Às vezes falo sozinho. Converso comigo.
Em voz alta, digo algumas verdades, aquilo que considero verdades. Falo até o que
nem suporto ouvir, pioro a situação, agravo o mal-estar. Não chego a tomar-me
por louco nem sinto que outra pessoa fala por mim, reconheço, entretanto, o
ridículo da pantomima.
Ainda bem que não tem ninguém
assistindo. Tenho consciência que preciso falar no sentido de baixar a bola, buscando
aliviar a tensão, ir diminuindo o tom, abaixando o volume, regressando ao
tamanho mais próximo da realidade.
Falo, e falo até que o quarto deixe de
ser palco, falo até que minha voz ganhe o timbre de gente que nota a tolice que
é falar exaltado, isso de falar e gesticular irritado é uma baita besteira.
É um disparate, porque o mundo não tem que
ser responsabilizado pela minha irritação. Eu não controlei o ânimo, fiquei
retroalimentando um camarada barulhento, me empolguei com essa face espalhafatosa,
a careta de canastrão de quem precisa de holofote.
Justamente por estar sozinho, não como
animal encurralado, estou mais para besta querendo atenção, pedindo para ser
ouvida, exigindo que eu mesmo me comporte como público embasbacado.
Mas a paixão arrefece e a embriaguez
passa, então, é hora de lidar com a ressaca, é o momento de avaliar como me pus
entusiasmado, é o momento de ponderar sobre o que me fez perder a calma, é o
instante de falar sem vestir a carapuça de pecador a relatar meus pecados, uma
vez que nem me apetece ser confessor de mim.
Se alguma aflição foi fonte à irritação,
não mais me nutre esse mel. O urso que deu seu show já não pede às abelhas que
produzam o mel. No lugar da fera indomável e perigosa, um bichinho fofo, de
pelúcia, o companheirinho das noites bem dormidas.
Nunca dormi em grama de praça, sequer
bêbado; durmo em cama ou poltrona; cochilo vendo TV, escutando música - só que o
desnorteio é tanto que estou abduzido para dentro de mim.
Sinto essa necessidade irrefreável de
tomar chá, ainda que nem me dê conta de tê-lo preparado, bebido, súbito arroto
o ar engolido, porque posso ter engolido muito ar, assim os soluços vêm como
metrônomo, eles não passam.
Não estou com raiva nem furioso nem
colérico, acho que desmaiei em pé, de olhos abertos, indo e vindo, até que o desassossego me leva a uma tranquilidade ilógica, me leva a um estado que me contraria,
que não me descarrego num soco.
Tranquilo, desperto o desinteresse. Já
não bebo mais chá. Não me chateia não ter nada pra fazer, o vazio momentâneo é tédio.
Por cinco, dez minutos, nem ligo pro tempo.
O que eu podia ter feito, parado para
fofocar, ouvido sem me alterar, ter dado umas porradas?
Vi a aglomeração, vi a motocicleta no
meio-fio, vi a ambulância. Não vi outros feridos; vi o colar cervical sendo
colocado na vítima.
Nem imaginei que a pessoa que queriam
linchada era o piloto todo ensanguentado na maca.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de março de 2025.
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