Como parece que de modo algum você pretende
assumir que errou, vou deixá-lo babando. Desta vez, vou sim, e não vou voltar
atrás como sempre conta que eu volte.
O que eu pretendo com isso?
Quero que pense um pouco, o mínimo que
consiga, pois é você que precisa refletir a respeito, é você que tem que parar
um segundo, conto que seja só por um segundo, pois pense nisso, reveja essa sua
alegria que eu vá recuar mais uma vez.
Desta vez, não.
Não pense o senhor que fazer cara de
choro vai me convencer, que falar com voz embargada vai me amolecer, que me
chamar de amada vai lhe dar o direito de apertar as minhas bochechas.
Não se finja de bobo, eu sempre falei, para
você e para todo mundo, que não gosto nada que apertem as minhas bochechas.
Sinto a boca amargar quando lembro que meu
pai apertava minhas bochechas. Quando ficava sem opção, lá vinha o velho.
Era inevitável, uma coisa chata, era um
troço revoltante.
No fim de tarde dos domingos, pouco
antes de escurecer, não tinha fim de tarde domingueiro que o danado não se esquecia
de lembrar-se de mim. Meu Deus, era sempre no crepúsculo dos domingos que papai
achava de focar em mim.
Ele dizia que tinha me escolhido para
uma tarefa que nem mamãe sabia caprichar como eu.
Que a mãe estivesse na missa, ora, isso nem
era dito.
Ele caminhava quarenta minutos, trazia a
camisa que cismava que tinha de usar e, já que eu era a sua filha predileta, sua
filha mais velha, mais amável, mais trabalhadeira, eu merecia o privilégio de
lhe passar a camisa, pois, com certeza, ela ficaria um brinco.
― Capriche como sempre. Porque só você
sabe deixar uma camisa sem nenhuma dobrinha, sem amarrotado. Sabrina, minha
querida, não se sinta pressionada, apenas capriche.
Amargo a boca porque eu sempre guardei
pra mim, papai. O senhor nunca deu sandália, saia, brincos, só me presenteava
com os afazeres quando nem a mamãe tinha mão para satisfazê-lo.
Ora, ora, sua filha tão amável, sempre a
mais velha, eternamente a mais trabalhadeira, ora, ora, que nunca passou pela minha
mente pedir à sua excelência que me desse um botão de rosa ou bombons.
Acaso o senhor esteja de olho em mim, aceite
que me sinto aliviada, embora respire melhor com as janelas abertas.
Por que estou de bem com a vida que levo?
Porque, meu amado e estimado pai, certas
obrigações nunca foram minhas quando era única filha nem são minhas agora que
lavo e passo em outro endereço.
Já que anoitece, prefiro ouvir o
alvoroço no quintal da casa ao lado, prefiro ver a algazarra dos bichos,
prefiro me deliciar com as maritacas fervilhando na mangueira carregadíssima.
― Ouça o que digo, tomar quatro gols da
Argentina não é o mesmo que levar 7X1 da Alemanha, porque isso foi na Copa do
Mundo, e pior ainda, meu anjo, isso foi em casa. Portanto, Astolfo, dar com o celular
na parede não anulará gol algum nem me fará manga pro teu bico.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de março de 2025.
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