César Augusto, no picadeiro que é seu
coração, por ele, hoje, vaza esse sangue quentinho, gerando esse pulso aos chiliques,
dando ritmo aos engulhos, mas não se deixe chafurdar no charco da sua memória, porque,
meu chapa, sua biografia não tem que ser empastelada pelas distorções fabricadas
por gente descarada, essa gentalha ridícula, que tanto trabalha para
classificá-lo como apóstata.
Você nunca desonrou a tradição.
Quando chegou aos quinze anos, o senhor rebelou-se,
recusou-se a debutar em casaca, cartola, luvas e polainas que nem o Fred
Astaire, bateu-se pela mimosa da Betty Boop que sua avó costurou em surdina,
modelo que o fez abalar inolvidável aquele baile.
César Augusto, siga honrado mais esta
vez, não atire a caipirosca na cara do maninho, porque começar outra briga com Marco
Aurélio é tudo o que o seu irmão quer.
Ele pensa que fazer piada vale o tempo
todo.
Foi-se o tempo, babaca. Agora são dias
de respeitar as pessoas. O vento virou. O que atraía, já não mais, causa
repulsa. Se o tempo é de ouvir quem não podia falar, também é tempo de falar na
hora certa. Se é tempo para celular no bolso, é tempo para desligá-lo no
cafezinho. É tempo para os filhos estudarem na sala de aula, bem como é certo
não correr de telefone na mão.
Do que mais se lembra?
César Augusto, recreio era intervalo pra
se esquecer da taboada do sete e da conjugação do verbo ser.
Você era outra criança correndo,
gritando, fugindo da polícia porque era ladrão. Vocês, alunos do grupo,
brincavam sem medo de quebrar a perna. No pique ou pulando mula, vocês eram alunos
que paravam para cantar pelo Brasil Grande.
Você era o futuro, César Augusto.
Você cresceu, casou, descasou, os seus
filhos já não brincam mais o carnaval como Betty Boop ou Fred Astaire.
Você não tem que pôr mais carvão para
queimar a picanha do seu irmão, opte por caprichar na caipirosca.
Conte piada que não seja ofensiva a quem
mantém celular no bolso enquanto toma uma caipirosca e acha a picanha uma delícia.
Você sabe, você sente, este é o tempo de
encher a boca com o que há de melhor, bem como são dias para mastigar sem
cuspir na cara de gente que mastiga de boca aberta, não larga o celular e adora
insultar, sempre cuspindo.
Seja firme, César Augusto, honre os seus
perdigotos, tão somente esporádicos, coisa de gente prudente, gente que é bem
capaz de errar a mão no açúcar da caipirosca, no fogo da churrasqueira, no
tabefe na fuça do camarada que não controla a matraca.
Você é brasileiro, César Augusto, lembre-se
que é brasileiro gentil, daquela vertente que só paga mico sendo pato. Você é
gente que sabe com quantas patacas é feita uma patacoada, né?
Quando o álcool na cachola incendiar
miolos, não seja outro ridículo descarado, é tempo de voltar para casa. Vai, César
Augusto, tá na hora de mandar às favas quem sequer saiba o que são favas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2025.
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