domingo, 9 de março de 2025

Dois palitos

 

Dois palitos

 

Com os dedos que a mim não me desarmam de mim, na esperança de ser guiado pela sensibilidade de um poeta, uso do cotoco, acabado de apontar, para reproduzir ao Mario Quintana, que minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.

Não deliberei elegê-lo mestre, fui embebido nessa fonte oculta que me seca a garganta a cada gole, porque um grande poeta não é o leitor que o descobre, mas ele é quem descobre o leitor.

Nem são sete horas! Lavo o rosto e troco de roupa, pois o cheiro do corpo suado ganha proeminência, ilusória, encantatória, por sequer me afugentar do desígnio de ser domado pelos tigres, afinal, o vento fareja tudo, contudo, Mario, o vento cheio de ideias vãs põe-se a pensar em outras coisas...

Quero um lume. Sei, a luz pode obscurecer. Tem a lua lá fora, tenho algum chão para percorrer, mas a crônica não diz aonde chegarei, de que maneira estou indo, se parado avanço com menor dispersão, se o ridículo que faz rir é o mesmo que me aperta no peito, até porque quem nunca se contradiz deve estar mentindo.

Os tigres (em meio ao turbilhão do mundo o poeta reza sem fé) são palavras, são ideias, são a mão que segura o lápis e a folha em que as palavras enchem o copo, esvaziam o copo, o deixam pela metade, são miragem a apresentar-se sombra aberta no seio do deserto.

Ganha tempo quem ignora a hora? Sim, o senhor acerta quando diz que a eternidade é um relógio sem ponteiros.

Porque as conexões que não existem são as mais difíceis de serem coligadas, assim duas agulhas sem lã tricoteiam um suéter inconsútil, assim dois palitos sem yakisoba forram a pança de ninguém, assim o lápis, a folha, o polegar e o indicador contam com uma cabeça livre pra crônica ir além das ideias.

Como não me quero um palhaço irônico demais para não rir de mim quando me ponho preguiçoso, quando me revisto de poeta vagabundo, quando bem sei que um dia o meu cavalo voltará sozinho, assumo que, alheio ao murmurar das gentes, as distrações do mundo levam a minha própria imagem e semelhança a sentar-se para ler, como sempre neste mesmo café, o nosso jornal de cada dia.

No entanto, levanto os olhos, corro-os a esmo, estou sozinho, estou à disposição da crônica, lá fora há sol, vento e a paisagem que a janela me permite ver.

Essa nesga do mundo encoraja-me a confessar a tristeza que sinto, pois cada palavra é uma borboleta morta espetada na página: por isso a palavra escrita é sempre triste...

Vou tomar vitamina C. No copo d’água jogo outro comprimido, o de vitamina D, um que não é efervescente, é essa troca que me faz sorrir, é esse descuido que me aponta que domingo é um cachorro escondido debaixo da cama.

Mario Quintana, vim por suas palavras, que elas são um gole d’água bebido no escuro, são o mistério d’uma formiguinha que atravessa, em diagonal, a página ainda em branco, são um olhar e o seu olhar, poeta, é o olhar de um condenado...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de março de 2025.

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