terça-feira, 18 de março de 2025

O outro lado do estranho

 

O outro lado do estranho

 

Tem esse vizinho que é um sujeito muito esquisito. De dia ele deixa as cortinas cerradas; depois que anoitece, puxa as cortinas, abre todas as janelas, só que nenhuma lâmpada fica acesa.

Esquisitíssimo é ele, de madrugada, fumar na varanda.

Sentado na cadeira de balanço, sim, eu o percebo sentado porque vejo aquela brasa avermelhada num vaivém vagaroso, de quem pensa e não perde o ritmo enquanto pensa, fumando daquele jeito.

Mesmo que chova ou que esteja um frio do cão, é em virtude dessas circunstâncias que fumar seja uma coisa intrigante.

Como sua casa fica do outro lado da praça, consigo observá-lo. Se não o vejo com clareza, intuo o que o seu corpo tenta esconder.

Discretamente, espio o que ele faz. Uso a cortina para permanecer invisível. Sou discreto por conta do pudor, não por temer suas reações. Ainda assim, melhor vigiá-lo sem ser visto. Mesmo que não o imagine violento, não desejo vê-lo esquentado.

Também não o concebo um agente que tenha vindo pra vizinhança com a ideia de detonar o chafariz com bombas caseiras.

Gente que deseja o bem, nossa praça é um lugarzinho pobre, cuja maior riqueza são as poucas árvores onde os passarinhos vêm cantar pela manhã.

Pessoa augusta que só faz o bem, perdoe-me se o acho bem capaz de saracotear peladão no coreto. Perdoe-me, pois tal pensamento me embaraça, tanto que, ao imediato de pensá-lo em pelo, breco-me e tiro os fones.

Satanás não saracoteará na casa do Senhor?

A minha mente é uma casa térrea. Vivo onde um porão secreto tem difícil acesso. Sendo térreo, não visito nenhum sótão e não uso escada pra alcançar o subsolo. Não piso o subterrâneo quando bem quero, ele é que abre suas picadas. Mesmo quando me vejo de fora, sou térreo e sinto que a escada que não vejo é transitória. Pelo reflexo na bolha de sabão, tanjo pétalas, espinhos e o capacho.

Caro vizinho que veio morar à beira da nossa praça, não nos queira mal, não pense mal de quem o espreita.

Não sei seu nome, mas não use minha ignorância contra mim.

Quem sabe, amanhã, eu o encontre comprando água sanitária; juro que não pretendo denunciá-lo, juro, nem sei se água sanitária seja útil na fabricação de artefato explosivo.

Seja afável, não abuse da franqueza. Não sou covarde porque sinto medo, só me falta a audácia da franqueza.

Posso estar enganado, mas o cavalheiro realmente parece ser um camarada corajoso.

Ao fotografá-lo comprando água sanitária, não creia que eu também seja corajoso; só produzirei provas do quão corajoso o senhor é.

Sem fazer especulações sobre o que não vejo, o senhor não precisa fumar pra que eu alcance farejá-lo insone.

Mesmo que eu esteja acordado de madrugada, vá dormir tranquilo, até porque sua casa tem sótão e toda casa que tem sótão, ela também tem porão; fique sossegado, sou gente pacata que nem porão costuma acessar quando flagrado nervoso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de março de 2025.

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