terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O que for preciso

 

O que for preciso

 

Quero um gole de café, não quero água ou guaraná. Quero um jogo na tevê, não quero noticiário ou fofocas. Quero um banho gostoso de tomar, não quero ducha que mais aprofunde minha neurastenia.

Presumo: pra calvo topetudo, pente banguela é escova.

Passa um bando de quero-queros, e daí? Passo à varanda onde a cadeira balança, e daí? Possa acalmar-me o vaivém na rua, então?

Então nada ou muito pouco; perturbador é ser quase nada.

Perturba-me o guarda da esquina que está preso ao celular. Aflige-me o guincho que enrola para levar embora a ambulância quebrada à porta da casa de onde alguém acabou sendo levado num táxi. Sinto falta da alegria de papear no portão com gente que fala da vida alheia como se falasse de si na terceira pessoa.

Quero ser os nove fora quando a conta não fechar, não quero o cem porcento de uma nota fria, pois já tem desvio demais pra que se chegue a alguns finalmentes. Quero rir quando o sol se pôr, não quero o sufoco que tira o sono. Posso sonhar noutra noite tranquila, sem que os ruídos da geladeira sugiram haver monstros prontos pra me trucidar.

Só aí é que pego a visão: falar da vida alheia é fácil, difícil é aceitar que outros falem de mim porque me conheçam por outras faces.

Nada de noves fora ou cem porcento? Bola fora é ficar na banheira por estar em impedimento.

O que me proíbe de tomar café, estourar pipoca e vibrar com o jogo do mais novíssimo tenista que se revela potencialmente a mais recente estrela brasileira?

Não tenho dezoito anos.

Não tenho a inocência que julgava ter aos dezoito anos.

Não me quero barrado por não querer ter aqueles dezoito anos que a nostalgia supõe esplêndidos em berço dourado.

Para ser honesto, não sou pessoa disposta a fazer de tudo por um minuto de paz. Pra ser menos cínico que eu possa, acho que a paz ou é ilusória ou é compensatória, e crime algum há de compensar a ilusão de melhorar a cada dia.

É preciso treinar no banheiro?

Apesar de suspirar por ilusões, suspiro melhor depois de uma noite de sono sem monstros na cama. Apesar de acordar sozinho, concordo que o mundo ficaria bem melhor se os monstros vivessem longe daqui. Apesar de lustrar a lâmpada, Aladim não me dá o boa-noite que anseio. Apesar do espelho, Alice não entra comigo na banheira. Apesar de que suspiro, a maior parte do tempo nem me lastimo do que faço.

Para ser mais honesto ainda, não sou gente que encrenca quando o que faço nem recebe a atenção que poderia ter recebido se houvesse quem topasse encrencar comigo quando afirmo que não encrenco por qualquer troço que eu faço.

Pelo gênio de Aladim, Alice, pulo o espelho?

Não me orgulho de fazer o que for preciso para merecer a atenção, faço o que posso porque sei fazer, porque desconfio que posso fazer, porque faço ainda que ache que posso fazer melhor se não ficar rindo quando acerto o ponto, entro no jogo, ganho em causa própria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2025.

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