quanto as afeto.

Dou valor ao que os outros dizem. Tento aprender com suas falas. Quero descobrir como ser benfazejo. Procuro ficar tranquilo. Sei que a alegria pode ajudar quem precisa de mim para alegrar-se.

Bebo uma cerveja. Bebo outra. Bebo mais, mais, mais.

Ainda que a cerveja esteja suplicando pra vir à tona, atrás da banca pode até ser lugar mais à mão pra mijar, mas atrás da árvore funciona que é uma maravilha, bem longe dos críticos abelhudos.

Aceito a crítica, ureia demais é veneno em vez de nutriente. Então, saúdo os foliões que me levam a regar as outras árvores.

Para que meu brinde alcance quem nem precisa continuar bebendo por estar feliz da vida, sinta-se saudado.

Daqui eu o saúdo, folião, pois simpatizo com a sua animação.

Quem não conhece fraqueza nem cansaço, sabe que Carnaval é o tempo mais normal do mundo pra cantar desafinado, dançar abraçado e beijar à beça.

Não se desculpe, os perrengues que fiquem pra depois.

Sim, poste de cachorro é imóvel, juros aumentam todo dia, lasanha nunca é servida antes das duas e todas as tardes, sejam soalheiras ou chuvosas, elas conhecem o fim no crepúsculo.

Conheço gente que associa o anoitecer com a escuridão, pensando que a alma sente o baque, abala-se, passa a temer criaturas que vivem atrás de portas, cortinas e fotografias.

Há quem fotografe a lua, querendo a cabeça arejada, enriquecida quando monstros ameaçam e geram um clima em que angústias têm garras, desesperanças produzem náusea e olhos não titubeiam.

Para o seu prazer, ardiloso, saiba ser vigilante e observe-se.

É lisonjeiro ser amigo de gente que bebe, baba, sua e não para de beber, babar e suar, até porque, em casa depois de mais outra jornada no bloquinho, é hora de encarar um belo banho.

Humildemente, saúdo bêbados, beijoqueiros e a falta d’água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de março de 2025.

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