Com os dedos que a mim não me desarmam
de mim, na esperança de ser guiado pela sensibilidade de um poeta, uso do
cotoco, acabado de apontar, para reproduzir ao Mario Quintana, que minha
vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.
Não deliberei elegê-lo mestre, fui
embebido nessa fonte oculta que me seca a garganta a cada gole, porque um
grande poeta não é o leitor que o descobre, mas ele é quem descobre o leitor.
Nem são sete horas! Lavo o rosto e troco
de roupa, pois o cheiro do corpo suado ganha proeminência, ilusória,
encantatória, por sequer me afugentar do desígnio de ser domado pelos tigres, afinal,
o vento fareja tudo, contudo, Mario, o vento cheio de ideias vãs
põe-se a pensar em outras coisas...
Quero um lume. Sei, a luz pode
obscurecer. Tem a lua lá fora, tenho algum chão para percorrer, mas a crônica
não diz aonde chegarei, de que maneira estou indo, se parado avanço com menor
dispersão, se o ridículo que faz rir é o mesmo que me aperta no peito, até
porque quem nunca se contradiz deve estar mentindo.
Os tigres (em meio ao turbilhão do
mundo o poeta reza sem fé) são palavras, são ideias, são a mão que segura o
lápis e a folha em que as palavras enchem o copo, esvaziam o copo, o deixam
pela metade, são miragem a apresentar-se sombra aberta no seio do deserto.
Ganha tempo quem ignora a hora? Sim, o
senhor acerta quando diz que a eternidade é um relógio sem ponteiros.
Porque as conexões que não existem são
as mais difíceis de serem coligadas, assim duas agulhas sem lã tricoteiam um suéter
inconsútil, assim dois palitos sem yakisoba forram a pança de ninguém, assim o lápis,
a folha, o polegar e o indicador contam com uma cabeça livre pra crônica ir
além das ideias.
Como não me quero um palhaço irônico
demais para não rir de mim quando me ponho preguiçoso, quando me revisto de
poeta vagabundo, quando bem sei que um dia o meu cavalo voltará sozinho,
assumo que, alheio ao murmurar das gentes, as distrações do mundo levam a
minha própria imagem e semelhança a sentar-se para ler, como sempre
neste mesmo café, o nosso jornal de cada dia.
No entanto, levanto os olhos, corro-os a
esmo, estou sozinho, estou à disposição da crônica, lá fora há sol, vento e a
paisagem que a janela me permite ver.
Essa nesga do mundo encoraja-me a
confessar a tristeza que sinto, pois cada palavra é uma borboleta morta
espetada na página: por isso a palavra escrita é sempre triste...
Vou tomar vitamina C. No copo d’água
jogo outro comprimido, o de vitamina D, um que não é efervescente, é essa troca
que me faz sorrir, é esse descuido que me aponta que domingo é um cachorro
escondido debaixo da cama.
Mario Quintana, vim por suas palavras,
que elas são um gole d’água bebido no escuro, são o mistério d’uma formiguinha
que atravessa, em diagonal, a página ainda em branco, são um olhar e o seu
olhar, poeta, é o olhar de um condenado...
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de março de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário