quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Ridículo descarado

 

Ridículo descarado

 

César Augusto, no picadeiro que é seu coração, por ele, hoje, vaza esse sangue quentinho, gerando esse pulso aos chiliques, dando ritmo aos engulhos, mas não se deixe chafurdar no charco da sua memória, porque, meu chapa, sua biografia não tem que ser empastelada pelas distorções fabricadas por gente descarada, essa gentalha ridícula, que tanto trabalha para classificá-lo como apóstata.

Você nunca desonrou a tradição.

Quando chegou aos quinze anos, o senhor rebelou-se, recusou-se a debutar em casaca, cartola, luvas e polainas que nem o Fred Astaire, bateu-se pela mimosa da Betty Boop que sua avó costurou em surdina, modelo que o fez abalar inolvidável aquele baile.

César Augusto, siga honrado mais esta vez, não atire a caipirosca na cara do maninho, porque começar outra briga com Marco Aurélio é tudo o que o seu irmão quer.

Ele pensa que fazer piada vale o tempo todo.

Foi-se o tempo, babaca. Agora são dias de respeitar as pessoas. O vento virou. O que atraía, já não mais, causa repulsa. Se o tempo é de ouvir quem não podia falar, também é tempo de falar na hora certa. Se é tempo para celular no bolso, é tempo para desligá-lo no cafezinho. É tempo para os filhos estudarem na sala de aula, bem como é certo não correr de telefone na mão.

Do que mais se lembra?

César Augusto, recreio era intervalo pra se esquecer da taboada do sete e da conjugação do verbo ser.

Você era outra criança correndo, gritando, fugindo da polícia porque era ladrão. Vocês, alunos do grupo, brincavam sem medo de quebrar a perna. No pique ou pulando mula, vocês eram alunos que paravam para cantar pelo Brasil Grande.

Você era o futuro, César Augusto.

Você cresceu, casou, descasou, os seus filhos já não brincam mais o carnaval como Betty Boop ou Fred Astaire.

Você não tem que pôr mais carvão para queimar a picanha do seu irmão, opte por caprichar na caipirosca.

Conte piada que não seja ofensiva a quem mantém celular no bolso enquanto toma uma caipirosca e acha a picanha uma delícia.

Você sabe, você sente, este é o tempo de encher a boca com o que há de melhor, bem como são dias para mastigar sem cuspir na cara de gente que mastiga de boca aberta, não larga o celular e adora insultar, sempre cuspindo.

Seja firme, César Augusto, honre os seus perdigotos, tão somente esporádicos, coisa de gente prudente, gente que é bem capaz de errar a mão no açúcar da caipirosca, no fogo da churrasqueira, no tabefe na fuça do camarada que não controla a matraca.

Você é brasileiro, César Augusto, lembre-se que é brasileiro gentil, daquela vertente que só paga mico sendo pato. Você é gente que sabe com quantas patacas é feita uma patacoada, né?

Quando o álcool na cachola incendiar miolos, não seja outro ridículo descarado, é tempo de voltar para casa. Vai, César Augusto, tá na hora de mandar às favas quem sequer saiba o que são favas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário