Tem esse vizinho que é um sujeito muito esquisito.
De dia ele deixa as cortinas cerradas; depois que anoitece, puxa as cortinas,
abre todas as janelas, só que nenhuma lâmpada fica acesa.
Esquisitíssimo é ele, de madrugada, fumar
na varanda.
Sentado na cadeira de balanço, sim, eu o
percebo sentado porque vejo aquela brasa avermelhada num vaivém vagaroso, de
quem pensa e não perde o ritmo enquanto pensa, fumando daquele jeito.
Mesmo que chova ou que esteja um frio do
cão, é em virtude dessas circunstâncias que fumar seja uma coisa intrigante.
Como sua casa fica do outro lado da
praça, consigo observá-lo. Se não o vejo com clareza, intuo o que o seu corpo
tenta esconder.
Discretamente, espio o que ele faz. Uso
a cortina para permanecer invisível. Sou discreto por conta do pudor, não por
temer suas reações. Ainda assim, melhor vigiá-lo sem ser visto. Mesmo que não o
imagine violento, não desejo vê-lo esquentado.
Também não o concebo um agente que tenha
vindo pra vizinhança com a ideia de detonar o chafariz com bombas caseiras.
Gente que deseja o bem, nossa praça é um
lugarzinho pobre, cuja maior riqueza são as poucas árvores onde os passarinhos
vêm cantar pela manhã.
Pessoa augusta que só faz o bem,
perdoe-me se o acho bem capaz de saracotear peladão no coreto. Perdoe-me, pois
tal pensamento me embaraça, tanto que, ao imediato de pensá-lo em pelo, breco-me
e tiro os fones.
Satanás não saracoteará na casa do Senhor?
A minha mente é uma casa térrea. Vivo
onde um porão secreto tem difícil acesso. Sendo térreo, não visito nenhum sótão
e não uso escada pra alcançar o subsolo. Não piso o subterrâneo quando bem
quero, ele é que abre suas picadas. Mesmo quando me vejo de fora, sou térreo e
sinto que a escada que não vejo é transitória. Pelo reflexo na bolha de sabão, tanjo
pétalas, espinhos e o capacho.
Caro vizinho que veio morar à beira da
nossa praça, não nos queira mal, não pense mal de quem o espreita.
Não sei seu nome, mas não use minha
ignorância contra mim.
Quem sabe, amanhã, eu o encontre
comprando água sanitária; juro que não pretendo denunciá-lo, juro, nem sei se
água sanitária seja útil na fabricação de artefato explosivo.
Seja afável, não abuse da franqueza. Não
sou covarde porque sinto medo, só me falta a audácia da franqueza.
Posso estar enganado, mas o cavalheiro realmente
parece ser um camarada corajoso.
Ao fotografá-lo comprando água
sanitária, não creia que eu também seja corajoso; só produzirei provas do quão
corajoso o senhor é.
Sem fazer especulações sobre o que não vejo,
o senhor não precisa fumar pra que eu alcance farejá-lo insone.
Mesmo que eu esteja acordado de
madrugada, vá dormir tranquilo, até porque sua casa tem sótão e toda casa que
tem sótão, ela também tem porão; fique sossegado, sou gente pacata que nem
porão costuma acessar quando flagrado nervoso.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de março de 2025.
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