quinta-feira, 27 de março de 2025

Te achas uma maritaca?

 

Te achas uma maritaca?

 

Como parece que de modo algum você pretende assumir que errou, vou deixá-lo babando. Desta vez, vou sim, e não vou voltar atrás como sempre conta que eu volte.

O que eu pretendo com isso?

Quero que pense um pouco, o mínimo que consiga, pois é você que precisa refletir a respeito, é você que tem que parar um segundo, conto que seja só por um segundo, pois pense nisso, reveja essa sua alegria que eu vá recuar mais uma vez.

Desta vez, não.

Não pense o senhor que fazer cara de choro vai me convencer, que falar com voz embargada vai me amolecer, que me chamar de amada vai lhe dar o direito de apertar as minhas bochechas.

Não se finja de bobo, eu sempre falei, para você e para todo mundo, que não gosto nada que apertem as minhas bochechas.

Sinto a boca amargar quando lembro que meu pai apertava minhas bochechas. Quando ficava sem opção, lá vinha o velho.

Era inevitável, uma coisa chata, era um troço revoltante.

No fim de tarde dos domingos, pouco antes de escurecer, não tinha fim de tarde domingueiro que o danado não se esquecia de lembrar-se de mim. Meu Deus, era sempre no crepúsculo dos domingos que papai achava de focar em mim.

Ele dizia que tinha me escolhido para uma tarefa que nem mamãe sabia caprichar como eu.

Que a mãe estivesse na missa, ora, isso nem era dito.

Ele caminhava quarenta minutos, trazia a camisa que cismava que tinha de usar e, já que eu era a sua filha predileta, sua filha mais velha, mais amável, mais trabalhadeira, eu merecia o privilégio de lhe passar a camisa, pois, com certeza, ela ficaria um brinco.

― Capriche como sempre. Porque só você sabe deixar uma camisa sem nenhuma dobrinha, sem amarrotado. Sabrina, minha querida, não se sinta pressionada, apenas capriche.

Amargo a boca porque eu sempre guardei pra mim, papai. O senhor nunca deu sandália, saia, brincos, só me presenteava com os afazeres quando nem a mamãe tinha mão para satisfazê-lo.

Ora, ora, sua filha tão amável, sempre a mais velha, eternamente a mais trabalhadeira, ora, ora, que nunca passou pela minha mente pedir à sua excelência que me desse um botão de rosa ou bombons.

Acaso o senhor esteja de olho em mim, aceite que me sinto aliviada, embora respire melhor com as janelas abertas.

Por que estou de bem com a vida que levo?

Porque, meu amado e estimado pai, certas obrigações nunca foram minhas quando era única filha nem são minhas agora que lavo e passo em outro endereço.

Já que anoitece, prefiro ouvir o alvoroço no quintal da casa ao lado, prefiro ver a algazarra dos bichos, prefiro me deliciar com as maritacas fervilhando na mangueira carregadíssima.

― Ouça o que digo, tomar quatro gols da Argentina não é o mesmo que levar 7X1 da Alemanha, porque isso foi na Copa do Mundo, e pior ainda, meu anjo, isso foi em casa. Portanto, Astolfo, dar com o celular na parede não anulará gol algum nem me fará manga pro teu bico.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de março de 2025.

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