terça-feira, 11 de março de 2025

Além da conta

 

Além da conta

 

Preparado para mais uma jornada?

Para começo de conversa, não devo, escolho: quero conversar com quem esteja a fim; sem forçar, sem exigir, sem constranger, penso que o papo possa transcorrer pacífico, pouco brusco ou brutalizado.

Todavia?

Giro a chave no sentido anti-horário, mas a porta proíbe-me de sair, trancafiando-me em casa, que é um lugar em que as pessoas que não sei quem sejam ficarão sem saber da minha condição, que estou a fim de papear à toa, despreocupadamente, sem me condicionar à hora, ao segundo seguinte, sem me cobrar pela inutilidade de falar sobre anjos, arcanjos e arcebispos em quaisquer conclaves vindouros.

Digito a senha, embalde. Quem sabe a brincadeira gere satisfação se considerar o ocorrido com a porta, pois girando a chave no sentido inverso ao usual a destranquei, assim, por tal lógica, só preciso digitar os números na sequência invertida pro celular ficar desbloqueado.

O que eu posso deduzir?

Como conclusão precipitada: induzo-me a pisar a calçada com o pé esquerdo; passo sob a escada do limpador de toldo; afago o gato preto que mia para que o afague; faço a aposta com as seis dezenas que os algarismos do telefone da lotérica sugestionam-me incontestavelmente que sejam atalhos à fortuna.

Serei lorpa a tal ponto?

Vem a brisa que não ameniza o calor que sinto. Vou à sombra que não estanca nem um pouco o suor a empapar a gola da camiseta. Vem o vento avisar do inferno, aquele que, de fato, há, mesmo a quem não se pegue apaixonado por ele nem o acomode na mente e à gente que se bate a aventá-lo inventado, tão somente por horror ao real.

Que aloprado trago em mim que seduz a tantos desvarios?

A garota dos bolos e tortas está vagando entre as agências. Não há começo de mês sem que as filas dos aposentados estejam postadas à porta dessas agências.

Compro um bolo?

A torta é de atum, não é de sardinha. Ela apela à minha queda pela sua torta de atum; e eu como ali mesmo, à vista dos aposentados que até comeriam um pedaço, caso me oferecesse de pagar-lhes um, dois, três, quatro, que eu pagasse pela torta inteirinha.

Por que não pago?

Embora haja explicações plausíveis, todas são tocantes.

Por que não falo nada à vendedora?

Penso no quanto é gasto pra fazer uma torta ou um bolo. Penso nos preços de farinha, manteiga, leite e ovos. Penso no custo da luz elétrica para que bolo e torta sejam assados.

Para fechar a conta?

Como a vida não para nem enquanto mastigo, a garota justifica-se, que ela cobra sete reais pelo pedaço, seja de torta, seja de bolo. Então, sendo sete, quem paga tem que dar uma nota de cinco e uma de dois. Quem dá uma nota de dez sabe muito bem que não existe nota de três, é por isso que ela não volta troco.

Não é óbvio?

Com o sol estimulando minha testa, sinto que a farinha, a manteiga, o leite e a energia são os vilões que pegam pelo ponto nevrálgico, que todo mundo tem boca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de março de 2025.

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