Comigo atarantado, sucedeu-se que houve
o grande acontecimento da semana. Pudera que houve sem que a ele eu me
apercebesse, uma vez que pequenas indignações aquilatavam o pessimismo.
Seria eu o mané ou devia maximizar o
batom no monumento? Devia preservar o batom para não me extraviar por aí? Havia
de descabelar-me por só usar batom em pelada de Carnaval?
Um tanto tonto por estar, devera, bem
alimentado, tanto estava que cambaleei, tanto que o ombro no batente
equilibrou-me; por haver-me apurado cretino, a ponto de creditar a cretinização
à desgraça de andar reagindo aos escarcéus, às quizílias, aos revertérios.
Pândego, confirmando-me sujeito a sopros
de momento, desdenhei da vara, da rede, da comichão de pôr rubra a minha boca.
Gritava contra o preço do ovo? Berrava
que as galinhas têm botado ovos a menos, menores, muito caros? Bradava que não sei
cacarejar, ciscar nem botar ovo? Clamava que não jogassem ovos em mim? Por Deus!
Jurei nunca pintar de galo na rinha dos outros?
No alvoroço destes dias, a ultimar-me rematado
mentecapto, tenho que desviar o enfoque ou restarei perdido entre a pessoa
indignada e esse cidadão indignado.
Sobre mim, o grande acontecimento da
semana não teve influência alguma. Continuei perturbado, indo de fato a fato, de
notícia em notícia, tentando despreciar as contrariedades tão somente cotidianas.
Não atalhei pelo que pudesse apresentar-me
bonito na foto. Tenho certeza, se posasse de cidadão sobressaltado com as
indignações de terceiros, eu ficaria tão bonito que nem cismariam de reparar na
minha boca sem batom.
Nem acho imperioso passar batom para retocar
minha feiura, tanto quanto não uso o cosmético pra desenhar um coraçãozinho no espelho
― é ridículo eu supor que manifestar o meu amor pela humanidade vai emperiquitar
a humanidade, até a que me foi dada quando nasci.
O meu nascimento foi há tempos, não ocorreu
nesta semana.
Essa é a primazia do tempo: fazer a
memória encadear as palavras, dispô-las a favor do que seja bom, fazer a gente
crer que a lembrança é positiva, sentimentalmente justa, irrepreensível.
Irrepreensivelmente, o grande
acontecimento da semana deu-se no momento certo, não falhou, veio como sempre
vem, sem estardalhaço, sem dedo na cara, sem cusparadas, sem necessidade de composição,
sem repúdio a reconciliações.
Não prestei atenção, porque, cansado,
nauseado e aflito, eu queria uma folga, um instante de paz, queria uma horinha
de sossego.
Na parada do cafezinho, minha cachola quis
avacalhar de vez, mas não me entusiasmou o surrealismo a sugerir que a balança
da estátua seja pétrea, como se isso justificasse a estabilidade apesar do
vento, uma vez que, se ela balançasse para lá e balançasse para cá, haveria de
ser impreterível e irrefragavelmente audível a mensagem:
Compre batom... Compre batom...
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de março de 2025.
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